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Quando o algoritmo encontra a crueldade: os desafios para construir redes sociais seguras para um futuro multiespécie

Alessandra Moura - 30 set 2026 Alessandra Moura, especialista em Movimentos Culturais e Decoloniais no Atelier do Futuro e no estudo Futuro Multiespécie.
Alessandra Moura, especialista em Movimentos Culturais e Decoloniais no Atelier do Futuro e no estudo Futuro Multiespécie.
Alessandra Moura - 30 set 2026
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As redes sociais estão repletas de imagens e vídeos de animais, principalmente pets, brincando na natureza ou ao lado de seus tutores. É comum que as pessoas procurem esse tipo de conteúdo em busca de alguns instantes de conforto, paz ou alegria.

Existe, porém, uma outra face dessas mesmas redes: a produção e a circulação de conteúdos que registram maus-tratos contra animais.

Segundo dados da SaferNet, referência em direitos humanos na internet, em 2025 houve um aumento de 53% no número de denúncias de maus-tratos. Casos de zoossadismo — prática que envolve o sofrimento, a mutilação ou a morte de animais para satisfação pessoal ou sexual — são investigados em diferentes regiões do Brasil.

Recentemente, uma mulher foi presa em São Paulo após a denúncia de uma ONG da Bulgária, que identificou que a brasileira vendia fotos e vídeos nos quais esmagava pintinhos, coelhos e gatos com as mãos e os pés por 50 euros.

Enquanto a sociedade avança no reconhecimento dos animais como indivíduos sencientes e sujeitos de direitos, esses mesmos animais também aparecem em um ambiente digital que recompensa a atenção e a reação imediata

Nesse contexto, conteúdos violentos podem alcançar muitas pessoas, principalmente jovens e adolescentes, justamente por provocarem choque e indignação.

Segundo Daniela da Silva, jornalista, ex-executiva de políticas públicas do WhatsApp/Meta e fundadora e diretora executiva da CTRL+Z, uma ONG brasileira lançada no início de 2026 com o objetivo de enfrentar o monopólio e os abusos das big techs, existe um problema anterior ao conteúdo publicado: o próprio design das plataformas.

“O propósito de desenho dessas tecnologias é o engajamento máximo. É fazer com que o usuário fique o máximo tempo possível na tela, se engaje com os conteúdos que são apresentados para ele o máximo possível.”

Daniela da Silva, fundadora da CTRL+Z.

Daniela da Silva, fundadora da CTRL+Z.

Desenhadas para estimular emoções e reações imediatas, as redes sociais favorecem a circulação de conteúdos capazes de provocar choque, indignação ou curiosidade. Diferentemente da lógica editorial tradicional, em que a seleção e a contextualização das informações tem um papel central, nas plataformas digitais a capacidade de um conteúdo gerar interação também influencia sua visibilidade. Nesse ambiente, conteúdos mais sensacionalistas podem ganhar alcance justamente por provocarem respostas rápidas dos usuários.

“As tecnologias que a gente usa nas redes sociais no dia a dia foram cuidadosamente desenhadas para nos impulsionar a isso: a comentar antes de fazer uma reflexão, a clicar no botão de compartilhar sem verificar a fonte. Elas não foram desenhadas para você pensar antes de falar, foram desenhadas para você falar antes de pensar.” — Daniela da Silva

Quando aplicada aos maus-tratos animais, essa arquitetura transforma a dor em espetáculo, ativo econômico e engajamento.

A CRUELDADE COMO ESPETÁCULO E MOEDA SOCIAL

Investigando os ataques a escolas em 2023, a Delegada Lis, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD), mapeou comunidades extremistas em que a violência contra vulneráveis servia como ritual de pertencimento.

O zoossadismo estava entre as práticas mais frequentes nesses grupos, incluindo casos de tortura deliberada de animais transmitida ao vivo.

As transmissões duravam horas e reuniam centenas de espectadores que incentivavam e financiavam os atos. Em fóruns abertos, canais do Discord e grupos não moderados, a violência ganha dinâmicas de gamificação: os participantes são estimulados por desafios, com acumulação de pontos, metas financeiras e encomendas de conteúdos sob medida

Em alguns casos, as investigações passaram a identificar estruturas organizadas por trás da produção e comercialização desse tipo de conteúdo. Em março de 2026, por exemplo, o Ministério Público Federal denunciou envolvidos em um esquema de produção e venda de vídeos de tortura animal também pelo crime de associação criminosa, apontando uma união estável e estruturada para a prática dos delitos.

“Não se trata de maus-tratos comuns, mas de tortura planejada. O que mais impressiona é a busca por prazer na crueldade.” — Delegada Lis

Delegada Lis, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD).

Delegada Lis, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD).

Esses casos expõem a necessidade de cooperação internacional e de responsabilização das plataformas digitais para enfrentar a atuação dessas redes e dificultar a produção, a circulação e a monetização de conteúdos de violência contra animais.

MODERAÇÃO PRECARIZADA, PRESSÃO REGULATÓRIA E O ECA DIGITAL

As plataformas digitais desenhadas para maximizar a retenção de atenção tentam conter danos por meio de camadas de segurança que nem sempre enfrentam as características estruturais de seus próprios produtos. O resultado é a exposição de usuários — especialmente crianças e adolescentes — a conteúdos e mecanismos capazes de estimular o uso compulsivo.

Essa contradição ficou evidente em agosto de 2026, quando a Meta concordou em pagar mais de 17 bilhões de dólares para encerrar processos que a acusavam de criar recursos deliberadamente viciantes e prejudiciais para crianças e adolescentes, em um acordo histórico com procuradores-gerais de diversos estados americanos.

O acordo prevê mudanças como limite padrão de duas horas diárias para adolescentes, bloqueio do acesso durante a madrugada e redução das notificações no horário escolar. A Meta, por sua vez, não admitiu responsabilidade.

Os mesmos sistemas de design que buscam prolongar a permanência do usuário também podem ampliar sua exposição a conteúdos potencialmente nocivos 

A moderação, nesse contexto, não atua sobre um ambiente neutro. Ela tenta reduzir os danos produzidos por um sistema cuja lógica de funcionamento é baseada na recomendação contínua e na retenção da atenção.

Para reduzir custos e ampliar a escala de suas operações, as plataformas combinam sistemas automatizados de detecção com equipes humanas de moderação. A inteligência artificial pode identificar grandes volumes de conteúdos potencialmente problemáticos, mas a análise humana continua importante para interpretar contexto, ironia, linguagem local e situações em que uma decisão automatizada pode produzir erros.

No entanto, a Meta vem reduzindo a dependência de mecanismos tradicionais de moderação e ampliando o uso de sistemas automatizados.  A GLAAD, ONG focada na defesa dos direitos LGBTQ+ e na mudança cultural, aponta, em seu Social Media Safety Index, uma aparente dependência excessiva da moderação por IA sem revisão humana, além de falhas na identificação de conteúdo anti-LGBTQIA+ em idiomas diferentes do inglês.

O relatório também indica que as mudanças promovidas pela Meta em suas políticas de discurso de ódio representam uma ameaça significativa à segurança de pessoas LGBTQIA+, deixando este e outros grupos vulneráveis mais expostos à violência e ao assédio online

No Brasil, a resposta institucional ganhou força com a entrada em vigor do ECA Digital. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) passou a estabelecer orientações e mecanismos de monitoramento relacionados à proteção de crianças e adolescentes, incluindo o controle de idade.

A legislação também prevê mecanismos de supervisão parental, proteção contra conteúdos inadequados e medidas para impedir práticas que estimulem o uso compulsivo por crianças e adolescentes.

O DESIGN DA DESACELERAÇÃO: POR QUE A FRICÇÃO É NECESSÁRIA

A inovação digital tem sido construída a partir da eliminação de obstáculos, priorizando menos cliques, mais respostas instantâneas, rolagem contínua e conteúdos personalizados. Quanto menor a fricção, melhor a experiência.

Mas, quando o conteúdo em circulação envolve violência e crueldade, a ausência de qualquer pausa pode produzir o efeito contrário. Ao eliminar os obstáculos entre o impulso e a ação, as plataformas também podem eliminar o tempo necessário para o discernimento e a empatia.

É nesse ponto que a ideia de fricção ganha outro significado. Não como uma falha de usabilidade, mas como o espaço entre ver, produzir uma reação e decidir se aquele conteúdo deveria continuar circulando ou não 

A própria lógica que torna uma plataforma eficiente para capturar atenção pode ser inadequada quando aplicada indiscriminadamente a conteúdos que envolvem sofrimento.

O paradoxo se torna ainda maior quando observado a partir de um futuro multiespécie. Ao mesmo tempo em que novas tecnologias ampliam nossa capacidade de compreender outras espécies, os mesmos ecossistemas digitais podem transformar seu sofrimento em espetáculo.

Não se trata apenas de decidir quais conteúdos devem permanecer ou ser removidos, mas de compreender como uma infraestrutura construída para maximizar atenção interfere na maneira como percebemos, reagimos e nos relacionamos com o sofrimento de outros seres.

Talvez seja justamente essa contradição que permaneça quando se olha para a próxima década. Se as plataformas foram construídas para tornar tudo mais rápido — ver, reagir, compartilhar, recomendar e monetizar —, o que significa construir um ambiente digital seguro quando o conteúdo em questão é o sofrimento de outro ser? 

E, diante de uma infraestrutura que nos ensinou a falar antes de pensar, será que o verdadeiro avanço tecnológico não estará, finalmente, na capacidade de pausar?

 

Alessandra Moura é pesquisadora baseada na França, com mestrado pela Université Lyon. No Atelier do Futuro e no estudo Futuro Multiespécie investiga movimentos sociais, perspectivas contra-coloniais e transformações culturais contemporâneas.

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