Quéquéré Jogos – a brincadeira de criança que amadureceu, ganhou acidez e virou negócio

Letícia Diniz - 3 fev 2015Guilherme Cianfarani, “fundador e go-go boy na empresa Quéquéré Jogos” (foto: Ana Maria Nora Tannus).
Guilherme Cianfarani, “fundador e go-go boy na empresa Quéquéré Jogos” num dia de ocupação criativa do Minhocão, em São Paulo (foto: Ana Maria Nora Tannus).
Letícia Diniz - 3 fev 2015
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Escândalos de corrupção, figuras públicas nada republicanas, obras superfaturadas construídas à custa de impostos e o jogo espúrio pelo poder. Quem poderia imaginar que a vergonha do povo brasileiro poderia se tornar motivo para diversão e aprendizado? A resposta é Guilherme Cianfarani e a Quéquéré Jogos, fundador e sua empresa inovadora. Nela, as mazelas políticas e éticas do nosso país viram mote para os jogos que criticam as estruturas brasileiras de poder e a corrupção, transformando em algo positivo – utilizando “dinheiro público”, ou financiamento coletivo – algo que antes só gerava desgosto e azia à população.

Exemplo disso é o jogo Brasil – Um País de Tolos, no qual todas as semelhanças com a realidade são totalmente calculadas. O slogan da Presidência da República no governo Lula, “Brasil, um país de todos, foi parodiado pra batizar o primeiro lançamento da startup de Guilherme. Provocativo, consiste em um jogo de cartas no qual cada uma traz uma personalidade (fictícia ou não) da sociedade brasileira. Paulo Maluf, Zagallo, Regina Duarte, Capitão Nascimento e Clarice Lispector são alguns dos notáveis que estão por lá. Cada carta contém uma citação do personagem e garante algum poder para o jogador que dela lançar mão. Uma espécie de Super Trunfo do caos dos nossos tempos.

Na apresentação do financiamento via crowdfunding no Catarse, o público não é poupado da acidez da criação de Guilherme: “no jogo você pode estuprar, mas não matar, fazer com que alguém te engula, estar certo ou errado, e se sua vida der um giro de 360 graus comer até um cu e uma buceta”. Em três meses de arrecadação, a Quéquéré angariou 19.350 reais – cerca de 30% a mais do que o valor mínimo para o projeto, 15 mil reais – e com este dinheiro, quais produziu 350 unidades do jogo.

Elementos do jogo Brasil, um País de Tolos, nos quais personalidades são transformadas em cartas com poderes e pontuações diferentes.

No jogo “Brasil, um País de Tolos”, personalidades são representadas por cartas com poderes diferentes.

No segundo jogo lançado pela Quéquéré, a meta do financiamento coletivo cresceu e a tiragem subiu para 1 000 unidades. Mais uma vez, o alvo da paródia ácida foi a política brasileira. Em A Conta da Copa é Nossa, produção que está saindo do forno agora, cada jogador é um empreiteiro que precisa angariar influências para realizar o maior número possível de obras para o Mundial – e, claro, encher o bolso. Se, por exemplo, o jogador conquistar boas relações com o governador Geraldo Alckmin, as obras que realizar no estado de São Paulo valem mais pontos.

Mas a inovação da Quéquéré transcende o produto final e transborda também para a cultura da empresa. Para falar sobre isso é preciso conhecer a história do homem por trás das cortinas. Em seu Facebook pessoal, Guilherme Cianfarani, 34, se apresenta como “fundador e go-go boy na empresa Quéquéré Jogos”, já dando mostras da irreverência que é marca da empresa. Turismólogo formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Guilherme trabalhou cerca de 10 anos em sua área de formação, na Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e no Ministério do Turismo. Mas a falta de perspectivas e desafios fizeram com que, em 2010, ele deixasse o emprego:

 “Eu me sentia um aposentado aos 30 anos”

Guilherme ainda não sabia, mas a Quéquéré já vinha sendo construída muitos anos antes da decisão de buscar novos rumos na carreira. Apaixonado por jogos, ele brinca de criá-los desde criança. Um dia, convidado para uma jogatina na casa de um amigo, foi apresentado a um nicho de games diferente de tudo o que ele conhecia, com mecânicas mais elaboradas e temáticas políticas, como a Guerra Fria ou as relações diplomáticas na Europa. Empolgado com a descoberta, Guilherme começou a pesquisar este universo e descobriu que não havia nenhuma criação que tivesse como tema a realidade brasileira. Dessa brecha nascia, em 2012, a Quéquéré Jogos.

UMA EMPRESA SEM CEO, MAS COM GO-GO BOY

Ele conta que suas posições políticas deram o norte para o modo de funcionamento de sua startup. “Seria um paradoxo imenso eu criar jogos que critiquem várias estruturas sociais e comportamentos que eu condeno e reproduzi-los em meu trabalho”, diz. Por isso, todos os jogos são criados com a licença Creative Commons, ou seja, com conteúdo livre e disponível para quem quiser fazer uso dele. O desapego de Guilherme com a propriedade intelectual vai a tal ponto que qualquer um pode construir jogos pela marca. “Se o tema for interessante e a proposta for condizente com os ideais, o idealizador do jogo terá um papel de liderança na construção e a justa remuneração”, afirma ele, do alto de seu cargo de go-go boy. “É preciso quebrar essa seriedade de ‘o presidente’, ‘o CEO’. Não me agrada estar em uma posição em que eu não possa jogar, brincar, ser irreverente.”

Em fase final de construção, o site da empresa também vai expor todos os registros financeiros. A Quéquéré quer ser diametralmente oposta à realidade que critica, razão pela qual sua política de negócios busca uma relação de transparência e troca com o público.

O nome da empresa é outra brincadeira que expressa a alma deste negócio. Dona Guiomar morreu sem saber, mas foi a criadora no nome. Avó de Guilherme, ao final de sua vida ela já parecia estar meio desconectada da realidade e repetia a ermo a expressão que batiza a empresa do neto. “Ela repetia isso e eu achava bonito. Ela parecia estar muito mais feliz, como se tivesse se libertado. Então é uma ideia de liberdade”, diz Guilherme.

Detalhe da embalagem do jogo "A Conta da Copa é Nossa!".

Detalhe da embalagem do jogo “A Conta da Copa é Nossa!”.

Com dois jogos já lançados e cerca de 10 em processo de criação, a Quéquéré faturou 40 mil reais em 2014. Tal receita veio do financiamento coletivo dos dois jogos já citados e também das palestras e oficinas que a empresa vende – o Sesc é um cliente importante. Também há projetos feitos sob encomenda, como o jogo Data Hacker, para o governo federal. Foi Ricardo Poppi, então coordenador de Novas Mídias e Outras Linguagens de Participação da Secretaria-Geral da Presidência, quem descobriu o trabalho da Quéquéré em um evento em Brasília e fez o convite. No Data Hacker, cada jogador é um programador independente em um esquema cooperativo no qual o objetivo é realizar um projeto para o governo.

A venda dos jogos é outra fonte de receita. O principal ponto é a loja virtual da empresa, mas tem crescido o interesse de lojas e sebos em comercializar o material. A Livraria da Vila, por exemplo, comprou 50 unidades de A Conta da Copa É Nossa por meio de uma cota do crowdfunding.

Os materiais criados pela empresa têm forte caráter educacional, tanto pela escolha de temas políticos quanto pelas habilidades que a mecânica dos jogos exercita. Em 2015, uma das frentes de trabalho é justamente a parceria com escolas onde os jogos poderão articular disciplinas para fomentar o aprendizado. Para o fundador da Quéquéré, “não tem porque a educação não ser um tesão”. Jogos como o Só Dói Quando Eu Penso (em fase de testes), sobre o período da ditadura militar, exemplificam a metodologia da Quéquéré, que aborda de maneira lúdica alguns assuntos que integram o currículo obrigatório das escolas.

Detalhe de cartas do jogo "A Conta da Copa é Nossa!". A acidez da Quéquéré não poupa ninguém.

Detalhe de cartas do jogo “A Conta da Copa é Nossa!”. A acidez da Quéquéré não poupa ninguém.

Como a Quéquéré funciona por projetos, não há funcionários contratados. Mas quatro parceiros (que atuam como freelancers) foram fundamentais para a estruturação e o crescimento do negócio: o programador e designer Enric Llagostera, o também designer Capi Etheriel, Felipe Prado, responsável pela burocracia e pelas questões jurídicas e o ilustrador Gus Morais, autor do traço de todos os materiais da Quéquéré até hoje. Ainda não dá pra viver só com os ganhos da empresa: todos os cinco têm projetos paralelos, mas a Quéquéré quer continuar em ascensão, e para isso, uma das principais apostas é digitalizar os jogos. Eles já receberam propostas para digitalizar alguns materiais, mas o negócio ainda não vingou porque, por enquanto, nenhuma empresa topou a condição de manter a licença Creative Commons.

Apesar de explorar polêmicas e criticar marcas e figuras públicas – Dilma Rousseff, Ricardo Teixeira, Coca-Cola e a Odebrecht, por exemplo, figuram jogos da Quéquéré – Guilherme não teme problemas com a Justiça. “Se eu sei que posso ser processado? Sim. Se eu tenho medo? Não”. Para ele, é uma questão de princípios: “Vivemos num mundo de disputa de símbolos. É absurdo a Coca-Cola ter a entrada que tem na casa das pessoas, na televisão, vender mentiras e eu não poder em um jogo criticar a Coca-Cola. É um Davi contra Golias absurdo. Uma briga que eu tenho que comprar”. Por enquanto, a empresa ainda não sofreu nenhum processo. Que não venham, mas se isso ocorrer encontrarão do outro lado alguém acostumado a jogar o jogo. E a rir disso tudo: quéquéré!

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