“Por que troquei a carreira de advogada e acadêmica para ser motorista de trailer”

Priscila Fett - 28 dez 2015 Em pose no Havaí, Priscilla Fett, que ao se formar advogada achava (sem de fato acreditar) que a vida estava resolvida. Não estava. E o caminho era muito mais instável do que ela sequer podia imaginar.
Em pose no Havaí, Priscila Fett, que ao se formar advogada achava (sem de fato acreditar) que a vida estava resolvida. Não estava. E o caminho era muito mais instável do que ela sequer podia imaginar.
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por Priscila Fett

Era o alto verão carioca, em janeiro de 2008, quando colei grau e me tornei bacharel em Direito. Dentre as carreiras “clássicas e estáveis”, foi essa que eu decidi abraçar.

Nessa época, acabara de me mudar para São Paulo, após ter casado com um carioca “expatriado”. Assim que cheguei, fiz minha matrícula num curso de pós-graduação em Direito Público. No ano seguinte, dediquei meu tempo para entrar no concorrido programa de mestrado do Largo do São Francisco, na USP. Após muito estudo, pimba! Passei! Uhu! Pensava em me tornar professora, dar palestras e cursos por aí afora.

Foram dois anos de muita ralação – 10 horas diárias de estudo! Durante esse período, fiz cursos na Holanda, ganhei bolsa para estudar na Itália, apresentei trabalhos em congressos, publiquei artigos em revistas renomadas e defendi minha dissertação de mestrado em outubro de 2012. Dizia para mim mesma: Ufa! Consegui! Foi ralado, mas valeu!

A coroação veio com a publicação da minha dissertação pela editora do Ministério das Relações Exteriores e a inserção desse meu trabalho no banco de pesquisa da Organização das Nações Unidas. O diálogo interno continuava:

— Nossa, que lindo, Priscila! You made it, girl! Mas e aí? Tá feliz?
– Opa, tô! Conquistei bastante coisa, superei medos e desafios.
— E realizada, você tá?
– Hummm, realizada já é outro papo!

Mas descobri que essa tal de realização, muitas vezes, não está alinhada com a ideia que o senso comum tem de sucesso. Aos olhos de muitos eu estava trilhando uma carreira bem-sucedida, mas não era necessariamente uma carreira que me preenchia. Contudo, eu não tinha ideia do que poderia preencher esse vazio. E não sabia nem por onde começar a procurar.

Sente o drama: venho de uma família conservadora, estudiosa e de servidores públicos. Todos seguiram carreiras “clássicas e estáveis”. Minha mãe sempre me incentivou a fazer concurso público – para ser mais exata, esse papo era pauta do café da manhã, do almoço e do jantar: “Priscila, você tem que fazer um concurso, minha filha! Esse é o caminho das pedras! Vai por mim!”

Ô, gente, concurso público não é para mim não! Não é a peça que falta para eu me sentir completa. Longe disso!

Então, comecei, nos meus raros momentos vagos do estudo ou do trabalho, a procurar o meu Nemo – o meu peixinho dourado da realização. Já aviso logo: essa busca, gente linda, exige perseverança! Rola muito desânimo, vontade de jogar tudo pro alto e doses cavalares de maracujina intravenosa para combater o nervosismo e a ansiedade.

Nessa busca, olhei bem dentro de mim para ver se enxergava o que realmente gostava, quando, então, encontrei (contando nos dedos em voz alta e olhando para o teto): escrever, música, arte, decoração, culinária, fotografia e viajar. Tá! E eu me perguntava: Agora como junto tudo isso? (cri, cri, cri…) Sei lá!

Saí fazendo cursos de caligrafia, lettering, encadernação, criatividade, ilustração, aquarela, fotografia, design gráfico, até voltei a tocar violão e… nothing.

Tinha a impressão de que a sorte estava debaixo do meu nariz, mas não conseguia enxergar. Foram necessárias três viagens especiais para que tudo começasse a fazer sentido

Durante três anos seguidos viajei com o meu marido para o Havaí e a Califórnia. Sempre detestei repetir viagens, mas essa dupla aí tem moral para fazer qualquer outra alternativa de viagem ir para o beleléu. São lugares que me apresentaram um way of life irresistível e que, a partir daquele momento, definiram a identidade visual, estética, musical e artística da minha forma de viver, dos meus sonhos e dos meus projetos.

Priscila deixou para trás anos de advocacia e vida acadêmica para apostar em um blog no qual relata experiências e viagens inesquecíveis.

Priscila deixou para trás anos de advocacia e vida acadêmica para apostar em um blog no qual relata experiências e viagens inesquecíveis.

O aloha spirit havaiano misturado à vibe cool californiana foram essenciais para, sete anos depois de eu me formar em Direito, de estudar aquele tanto, de fazer todos os cursos mencionados e de sofrer com a sensação de ainda estar longe do meu objetivo, eu criar o blog Trailer 55 (T55), do qual eu sou a pilota. Priscila, muito prazer!

O blog começou em agosto de 2015, depois de três anos de vida acadêmica. O Trailer 55 é o porta-voz de todos os meus “gostavas” ali de cima. Nele, escrevo sobre tudo o que me dá prazer e através dos meus textos imprimo aquele way of life que me inspira e prego o free spirit de sair rodando pelo mundo, se misturando aos locais, fazendo amigos, experimentando sabores, conhecendo culturas, colecionando memórias e registrando momentos.

O trailer – e o apoio do maridão — foram a dose de coragem que eu precisava para sair do escritório e encarar meus pais. A revelação foi bombástica. Lembro do meu pai questionando se eu estava convicta da decisão de abandonar uma promissora carreira acadêmica para tocar um projeto sem garantias. Confesso que diante dessa pergunta fiquei insegura.

Meu pai tinha razão! Minha carreira estava em ascensão. Mas o que ele não sabia era que durante todo o tempo antes disso, eu apenas postergava minha chance de ser feliz e realizada

Hoje estou feliz! E meus pais também! Juntei um dinheirinho durante os anos que trabalhei como advogada para me bancar e financiar esse sonho enquanto o blog não se torna financeiramente sustentável. Mas todo dia é um desafio: gerenciar o blog, produzir conteúdo, fazer o blog conversar com Facebook e Instagram,  conquistar, à unha, cada um dos meus seguidores (amo todos, passengers queridos), manter-me atualizada e antenada nas novidades, mexer em diferentes softwares para cuidar da identidade visual da marca e das fotos que colorem meus posts… Tudo isso feito por uma advogada que, até pouco tempo atrás, só sabia dar likes e compartilhar coisas por aí.

A verdade é que todo dia sou obrigada a sair da minha zona de conforto para ver o novo negócio emplacar

E emplacar significa conseguir dialogar com um público que se identifique com os textos, gostos e ideias que transmito! Quero um leitor interativo e assíduo que veja o blog como uma fonte de novidades, tendências e opiniões interessantes! Quero, por fim, um passageiro que vista – literalmente – a camisa Trailer 55, pois, em breve, pretendo lançar uma linha cool de vestuário que retrate a vibe trailer.

O lema do Trailer 55 é curtir o slow motion, o savoir vivre, o dolce far niente, isto é, o viver e degustar cada detalhe da vida sem a pressa que o cotidiano nos impõe. Então, se você se identifica com essa velocidade, vem com a gente!

 

Priscila Fett, 29 anos de estrada, alguns como advogada, outros como cantora de roda de amigos, todos como viajante e, os próximos, como fundadora, curadora e pilota do blog de estilo de vida Trailer 55

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