Quer ter uma conta bancária nos Estados Unidos e investir na bolsa americana sem sair do Brasil? Conheça a Nomad

Marina Audi - 25 ago 2021
Lucas Vargas, CEO da Nomad (crédito: divulgação).
Marina Audi - 25 ago 2021
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Parece que foi há séculos, mas houve um tempo em que as pessoas iam à Disney ou viajavam para os Estados Unidos a trabalho carregadas de papel-moeda. Na volta, ou você guardava os dólares para uma viagem futura, ou perdia dinheiro ao convertê-los para a moeda nacional.

Os cartões de crédito internacionais tornaram a vida do turista mais fácil, mas nem por isso menos custosa: além do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), é preciso pagar uma taxa bancária chamada spread — a diferença entre a cotação comercial da moeda estrangeira e o valor cobrado para realizar a operação. 

Simplificar a vida desse viajante é parte da proposta da Nomad. A startup permite que brasileiros não-residentes nos EUA possam abrir uma conta corrente em um banco americano, sem taxas de abertura ou manutenção, e tudo de forma 100% digital. 

O correntista da Nomad tem acesso a um cartão de débito virtual gratuito (bandeira MasterCard), que pode ser associado às carteiras digitais Apple Pay, Google Pay e Samsung Pay. 

Com poucos meses de atividade, a Nomad já registra 50 mil contas abertas. E, contando com uma trégua da Covid-19 (o que destravaria o fluxo de viagens internacionais), a fintech planeja mais do que dobrar este número, chegando a 120 mil contas antes que 2021 se acabe.

O CARTÃO DE DÉBITO DA NOMAD PODE SER USADO EM 20 PAÍSES

Para abrir uma conta digital internacional na Nomad é preciso ser maior de 18 anos, ter RG, CNH ou passaporte válido, um endereço fixo no Brasil e um número de telefone brasileiro ou dos EUA.  

O interessado deve baixar o aplicativo, preencher os dados pessoais e gravar um vídeo-selfie de 5 segundos, segurando um documento com foto — RG, CNH ou passaporte — e dizendo “Eu autorizo a abertura de conta na Nomad”. Isso serve como prova de vida, para evitar fraudes e certificar que o correntista existe.

Segundo Lucas Vargas, CEO da Nomad, ter uma conta corrente americana traz uma economia de aproximadamente 10% em transações comuns em comparação ao uso de cartão de crédito internacional.

“Com um cartão de crédito de um banco brasileiro gasta-se entre 4% e 7% de spread cambial, além de você pagar 6,38% de IOF. Já com o cartão da Nomad, o spread sobre o dólar comercial [mais barato que o dólar turismo usado no cartão de crédito] é de, no máximo, 2% — e o IOF é de apenas 1,1%”

Além dos EUA, o cartão de débito da Nomad já é válido também em uma penca de países: Brasil, Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Japão, Luxemburgo, Portugal, Singapura, Suécia, Suíça e Reino Unido. 

A economia se mantém mesmo quando o cartão de débito é usado em outros países estrangeiros. Por dois motivos, pontua Lucas: nesses casos, não há incidência de IOF; e as tarifas e os spreads da conversão do dólar para a moeda dos países com cobertura da fintech giram em torno de 1%. 

“Ou seja, ao se comparar os 3,1% da Nomad mais 1% de taxas de outros países, versus os 12% a 15% cobrados pelo cartão brasileiro, o ganho ainda fica muito alto.”

COMO PERMITIR QUE QUALQUER BRASILEIRO TENHA UMA CONTA CORRENTE NOS EUA?

A Nomad nasceu da cabeça de uma trinca de empreendedores ligados ao mundo da tecnologia: Patrick Sigrist (criador do iFood); Eduardo Haber, especialista em gestão de ativos e de patrimônio; e Marcos Nader, fundador da Comprova.com (adquirida pela americana DocuSign). 

A ideia foi surgindo aos poucos, a partir de 2016, quando Patrick e Eduardo viviam nos Estados Unidos e se deram conta de como era caro para estudantes, intercambistas e turistas do Brasil usarem o cartão de crédito internacional em viagens aos EUA. 

A vontade de amenizar esse problema foi ficando mais forte. Assim, em 2019, os dois se juntaram a Marcos e investiram 2,5 milhões de dólares de recursos próprios no projeto. 

A meta? Viabilizar uma maneira para que qualquer brasileiro pudesse ter uma conta corrente americana. 

Foram muitos meses até encontrar os parceiros certos, conseguir as licenças necessárias e construir integrações entre as tecnologias adotadas. Lucas conta:

“Tivemos de conectar todas as pontas e dar segurança aos parceiros nos EUA de que não trazemos [para o banco] pessoas que fazem lavagem de dinheiro, evasão fiscal ou tráfico de drogas… Por outro lado, foi preciso construir uma solução fácil, simples e rápida para o nosso cliente”

A operação começou pra valer em novembro de 2020. Lucas embarcou no projeto logo a seguir, em dezembro. Ex-iFood, Gabriel Pinto chegou para ser CTO da Nomad, completando o quinteto de empreendedores à frente da fintech.

UM PARCEIRO AMERICANO AJUDA A DAR SEGURANÇA E TRANSPARÊNCIA ÀS TRANSAÇÕES

Para operacionalizar a dimensão de serviços de banco de varejo da Nomad, os empreendedores firmaram parceria com um player americano, a Synapse Financial, um BaaS (Banking as a Service, conjunto de soluções tecnológicas para bancos) plugado ao Evolve Bank and Trust. 

Com isso, a Nomad oferece aos clientes a garantia de depósitos de até 250 mil dólares pelo Federal Deposit Insurance Corporation – FDIC. Caso o Evolve Bank and Trust (o banco parceiro da fintech brasileira) venha a quebrar, o cliente recebe o dinheiro de volta.

Este seria um dos diferenciais da Nomad. Segundo os sócios, os concorrentes indiretos da fintech abrem contas dolarizadas em paraísos fiscais (como as Ilhas Cayman) e não conseguem oferecer segurança.

Lucas diz que o processo de fazer esse trânsito cross-border do dinheiro sempre foi carregado de ineficiências, devido ao excesso de intermediários: 

“A gente precisa conseguir conversar com os dois sistemas financeiros das duas jurisdições – Brasil e EUA. Navegar esses sistemas exige saber lidar com fluxo de dinheiro, registros aqui e lá, custos associados a isso, simplificar e dar transparência para onde o dinheiro está indo”

Assim, com transparência, a fintech viabiliza que seus clientes façam remessas internacionais (algo especialmente útil para quem tem filho morando no exterior) e transações em dólar, como recebimentos por trabalhos temporários e pagamentos com o cartão de débito, que pode ser usado para compras on e offline.

OUTRO FOCO: DEMOCRATIZAR O ACESSO AO MERCADO DE INVESTIMENTO AMERICANO

Outra dor na mira dos fundadores da Nomad é a dificuldade do investidor nacional em operar nas bolsas americanas. Sobretudo o brasileiro “comum”, sem acesso a  gestores ou agentes autônomos — e para quem o mercado de ações americano parece tão amigável e compreensível quanto um grande tubarão-branco. 

Hoje, com carteiras pré-montadas e balanceadas por uma ferramenta de inteligência artificial, a Nomad coloca os fundos e bolsas dos EUA ao alcance dos brasileiros. Para abrir a Conta Investimento Nomad, o cliente precisa apenas do RG ou CNH. Daí, é só deslizar o dedo pelo app e investir com o auxílio do robô advisor.

No aplicativo, você encontra dois grupos de portfólio de investimento: carteiras temáticas (divididas em verticais como ESG, Tecnologia, Saúde e Vida etc., conforme o segmento econômico em que os ativos estão inseridos); e carteiras modelos, compostas por ETFs (Exchange Traded Funds) e construídas com foco no longo prazo, de acordo com os três perfis de risco — conservador, moderado e agressivo. 

Para operacionalizar esta frente de investimentos, a fintech tem uma licença de Registered Investment Advisor que a permite levar ativos, fazer compra, venda e gestão de carteiras. Com ela, a Nomad dá garantia de proteção até 500 mil dólares pela Securities and Exchange Commission – SEC e fornece relatórios fiscais para facilitar a declaração do Imposto de Renda.

O DESAFIO DE CONSTRUIR CARTEIRAS DE INVESTIMENTOS NOS EUA

Para gerir essas carteiras carro-chefe, a Nomad adquiriu a Alkanza, empresa americana que já contava com uma tecnologia desenvolvida por gente do MIT e Stanford para balancear as carteiras de investimento de forma automatizada. O sistema (que já foi usado por outros players, como a Rico, da XP) hoje é exclusivo da fintech brasileira.

Mas o que tem de complicado ou diferente de construir carteiras nos EUA? Segundo Lucas, um primeiro desafio é a quantidade muito maior de opções: 

“No Brasil há poucas centenas de empresas listadas na bolsa de valores. Nos EUA, temos algumas milhares de empresas listadas. Se o processo de avaliar empresas brasileiras já é complexo, imagine avaliar empresas americanas…”

Outros fatores precisam ser considerados: quanto de dinheiro alocar, em qual classe de ativo, como combinar esses ativos com o objetivo de longo prazo, levando em conta a volatilidade e políticas de tributação em cima de bens de capital… Além da tolerância ao risco, que é diferente entre brasileiros e americanos. O sistema proprietário da Nomad, portanto, equilibra esses parâmetros. 

“Uma parte dessa equação leva em consideração os ativos 100% americanos. A outra leva em consideração a expectativa das pessoas”, diz Lucas. “Quando se fala em uma carteira conservadora nos EUA, ela tem uma quantidade de ativos de renda variável até 40% maior [que a do Brasil]. Existe uma tolerância a risco maior do americano, mesmo quando é classificado como conservador.” 

O APORTE SERÁ USADO PARA ENCORPAR O TIME E LANÇAR NOVOS PRODUTOS 

Na última semana de julho, a Nomad anunciou a captação de uma rodada de investimento série A no valor de 20 milhões de dólares. 

O valor deverá financiar a startup pelos próximos 18 meses e ser empregado na expansão da operação — a expectativa é dobrar a equipe dos atuais 75 para 150 colaboradores — e no desenvolvimento e lançamento de novos produtos. 

Um novo hub de trading será lançado já no fim deste ano. A ideia não é substituir as carteiras atuais, e sim permitir flexibilidade aos clientes escolherem e comprarem ações específicas — por exemplo, um entusiasta da Apple que deseje adquirir ações da empresa.

“Tem menos a ver com o tamanho do montante do patrimônio e mais com um apetite a risco junto com maior entendimento”, diz Lucas. “Quando entendemos bem, assumimos melhor o risco.” 

Hoje, os portfólios de investimento da Nomad já são recalibrados tanto automaticamente quanto considerando inputs da equipe. No futuro, a fintech planeja implementar novas abordagens de gestão de patrimônio que vão permitir uma customização individual — e carteiras administradas via tecnologia.

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Nomad
  • O que faz: Plataforma digital para abrir conta corrente nos EUA e investir nas bolsas de valores locais
  • Sócio(s): Eduardo Haber, Gabriel Pinto, Lucas Vargas, Marcos Nader e Patrick Sigrist
  • Funcionários: 75
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2020
  • Investimento inicial: US$ 2,5 milhões
  • Faturamento: NI
  • Contato: [email protected]
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