Saiba como a Fertilid, com um simples autoexame, ajuda as mulheres a decidir a melhor hora de se tornarem mães

Dani Rosolen - 27 set 2021
Amanda Sadi, fundadora da Fertilid.
Dani Rosolen - 27 set 2021
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Na Fertilid, o dilema sobre querer ou não engravidar deu espaço a outra discussão: ter acesso a informações sobre a própria saúde reprodutiva e planejar, se assim desejar, quando a gestação irá acontecer.

A femtech começou a operar no final de julho e é a primeira a oferecer no Brasil um autoexame do nível de hormônio anti-Mülleriano (HAM) — principal indicador de reserva ovariana. A startup também analisa dados relacionados a estilo de vida, histórico familiar e ciclo menstrual para fornecer um relatório personalizado e didático sobre o tema.

Fundada pela publicitária Amanda Sadi, 33, a Fertilid não quer apenas vender exames, mas ocupar um espaço de plataforma educacional sobre fertilidade e incentivar as mulheres a olhar para o assunto como parte de uma formação básica. A empreendedora afirma:

“Assim como sabemos nosso tipo sanguíneo e quais são nossas alergias, acompanhar nossa reserva ovariana faz parte do conhecimento sobre o próprio corpo e extrapola a questão da maternidade, pois aponta, por exemplo, quanto tempo falta para a gente entrar na menopausa”

Para começar sua jornada, o negócio recebeu investimento de 1 milhão de reais de investidores-anjo e o apoio, aceleração e mentoria de três iniciativas: Grupo Female Force LATAM (idealizado pela Maya Capital), Rede Latitud e Future Female Business School, do Reino Unido.

ELA LEVOU UM SUSTO AO DESCOBRIR NUM CHECK-UP QUE SUA RESERVA OVARIANA ESTAVA BAIXA

Amanda trabalhou dez anos no Google, sendo sete voltados ao YouTube. Até que, em 2018, recebeu uma proposta do time global de produto e inovação do Waze, em Nova York. Aceitou, mas antes de se mudar, decidiu fazer um check-up. Foi aí que veio o susto.

Ela descobriu que tinha um teratoma no ovário, endometriose e que sua reserva ovariana estava baixa para sua idade.

Apesar de não ter planos de engravidar naquele momento, ela ficou incomodada ao perceber que a questão sobre sua fertilidade só veio à tona na hora de identificar um problema.

“Fui atravessada por essa experiência e comecei a refletir sobre o assunto, questionando por que, se essas informações existem, ninguém estava falando a respeito com essa nova geração de mulheres que está deixando para engravidar mais tarde”   

De acordo com o IBGE, entre 2008 e 2018 o número de mulheres que se tornaram mães pela primeira vez entre 30 e 34 anos aumentou 36% — e acima de 50% na faixa entre 35 e 39 anos.

POR QUE A SOCIEDADE NÃO FALA SOBRE FERTILIDADE?

Amanda começou uma investigação para entender se este incômodo que sentiu era só dela ou se outras mulheres também estavam passando por isso.

Descobriu que a saúde reprodutiva geralmente é debatida por especialistas com pacientes apenas em casos de tratamentos para a infertilidade.

Ela entendeu, no entanto, que num cenário em que as mulheres deixam para pensar na maternidade mais tarde é importante que essa informação seja monitorada e sirva de ferramenta de planejamento.

“Ao ter conhecimento da nossa saúde reprodutiva, de forma proativa e preventiva, antecipamos surpresas e evitamos frustrações, tendo margem de manobra para contornar eventuais problemas”

Que mulher nunca foi questionada se queria ser mãe e quantos filhos desejava ter? Praticamente todas. Mas quantas tiveram acesso a uma educação reprodutiva? Pouquíssimas. O que a maioria vive é uma dualidade especulativa.

“Fomos criadas numa cultura que cobra da mulher o cuidado para não engravidar e o uso de pílula, mas depois que passa dos 30 anos, a narrativa muda para: ‘você está ficando velha, olha o relógio biológico’”, afirma Amanda.

O TABU DA REPRODUÇÃO COMO ALGO “SAGRADO” E “MILAGROSO”

Outra descoberta de Amanda foi sobre o tabu e o misticismo ao redor do tema, com mulheres entregando para o destino uma questão que na verdade é científica.

“Isso mostra como o patriarcado reverbera em diferentes esferas, pois a sociedade tende a achar que tudo que é relacionado ao universo da mulher e da feminilidade é algo misterioso.”

Ao realizar uma pesquisa com 1 500 mulheres entre 18 e 34 anos, ela descobriu que 80% não sabem explicar ao certo o papel dos hormônios envolvidos na sua própria fertilidade, 60% não conversam com amigas ou familiares sobre sua saúde reprodutiva e questões voltadas à fertilidade e 40% queriam poder ter uma conversa mais franca e sem julgamentos com seus médicos sobre o assunto.

“Nossa pesquisa também mostrou que se as mulheres tivessem tranquilidade em saber que poderiam pensar em uma maternidade lá na frente, elas teriam mudado grandes decisões, seja arriscar mais nos empregos ou aprofundar estudos”  

Por fim, percebeu que o custo deste tipo de exame, alto e sem cobertura dos planos por ser considerado eletivo, também era uma barreira.

COMO TORNAR A INFORMAÇÃO SOBRE SAÚDE REPRODUTIVA MAIS ACESSÍVEL

A partir desses insights, nasceu o autoexame de HAM da Fertilid, vendido em um kit pelo e-commerce da startup e enviado para a casa da cliente.

O kit do autoexame da Fertilid para medir o nível de HAM.

A primeira coisa que a mulher precisa fazer ao recebê-lo é fazer uma ativação no site da empresa com o código enviado no produto. Lá, ela responde a 25 questões que levam em conta fatores como estilo de vida, histórico e planos futuros.

Depois, é hora de começar o autoexame, com o apoio de um filme tutorial acessível via QR Code, uma bula com passo a passo por escrito e um glossário, uma nécessaire com o material para realizar o exame (lancetas, lenço umedecido e um curativo) e um gabarito (para a usuária checar se a coleta deu certo).

“A gente está começando a criar esta cultura de self-test no país, por isso é importante ter um passo a passo tão específico, pensando em quem é mais visual, prefere as instruções em texto etc.”

Na prática, a mulher precisa furar o dedo com a lanceta, como num exame para diabetes, e carimbar o sangue num cartão em três áreas diferentes, deixando a amostra secar por três horas.

Depois, é só colocar o cartão em um envelope enviado junto ao kit para encaminhar a amostra ao laboratório de análise parceiro da Fertilid, o Synlab.

EM CASO DE DÚVIDAS, É POSSÍVEL FAZER UMA CONSULTA ONLINE

O resultado sai 14 dias depois de o exame chegar ao laboratório, onde os dados são interpretados por duas ginecologistas da startup.

O exame precisa da coleta de três gotas de sangue.

Elas criam um relatório personalizado indicando se a reserva ovariana da clientes está acima ou abaixo da média para sua idade, se existe algum sinal vermelho que precise de atenção e outros fatores que podem influenciar a saúde reprodutiva.

Se a mulher desejar conversar com uma profissional ou tirar dúvidas, ela pode agendar uma teleconsulta com essas duas especialistas e uma psicóloga da Fertilid ou ainda acessar uma lista de mais de dez clínicas e ginecologistas de todo país indicadas por uma curadoria da femtech.

As teleconsultas são feitas pela plataforma do Grupo Conexa, que tem um API plugado ao site da Fertilid. Amanda conta que preferiu realizar esta integração para manter a segurança dos dados das clientes e oferecer uma ferramenta profissional para a realização das consultas.

A Jornada Fertilid (exame e relatório) custa 359 reais. Com a teleorientação, o valor passa para 439 reais.  De acordo com Amanda, apenas o exame em laboratórios tradicionais costuma sair por mais de 500 reais.

A FERTILID QUER USAR A TECNOLOGIA A FAVOR DA CIÊNCIA

Segundo Amanda, em pouco mais de um mês de operação foram vendidos mais de 120 kits da Fertilid.

“Considerando que as mulheres são férteis por apenas 30 dos seus 80 anos de vida, acreditamos que esse mercado está apenas começando.”

Apesar de ainda estar dando os primeiros passos, a empreendedora já tem planos mais ambiciosos para o negócio. A ideia é se aprofundar na saúde da mulher, que sempre ficou em segundo plano nas pesquisas médicas.

“Até o final dos anos 1980, as mulheres não eram levadas em conta nos estudos clínicos”, diz. Para Amanda, falta informação sobre a saúde feminina em geral — e sobre saúde ovariana em particular.

“Para mudar esse cenário, a partir do momento em que ganharmos escala, vamos colocar machine learning na nossa plataforma e criar uma base de dados digital para entender quais os indicadores que influenciam a fertilidade da mulher brasileira, desenvolver artigos científicos e devolver estes dados para universo médico”  

Além disso, a Fertilid pretende expandir sua atuação, afirma a empreendedora.

“Agora que tivemos todo esse aprendizado e prova de conceito, queremos incluir no nosso portfólio a dosagem de outros hormônios, como LH, FSH e prolactina, para atender questões relacionadas à saúde reprodutiva como um todo e não só a ovariana.”

 

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Fertilid
  • O que faz: Plataforma educacional sobre fertilidade
  • Sócio(s): Amanda Sadi
  • Funcionários: 5
  • Início das atividades: 2021
  • Investimento inicial: R$ 1 milhão
  • Faturamento: Não informado
  • Contato: [email protected]
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