Que tal transformar o que você sabe fazer de melhor em fonte de renda e ter seu próprio negócio? Esta é a proposta da Inventivos

Dani Rosolen - 6 set 2021 Monique Evelle e Lucas Santana, fundadores da Inventivos.
Lucas Santana e Monique Evelle, o casal de fundadores da Inventivos.
Dani Rosolen - 6 set 2021
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“Desde muito nova, eu sempre quis resolver problemas. Só não sabia que isso era empreendedorismo. Na periferia de Salvador, onde nasci, ninguém usava esse termo — mas as pessoas já faziam o famoso ‘corre’.”

Quem diz isso é Monique Evelle, 26, fundadora do Inventivos, uma plataforma que ensina as pessoas a transformar o que sabem fazer de melhor em fonte de renda e construir um negócio do zero. Lançada em 2020 pela soteropolitana Monique e seu companheiro, Lucas Santana, 28, a startup já tem muitas histórias e conquistas para compartilhar.

Em apenas um ano, mais de 1 500 pessoas passaram pela Inventivos, inclusive gente de outros países de língua portuguesa: Cabo Verde, Moçambique e Portugal. Desde o início das atividades, a empresa faturou cerca de 700 mil reais – e a expectativa é terminar 2021 com 900 mil.

A Inventivos, conta Monique, não é o primeiro empreendimento do casal. “O negócio é resultado de muito timing errado das nossas criações!”

MESMO SEM SABER, ELA JÁ EMPREENDIA DESDE OS 16 ANOS

Ainda no escola, como integrante do grêmio estudantil, em 2011, Monique criou um projeto para traduzir o “juridiquês” sobre direitos humanos e levar a conversa para a sua quebrada usando como ferramenta o futebol e temas abordados em novelas.

“No meio do caminho me disseram que isso era empreendedorismo social. Pensei: ok, mas isso significa ‘trabalho’ ou o quê? Com o tempo, entendi que se disseram que isso é empreendedorismo social, então tem uma forma de mudar o mundo e ganhar dinheiro”

Dois anos depois de sair da escola, aos 18, ela deu prosseguimento ao projeto como um negócio de impacto, que se transformou no que é hoje o Desabafo Social, um laboratório de tecnologias sociais aplicadas à geração de renda e educação.

PRIMEIRO, O CASAL FUNDOU UMA REDE SOCIAL COM UMA PROPOSTA MAIS ÉTICA

Na mesma época, Monique entrou na Universidade Federal da Bahia no bacharelado interdisciplinar em Humanidades, com ênfase em Política e Gestão Cultural. Até se encontrar, passou também por Engenharia Ambiental e Direito, mas acabou voltando para o primeiro curso.

Em 2015, ainda na graduação, quando participava de um evento de empreendedorismo para falar do Desabafo Social, ela conheceu o desenvolvedor e engenheiro Lucas, que cuidava da produção das palestras.

A partir daí, começaram a namorar e a empreender juntos. O primeiro negócio do casal foi a rede social Ubuntu, lançada ainda em 2015. Segundo Monique:

“Naquele momento, as pessoas já falavam sobre a questão da exposição e venda dos nossos dados nas redes, mas ninguém estava disposto a ficar fora desse universo. Então, decidimos criar uma alternativa, sem vender dados e privilegiando o interesse em temáticas de gênero, raça, educação e tecnologia”

A Ubuntu chegou a ter 16 mil usuários. Porém, para crescer ainda mais, precisaria de investimentos. “Era muito caro manter a plataforma. A gente não tinha como brigar com o Facebook, nem grana para isso fazendo o negócio acontecer do meu quarto, na quebrada. Decidimos, então, tirar o projeto do ar.”

DEPOIS, A DUPLA INVESTIU EM UM MARKETPLACE PARA AFROEMPREENDEDORES

No ano seguinte, Monique e Lucas lançaram a Kumasi (referência, segundo ela, ao principal mercado de Gana, onde 70% dos empreendimentos são liderados por mulheres). “Na época, era o único marketplace do Brasil com foco em afroempreendedores na área de beleza”, diz Monique.

Ela conta que o negócio caminhava bem, até que os empreendedores não quiseram mais pagar a taxa de 20% da plataforma.

“Esse era nosso modelo de negócio, mas eles achavam que tinha que ser de graça porque era para pessoas pretas… A proposta não era ser filantropia e sim um negócio, no qual a gente só ganhava se os empreendedores ganhassem…”

Diante da dificuldade de convencer os interessados, o casal mais uma vez se viu obrigado a desistir da ideia.

Neste momento, em 2017, o trabalho de Monique com o Desabafo Social chamou a atenção do jornalista Caco Barcellos e ele convidou a jovem para participar do Profissão Repórter, programa da Rede Globo. Ela aceitou.

Enquanto isso, Lucas construía uma carreira na Votorantim e depois no Itaú. Também passou a ser consultor na área de algoritmos em empresas como o Google e a mentorar pequenos negócios.

NA PAUTA, TEMAS DO DESABAFO SOCIAL CHEGAVAM A MILHÕES DE PESSOAS

“Não tinha como dizer não para o Caco Barcellos, então como as coisas não estavam dando certo no empreendedorismo, eu fui!”, diz Monique.

Ela aproveitava para trazer a milhões de espectadores que compunham a audiência da Globo temas que já tratava no Desabo Social e vice-versa, potencializando essas narrativas múltiplas. Porém, depois de um ano no programa, Monique decidiu pedir demissão:

“Adoro contar histórias, o formato do programa é interessante, o Caco Barcellos foi uma liderança inspiradora para mim… Mas eu não estava conseguindo tocar meus próprios negócios. Percebi que precisava sair do jornalismo para continuar empreendendo”     

Na época, ela começou a experimentar novos projetos e também foi chamada para compor a sociedade da Sharp, empresa de inteligência cultural que utiliza métricas e metodologias proprietárias para soluções de marcas e empresas.

A PANDEMIA DESPERTOU REFLEXÕES — E FEZ SURGIR A INVENTIVOS

No começo da pandemia, vendo a crise pela qual passava (e ainda passa) a maioria da população, Monique e Lucas começaram a refletir sobre três coisas: qual era o sonho dos brasileiros; se há espaço para todo mundo no futuro do trabalho; e como eles poderiam entregar o que as pessoas precisavam de imediato.

Combinando as resposta para essas três perguntas, eles chegaram à conclusão de que poderiam ensinar as pessoas a criar o próprio negócio ou gerar renda a partir de suas experiências e habilidades, permitindo que elas realizem seus sonhos, se desenvolvam e possam empreender de forma estruturada (e não apenas por sobrevivência).

Assim nasceu a Inventivos. O casal começou o negócio sem investimento, exceto pela grana para bancar o domínio e a hospedagem do site. Depois, receberam capital semente (de valor não revelado) do Black Founders Fund, iniciativa do Google Startups. E, assim, aprimoraram a plataforma.

A princípio, a ideia era oferecer um curso com duração de um ano e uma aula semanal ao vivo, facilitada pelo casal. Na Ubuntu, eles já tinham disponibilizado cursos de graça e a experiência foi desanimadora: no começo, as pessoas aderiam, depois acabavam abandonando.

Desta vez, decidiram mudar a estratégia e cobrar pelo curso: 470 reais, ou 47 reais por mês. Eles esperavam não mais do que 100 inscrições — e receberam mais de 400.

“Foi uma surpresa ver que tinha público e que nem tudo precisa ser de graça”, diz Monique. “Os participantes se identificavam com a gente e com os empreendedores convidados, viam que eles se pareciam com a maioria das pessoas da nossa comunidade — e que dava para aprender com eles.”

PARA CRESCER, FOI PRECISO REESTRUTURAR O FORMATO DO CURSO

Com o tempo, os sócios perceberam que, a longo prazo, fazer aulas ao vivo toda semana não era escalável. Eles não davam conta, e tampouco os alunos conseguiam acompanhar esse ritmo.

Após uma pesquisa com metade da base de alunos, decidiram estruturar um curso, o Empreender do Zero, com 12 módulos e uma assinatura anual de 470 reais. Monique explica:

“Nossa promessa é transformar o que a pessoa sabe fazer em fonte de renda, e isso não acontece em um mês… Por isso, não faria sentido ter um plano mensal”

As aulas gravadas e ministradas pelo casal cobrem áreas que vão desde autoconhecimento e inteligência emocional passando por gestão de tempo, desenvolvimento da mentalidade empreendedora, prototipação e busca por fundos de investimento. E não ficam só na teoria. Tem sempre uma parte mais “mão na massa”.

Os alunos também têm acesso a uma aula mensal ao vivo com um convidado. Já passaram por lá gente como Ana Kuroki (MESA), Artur Santoro (Batekoo), Bruna Monteiro (Além da Cura) e Heloisa Aidar (Altafonte Brasil).

MAIS QUE UM CURSO: UMA REDE SOCIAL E UMA PLATAFORMA GAMIFICADA

Durante essa jornada, Monique e Lucas não desistiram da ideia de rede social, que tiveram lá atrás.

Para a Inventivos, eles criaram uma rede exclusiva em que os participantes podem interagir, tirar dúvidas, apresentar ideias e pedir ajuda, como ela conta:

“Quando uma pessoa posta lá, consegue pelo menos 15 respostas e sugestões qualificadas de outros participantes”

Ou seja, não é só um “up”, um emoji ou um “parabéns” nos comentários. Outro diferencial da plataforma é a gamificação. Conforme o aluno avança no curso, consumindo os conteúdos, vai ganhando uma moeda virtual chamada Futuros, que pode ser trocada em uma loja virtual da Inventivos por soluções personalizadas, como consultorias individuais, mentorias e livros. Tudo é garantido através de parcerias com outras empresas.

Hoje, a startup é parceira, por exemplo, da Descomplica, que oferece nessa loja de soluções bolsas de pós-graduação e cursos livres, e da Árvore, aplicativo voltado a instituições de ensino que disponibiliza um catálogo de 30 mil livros. Como foi investida pelo Google, a startup também tem o apoio de uma rede de mentores e consultores parceiros.

TRANSFORMAR A TRAJETÓRIA DOS ALUNOS É MOTIVO DE ORGULHO

Monique fica feliz de dizer que poderia citar diversos casos de alunos que transformaram suas trajetórias a partir da passagem pela Inventivos.

Gente como Genivaldo Costa, de Feira de Santana (BA). No curso, diz a empreendedora, ele contou que estava estudando Fisioterapia, mas gostava mesmo era de escrever.

“Justamente porque muitas vezes as pessoas nem sabem em que elas são boas, o nosso primeiro módulo é sobre autoconhecimento e o segundo sobre inteligência emocional”

Três meses depois de concluir a experiência na Inventivos, Genivaldo largou a graduação em Fisioterapia e começou uma faculdade de Comunicação. “Agora, ele está trabalhando na área fazendo freelas e empreendendo a própria vida.”

Outro caso é o de Dayana Pinto, de Florianópolis. Ela é criadora do Arquivos Feministas, um perfil no Instagram com quase 300 mil seguidores.

“A Dayana já tinha uma rede social imensa, com audiência e uma comunidade engajada, mas não sabia o que fazer. Na Inventivos, desenhou um curso direcionado para as temáticas que aborda e no primeiro lançamento teve 300 inscritos. Agora, ela vive disso.”

COMO MOSTRAR VULNERABILIDADE NO ECOSSISTEMA EMPREENDEDOR?

Quando inscreveu a Inventivos no Black Founders Fund, Monique teve a sensação de que estava começando sua jornada empreendedora do zero. O fato de já ser conhecida no mercado, diz ela, quase tornava esse caminho mais difícil:

“Algumas pessoas acreditavam que eu não poderia receber esse apoio, falavam que eu não precisava… E por que outras startups podem ter aporte Série A, B, C, o alfabeto inteiro, e eu não posso ter um investimento semente?”

Outro desafio de Monique — ou talvez mais um receio — foi expor suas dúvidas e se mostrar vulnerável no ecossistema empreendedor. Mas isso passou!

“Sou uma curiosa compulsiva. Não tenho medo de pedir ajuda. Sei quais são meus superpoderes. O que não é meu forte, procuro aprimorar e aprender com os melhores.”

O OBJETIVO É PERMANECER EM SALVADOR E IMPULSIONAR O ECOSSISTEMA LOCAL.

Atualmente, Monique se dedica apenas à Inventivos. Passou o comando do Desabafo Social para outra pessoa e saiu da operação da Sharp. Recentemente, em agosto, Lucas também deixou o emprego no Itaú para focar apenas na própria startup.

Depois de se provar no mercado e crescer, os dois começam a planejar os próximos passos do negócio. Estão em busca de parcerias com universidades e negócios de Moçambique e Portugal, para atender os alunos locais da Inventivos, e analisam propostas de investidores e fundos para 2022.

Outra meta é ter um espaço físico para ser ponto de encontro da equipe (atualmente composta por seis pessoas). A única certeza é que essa nova casa será em Salvador.

“As pessoas perguntam por que não nos mudamos para São Paulo”, diz Monique. “Mas por que eu faria isso? Somos de Salvador e queremos mostrar que existem negócios bem-sucedidos na primeira capital preta do Brasil.”

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  • Projeto: Inventivos
  • O que faz: Plataforma de educação empreendedora
  • Sócio(s): Monique Evelle e Lucas Santana
  • Funcionários: 6
  • Sede: Salvador
  • Início das atividades: 2020
  • Faturamento: R$ 700 mil desde o início da operação
  • Contato: [email protected]
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