Sem “tadala”: radicado na Suíça, ele desenvolveu uma tecnologia para combater a disfunção erétil

Leonardo Neiva - 3 jul 2024
Rodrigo Fraga, CEO da Comphya.
Leonardo Neiva - 3 jul 2024
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Mais do que um tabu, a disfunção erétil segue sendo problema sério para boa parte da população masculina. Não à toa, a Sociedade Brasileira de Urologia estima que metade dos homens acima dos 40 anos apresenta alguma queixa relacionada à ereção. Seriam cerca de 16 milhões de pessoas só no Brasil.

Claro que hoje há Viagra, Cialis (tadalafila) e similares. Mas mesmo esses remédios não resolvem a vida de todo mundo. “Para uma grande parte da população, cerca de 30%, o Viagra simplesmente não funciona”, afirma o farmacologista e empreendedor mineiro Rodrigo Fraga-Silva, 42. 

Rodrigo se refere a pacientes com doenças graves ou condições de saúde que inviabilizam o uso bem-sucedido do remédio. E se o medicamento via oral não surte efeito, muitos precisam recorrer a injeções no pênis ou a uma prótese peniana, que consiste em um par de tubos inserido cirurgicamente no órgão.

A falta de opções menos desconfortáveis foi o que inspirou o farmacologista a empreender a Comphya e investir numa tecnologia alternativa, ainda em fase de testes: um neuroestimulador artificial acionado por controle remoto. 

“Pensei: por que não podemos usar a neuroestimulação em humanos? Seria como implantar um marcapasso que estimula o coração, mas para tratar a disfunção erétil”

Rodrigo diz que não foi o primeiro a pensar na solução, mas afirma que a Comphya está resolvendo um desafio fundamental dentro dessa proposta: identificar e estimular os nervos responsáveis pela ereção, através do uso de múltiplos eletrodos implantados na região pélvica

EM FASE DE TESTES CLÍNICOS, O DISPOSITIVO ESTÁ IMPLANTADO EM 12 PACIENTES DO BRASIL E DA AUSTRÁLIA

A Comphya é sua primeira startup, porém Rodrigo não é um novato em criar novas tecnologias na área médica. Ele detém ao todo oito patentes, relacionadas ao tratamento de doenças cardiovasculares, alopécia – e, claro, disfunção erétil.

Em primeiro plano, o CaverSTIM, dispositivo neuroestimulador da Comphya.

A ideia do CaverSTIM, como o dispositivo neuroestimulador é chamado, surgiu há cerca de dez anos, enquanto ele realizava experimentos de neuroestimulação em ratos durante uma pesquisa de pós-doutorado em farmacologia, na Suíça.

Há uma década, Rodrigo vem desenvolvendo a solução ao lado de Nikos Stergiopoulos, então seu professor na Escola Politécnica Federal de Lausanne e agora seu sócio na startup. Os dois cofundaram a Comphya em 2017.  

“A gente associou a minha pesquisa com o know-how dele no desenvolvimento de dispositivos médicos”

Nos últimos dois anos, o foco de Rodrigo esteve todo em desenvolver, aprimorar e validar o CaverSTIM, que se encontra em fase de testes clínicos. 

No total, 12 pacientes têm a tecnologia implantada: sete na Austrália, que haviam feito previamente uma cirurgia de remoção da próstata após a incidência de câncer; e cinco no Brasil, todos paraplégicos ou tetraplégicos devido a lesões na medula. 

As duas condições, que impedem o funcionamento de remédios para disfunção erétil via oral, são o foco de utilização do dispositivo, ao menos no início.

ELE DEIXOU OS EUA, VOLTOU AO BRASIL E TRABALHOU POR DOIS ANOS COMO CIENTISTA FORENSE NO INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA DE MG

O brasileiro tem estudado e atuado com pesquisa na Suíça desde 2011, quando iniciou seu pós-doutorado em hemodinâmica e biologia cardiovascular. Antes disso, havia realizado outro pós-doc na Flórida, na área de fisiologia e genômica funcional.

Apesar dessa vivência internacional, Rodrigo desenvolveu a maioria das patentes ao longo da carreira em grupos de pesquisa durante seu doutorado em farmacologia na Universidade Federal de Minas Gerais. Um deles se tornou o tônico capilar antiqueda Sanctio, hoje comercializado pela marca de cosméticos mineira Yeva.

O retorno da Flórida ao Brasil se deu por uma perda de motivação com o universo acadêmico. Ele lembra:

“Me deparei com um problema que existe na pesquisa hoje, que é a gente acabar virando um fazedor de paper. Publiquei mais de 60 artigos de grande impacto, mas você acaba se tornando um publicador e deixa de ser cientista” 

Nesse meio tempo, ele foi aprovado para um concurso que tinha prestado um tempo antes para a Polícia Civil mineira. Decidiu aceitar o desafio e voltou ao Brasil com a esposa. Assim, por mais de dois anos, entre 2009 e 2011, Rodrigo trabalhou no Instituto de Criminalística de Minas Gerais. 

Pode parecer inusitado, mas o trabalho se deu 100% dentro de sua área, no cargo de cientista forense — perito responsável por coletar dados e evidências no apoio à resolução de crimes e questões legais (sim, como um CSI da vida real). “Eu gostei de trabalhar com a polícia, foi um momento muito interessante na minha vida.”

NA SUÍÇA PARA UM PÓS-DOUTORADO, RODRIGO DECIDIU PERMANECER NO PAÍS E APROVEITAR O AMBIENTE PROPÍCIO ÀS STARTUPS DE SAÚDE

Após dois anos no Brasil, a insatisfação voltou. Rodrigo sentia falta de trabalhar mais diretamente com pesquisa, então fez as malas e, no fim de 2011, embarcou de volta para a Suíça, para um pós-doutorado.

A ideia era passar de três a cinco anos na Europa e voltar ao Brasil para buscar uma posição numa instituição de pesquisa daqui. Só que, chegando lá, Rodrigo encontrou com um ambiente muito mais propício para seus interesses e ambições, repleto de healthtechs. 

“Quando a startup é voltada para o setor médico, ela tem a ciência e a pesquisa como base, mas com foco na inovação em si, em trazer aquilo para o paciente. Esse ambiente renovou minhas energias e tudo acabou se somando.”

Sede de farmacêuticas globais como Roche e Novartis, a Suíça tem inclusive uma região apelidada de Health Valley, ou Vale da Saúde. Abrange o lado ocidental do país, de Genebra à capital, Berna, incluindo o cantão de Vaud, onde fica Lausanne.

E foi assim que ele decidiu prolongar sua permanência e empreender a Comphya.

SEGUNDO ELE, OS TESTES VÊM TENDO RESULTADOS “FANTÁSTICOS” NA RECUPERAÇÃO DA FUNÇÃO SEXUAL – E NENHUM EFEITO COLATERAL

Neuroestimuladores, reforça o empreendedor-farmacologista, vêm tendo um papel importante no tratamento de doenças cardiovasculares, dores crônicas e Parkinson. 

O CaverSTIM funciona de forma semelhante. Nos casos de remoção da próstata, em que os nervos ficam danificados, Rodrigo afirma que a estimulação de baixa intensidade gerada pelo dispositivo restabelece totalmente seu funcionamento. 

Nesses pacientes, os eletrodos são implantados por meio de uma cirurgia pouco invasiva na pelve. O médico configura os parâmetros ideias num controle remoto, e o paciente pode acionar o dispositivo sempre que precisar. Segundo Rodrigo:

“Enquanto normalmente os pacientes sofrem uma queda drástica na função sexual, os que foram implantados com a nossa tecnologia estão recuperando a função sexual como antes. Os resultados são fantásticos”

O dispositivo, afirma o CEO da Comphya, auxilia inclusive na reabilitação e preservação dos nervos e tecidos da região. Já nos pacientes paraplégicos ou tetraplégicos, os eletrodos são instalados na parte superior da próstata.

Nos testes realizados até aqui, com alguns já utilizando os implantes há mais de seis meses, o principal objetivo é verificar se há efeitos colaterais — de acordo com o pesquisador, nenhum foi identificado até agora. 

O próximo passo deve ser a realização de novos testes com mais pacientes – no Brasil e nos EUA – que tiveram a próstata removida, e dentro de uma amostragem maior. “Em seguida, a gente pede aprovação de mercado, porque o dispositivo está praticamente pronto.” 

EM BUSCA DE MAIS INVESTIMENTOS, A STARTUP ESPERA LANÇAR O PRODUTO NO MERCADO ATÉ 2027

Ainda sem uma estratégia de marketing, a Comphya tem uma estrutura enxuta. São quatro colaboradores fixos, incluindo Rodrigo, além de consultores terceirizados nos Estados Unidos, Austrália e Brasil. A fabricação do dispositivo ocorre nos EUA, por meio da brasileira Techmedical.

Contrariando a praxe, diz Rodrigo, a startup pretende pedir a certificação à Anvisa, no Brasil, ao mesmo tempo em que o processo estiver correndo junto às agências reguladoras estadunidense e europeias. A ideia é lançar o produto até 2027. 

Até aqui, afirma, a Comphya levantou cerca de 6,2 milhões de dólares em investimentos em private equity. 

“Se formos comparar com outras startups que trabalham com neuroestimulação, a média de gastos até chegar nessa fase é de 20 a 30 milhões. Ou seja, com 6 milhões a gente tem sido muito eficiente”

O empreendedor considera a fase atual um dos maiores desafios da jornada, com mais de dois anos para desenvolver o dossiê técnico e regulamentar necessário e, em alguns casos, centenas de milhares de dólares gastos em cada teste.

Para vencer essa etapa será preciso angariar mais recursos. Algo que em 2023 se mostrou difícil: “Se estivéssemos em 2022 [com um mercado mais favorável], facilmente ia levantar capital porque temos tecnologia nova que estamos demonstrando que funciona, e um mercado enorme. Com os dados clínicos, está ficando bem atrativa.”

Agora, Rodrigo crê que a Comphya está entrando em seu momento mais favorável a investidores. “Se alguém tiver interesse em entrar em contato e participar [da rodada de investimentos], ainda está em aberto. A gente deve fechar em breve, em julho ou agosto.”

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