Que tal apoiar refugiados pedindo comida pelo delivery? O Open Taste te dá a chance de fazer o bem comendo bem

Dani Rosolen - 1 set 2020
Joana (agachada na ponta à direita) é a fundadora da Open Taste.
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Receitas de cozinha são uma fonte riquíssima de memória afetiva. Para imigrantes e refugiados à procura de um novo lar, essa bagagem gastronômica pode ser também o caminho para um recomeço.

É por meio da culinária que a síria Joanna Ibrahim, 32, reconstrói sua vida, aqui no Brasil, e apoia outras pessoas em situação semelhante à dela. Joanna é a fundadora do Open Taste, uma plataforma multicultural criada para viabilizar a venda de pratos típicos produzidos por refugiados e imigrantes.

Em tradução livre, explica, o nome em inglês quer dizer “para todos os gostos”. A mensagem traduz a proposta inclusiva do projeto: diante de uma culinária diversa, quem come precisa estar aberto a experimentar o novo — sem preconceitos.

O plano de Joanna era abrir, no começo deste ano, um restaurante compartilhado para que os chefs que trabalham para o Open Taste vendessem suas iguarias in loco. A pandemia adiou o sonho da conquista de um espaço físico — e fez o negócio aderir ao delivery.

Como forma de enriquecer intercâmbio cultural, estimulando não só o estômago, mas os ouvidos, os chefs-refugiados compartilham com os clientes do Open Taste playlists com música típica de seu país — além de um cartãozinho de agradecimento escrito em seu idioma.

ELA DIZ QUE ESCOLHEU O BRASIL POR SER UM PAÍS “QUENTE” E DE “POVO ALEGRE”

Joanna decidiu deixar a Síria em 2014, fugindo da guerra que desde 2011 destrói seu país. Diz que escolheu o Brasil como destino por alguns motivos. Um deles era a oferta de vistos humanitários. Outra razão foi o clima.

“Em minhas pesquisas, vi que o Brasil era mais quente se comparado a outros lugares da Europa, que também era uma opção. Num país quente, tem mais sol — e o povo costuma ser mais alegre”

Antes de se estabelecer em São Paulo, em 2015, a futura empreendedora traçou um pequeno périplo, ziguezagueando por três estados brasileiros.

Primeiro, ela passou um tempo em Vila Velha, cidade vizinha à capital capixaba, Vitória, onde conseguiu tirar sua documentação de permanência. Depois, foi acolhida por uma família de Prudentópolis, no interior paranaense; lá, aprendeu o português e começou a trabalhar em eventos culturais.

Alguns meses depois, a avó de Joanna veio da Síria, acolhida por uma iniciativa de uma igreja. As duas, então, foram morar juntas em Juiz de Fora. Foi lá, no sul de Minas Gerais, que ela começou a trabalhar com comida — e teve sua primeira ideia de negócio.

DE ESPÍRITO EMPREENDEDOR, JOANNA TEVE  DUAS IDEIAS ANTES DO OPEN TASTE

Trabalhando com gastronomia, Joanna se deparou com a dificuldade de encontrar alguns ingredientes típicos do Oriente Médio. “Em São Paulo, as pessoas conseguem encontrar de tudo, mas em cidades menores vi que era mais difícil”, diz.

Ela pensou, então, em criar um e-commerce com uma rede de vendedores distribuída pelo Brasil.

“Fiz uma pesquisa e vi que havia espaço para essa iniciativa — mas o risco de perder ingredientes por conta do prazo de validade era muito alto”

Nesse meio tempo, Joanna veio para São Paulo, se aproximou do ecossistema empreendedor e ajudou até a fundar uma aceleradora, a Bluefields. Lá, em 2016, ela apresentou a ideia de criar uma plataforma virtual para refugiados venderem, ao consumidor final, refeições típicas de seus países (preparadas por eles mesmos).

O projeto ganhou o nome de Bab Sharki – referência, em árabe, ao Portão do Sol, um dos setes portões da cidade antiga de Damasco (a capital síria, onde Joanna nasceu), que conecta uma mesquita a uma igreja católica e é cercado por um mercado de temperos e artesanato.

O BAB SHARKI FICOU ENTRE OS 300 MELHORES PROJETOS NUMA PREMIAÇÃO NOS EUA

Com a ajuda da aceleradora, ela inscreveu sua proposta no Hult Prize, premiação nos Estados Unidos para jovens empreendedores de startups. O Bab Sharki ficou entre os 300 melhores projetos, mas não chegou à final.

Os aprendizados desse período deram à Joanna uma ideia mais clara do que queria fazer: criar um restaurante compartilhado em que refugiados oferecessem comidas típicas de seus países de origem.

Com o apoio financeiro da Bluefields, o modelo foi testada ao longo de 2018 no extinto House of Food. Uma vez por semana, às sextas-feiras, o espaço era tomado por sabores estrangeiros.

“A cada edição, a gente trocava as famílias de refugiados que estavam lá vendendo sua comida. Uma semana era alguém da Palestina, na outra, vinha uma família da Síria, depois do Congo… E assim por diante.”

ELA REBATIZOU O PROJETO, BUSCOU UM SÓCIO — E CAPACITAÇÃO PARA OS REFUGIADOS

Depois de ter a ideia validada no House of Food, Joanna foi estimulada pelos sócios da aceleradora a seguir em frente, de forma independente. A empreendedora mudou o nome do negócio, e assim o Bab Sharki virou o Open Taste.

Workshops de capacitação feita pela Relp Aceleradora para 16 chefs refugiados do Open Taste.

Nessa época, Joanna passou a se dedicar exclusivamente à ao projeto. Sentia, porém, falta de um cofundador para somar forças ao negócio; fez uma chamada no LinkedIn e, em outubro, o administrador Jonathan Thomaz embarcava na empreitada.

Em 2019, Joanna começou a correr atrás de uma maneira de capacitar os refugiados e imigrantes que trabalhavam com ela. Numa parceria com a Relp Aceleradora, organizou um workshop.

“Em sete encontros, durante cerca de um mês, 16 chefs de oito países aprenderam sobre gestão de cozinha e restaurantes, marketing digital, fotografia e storytelling.”

Durante o ano passado, ainda sem espaço físico, o Open Taste se dedicou a atender eventos.

“Participamos, por exemplo, de uma feira gastronômica promovida pela CPTM na Estação Autódromo durante o GP de Fórmula-1 e de feiras de rua promovidas pelo coworking Spaces”

Desde sua fundação, Joanna estima que já tenham sido investidos cerca de 150 mil reais no negócio – aporte vindo de um investidor-anjo, doações e prêmios – e que a iniciativa tenha impactado mais de 50 refugiados desde a época das sextas-feiras no House of Food.

SEM ESPAÇO FÍSICO DURANTE A PANDEMIA, O OPEN TASTE SE ABRIU PARA O DELIVERY

O sonho de Joanna para este ano era abrir um restaurante compartilhado para que os refugiados e imigrantes pudessem vender seus pratos. Com a pandemia, ela adiou o plano e se focou em um serviço de delivery, com as refeições preparadas numa dark kitchen (o mesmo que ghost kitchen, conhece?).

“Ao fazer uma visita técnica nas cozinhas dos chefs que hoje trabalham com a gente, percebi que nem todos tinham uma estrutura boa para atender em escala”, diz Joanna. “E entendi que uma dark kitchen seria o melhor caminho”

A cada dia, um chef diferente oferece entradas, pratos, sobremesas e bebidas típicas de seu país, num giro semanal por três continentes. Os pratos principais custam entre 22 e 35 reais.

Os chefs não recebem por receita, mas são contratados por dia de trabalho, explica a empreendedora. O pedido pode ser feito pelo iFood (mas Joanna recomenda que se dê preferência ao delivery direto do Open Taste).

“A pandemia aumentou muito a quantidade de restaurantes oferecendo delivery no iFood. Muitas vezes, as pessoas até clicavam no Open Taste, mas acabam não comprando. Resolvemos então criar um canal para atrair os clientes e estamos investindo na comunicação. Fidelizar o público é a parte mais difícil”

Já está com fome? Anote aí: às segundas, o menu é do México; nas terças, da Síria (e não, não é Joanna quem cozinha); às quartas, do Congo; quinta é dia de cozinha armênia; nas sextas, comida da Venezuela; e aos sábados é a vez da culinária colombiana.

HOJE, OUTRA FONTE DE RECEITA SÃO AULAS DE CULINÁRIA ONLINE

Joanna calcula que, até o momento, a Open Taste vendeu 300 pratos nesse esquema de delivery. Ou 300 “viagens”, afinal, provar os pratos dos refugiados é uma maneira (ótima em tempos de pandemia) de viajar e conhecer novas culturas sem botar os pés na rua.

Mwamba, prato do Congo que é ensinado nas aulas de culinária online.

Outra forma de monetizar nesse período (e atiçar a “fome de cultura” dos clientes) são as aulas de culinária online por vídeo, oferecidas na plataforma do Open Taste.

Com cerca de uma hora de duração, cada aula custa 48 reais e ensina a preparar uma receita. São oito opções, incluindo as patacones colombianas e o mwamba, prato congolês feito com couve e pasta de amendoim.

“Depois de se inscrever, o aluno recebe instruções por e-mail sobre os ingredientes e o material que vai precisar”, diz Joanna. “No momento da aula, acompanha o passo a passo com o chef e pode tirar dúvidas.”

A empreendedora diz que não pensa em voltar para a Síria. Adotou o Brasil e seu estilo de vida — inclusive o gosto pela “misturança” cultural, diz.

Aliás, ela conta que seu prato preferido, aqui, é o estrogonofe. Que, na verdade, é a adaptação de uma receita russa hoje assimilada como um exemplo “brasileiríssimo” de comfort food. Misturança boa é assim: enche a barriga e dá água na boca.

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  • Projeto: Open Taste
  • O que faz: restaurante multicultural de refugiados e imigrantes
  • Sócio(s): Joanna Ibrahim e Jonathan Thomas
  • Funcionários: 6 refugiados e imigrantes
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2018
  • Investimento inicial: R$ 150 mil ao longo dos dois anos de operação
  • Contato: [email protected]
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