Verbete Draft: o que é ReFi

Dani Rosolen - 28 jun 2023
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Dani Rosolen - 28 jun 2023
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Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete deste mês é…

ReFi (Regenerative Finance)

O que é: As Regenerative Finance ou Finanças Regenerativas se valem dos mecanismos das finanças descentralizadas como ferramenta para gerar impacto socioambiental positivo e valor coletivo. Ou seja, as ReFi seriam uma derivação das DeFi (tema do nosso verbete anterior), com mais consciência ecológica e social.

Catarina Papa, cofundadora da Layer2Business e sócia na Labirinto Art, uma plataforma que promove a produção artística e de pensamento crítico na interseção da arte contemporânea usando DeFi, resume:

“A ideia das finanças regenerativas é redesenhar e reestruturar o dinheiro em harmonia com a Terra e a sociedade, usando esses recursos de forma comunitária”

Esse ecossistema agrupa ferramentas, produtos e serviços que buscam o lucro, mas não como um fim, e sim como um meio para se chegar à sustentabilidade. As ReFi, na prática, utilizam da infraestrutura do blockchain para preservar o meio ambiente ou melhorar a qualidade de vida de comunidades ou espécies. 

De acordo com a especialista, além de se valer da descentralização, as ReFi também pegam carona nos princípios da Sustainable Finance ou Finanças Sustentáveis, que levam em conta as práticas ESG na hora de realizar um investimento. Esse movimento já vem acontecendo há algum tempo no “mundo tradicional”, com títulos verdes, azuis (ligados à preservação dos oceanos), Títulos Vinculados à Sustentabilidade (SLBs) e Empréstimos Vinculados à Sustentabilidade (SLLs), e agora também chega ao universo cripto com as ReFi.

Para que serve: Criar incentivos econômicos para a regeneração do planeta não é uma novidade, pois ações relacionadas a crédito de carbono no mercado tradicional já existem há tempos. No entanto, como comenta Marcelo Silva, da ReFiDAO, neste vídeo, esse é um segmento que sofre com a centralização e consequente corrupção.

Com o uso da blockchain e da tokenização dos créditos (que os tornam imutáveis), o greenwashing e a corrupção seriam resolvidos. Mas seu uso não se resume a créditos de carbono.

“Temos alguns projetos, principalmente de metodologias de análises produtivas, que facilitam o uso de registro de recursos naturais, de circulação monetária entre os produtores e consumidores finais, permitindo a quem está produzindo falar diretamente com quem está comprando, sem intermediários”, diz Catarina. 

Origem: Segundo a fundadora da Layer Two, esse conceito já existia há algum tempo, mas só agora se conectou com os benefícios do DeFi e das Finanças Sustentáveis. 

De acordo com ela, a ideia de ReFi foi inspirada no “Capitalismo Regenerativo”, teoria desenvolvida em 2015 pelo economista John Fullerton, que valoriza a reposição de recursos e a distribuição equitativa de seus benefícios entre todos os participantes do sistema. A proposta de ReFi também se baseia nas fundamentações do neurobiólogo chileno Humberto Maturana sobre autopoiesis e conceitos de criação. 

A primeira iniciativa de ReFi da qual se tem notícia, segundo seus entusiastas, é de outubro de 2020, com o lançamento do protocolo Open Forest.

Vantagens: O artigo “The future of DeFi is Refi”, do Cointelegraph, dá um resumo do principal benefício das finanças regenerativas para a humanidade: 

“Ao abordar o sistema de forma holística, a ReFi reconhece os pontos fortes dos mercados capitalistas enquanto corrige suas deficiências, garantindo que o bem-estar humano e ecológico permaneça no centro da tomada de decisões.”

Também é possível citar como vantagem das ReFi a rastreabilidade e a transparência. Isso fica evidente, por exemplo, nos casos de compra de crédito de carbono para compensação de emissões. 

Pelo modelo convencional, o comprador recebe um certificado pela ação. Com o ReFi, pela blockchain, tem acesso à instituição de registro, tipo de crédito e ano em lote do token de crédito carbono

Exemplos de projetos de ReFi: Já existem algumas iniciativas de relativo sucesso, como o Toucan, Celo e o Regen Network.

O protocolo Toucan corta atravessadores do mercado de crédito de carbono, permitindo que os próprios produtores realizem a tokenização desses ativos. 

Já na Celo (blockchain com emissão negativa de carbono), aplicações com foco em questões sociais são desenvolvidas e podem ser acessadas a partir de dispositivos móveis. Como explica este artigo da Bloomberg: “Dentre as soluções construídas sobre a Celo está o impactMarket, que tem forte presença no Brasil. Por meio dela, interessados de qualquer parte do mundo podem doar valores, que são encaminhados a comunidades carentes como renda básica de cidadania via criptomoedas”

O Regen Network, por sua vez, cria uma nova plataforma de contratação para os agricultores monetizarem seus dados ecológicos enquanto são recompensados ​​por práticas sustentáveis. 

No Brasil, temos, por exemplo, a Kanna, que já foi perfilada na seção Acelerados do Draft e no nosso site “irmão” com foco em ESG, NetZero. Trata-se de uma DAO de impacto social e ambiental que une a tecnologia blockchain ao mercado do cânhamo, por meio da venda do KNN, token que carrega um lastro em solo revitalizado e CO2 compensado nestas plantações.

Já o Guardiões da Mata, do Instituto Zeca Pagodinho e Código Brazuca, pretende recuperar uma área desmatada de um hectare na região de Xerém, bairro de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Para isso, a meta é plantar espécies da Mata Atlântica e promover uma transformação social e educacional da região, utilizando recursos de Web3 com NFTs e blockchain.

Outro projeto brasileiro é o AgroForestDAO, que usa a gamificação para incentivar a agricultura regenerativa e a inclusão social, além de reconhecer e recompensar aqueles que contribuem para a comunidade.

Existe ainda uma série de outros projetos. Aqui, você encontra mais exemplos, entre eles o da Moss, que já foi pauta no Draft

Como o mercado tradicional se apropria do termo ReFi: Por meio dos contratos inteligentes, de acordo com Catarina, as ReFi conseguem fazer precificações e circulação financeira mais justas, no sentido de disponibilizar para as pessoas esses recursos e reestruturar os processos econômicos.

“Um grande banco vai olhar para isso e conectar a descarbonização que precisa realizar às ReFi, pensar em como trazer essa visão regenerativa na hora de criar um produto verde”, diz a especialista.  

Perspectivas futuras: A maioria dos projetos ainda é voltada a créditos de carbono voluntário. Catarina acredita que para o futuro é necessário expandir esse enfoque e construir pontes entre o mercado financeiro tradicional com as finanças descentralizadas. 

“Do lado tradicional, a COP tem apoiado iniciativas e parcerias para o setor financeiro e também converge para o crescimento desse tema de regeneração para o mercado de capitais. Na COP26, por exemplo, foi lançado o ‘Inovação Financeira para Amazônia, Cerrado e Chaco’ (IFACC), pelas The Nature Conservancy (TNC), Tropical Forest Alliance (TFA) e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).” 

A iniciativa, explica a especialista, reúne capacidades complementares para ampliar mecanismos financeiros, como produtos de crédito agrícola, fundos de investimento em terras agrícolas, instrumentos de dívida corporativa e ofertas de títulos. “Para acelerar o progresso nessa frente, há uma necessidade estimada de até 30 bilhões de dólares nesses setores ao longo da década contra centenas de milhões disponíveis hoje.” Ela ainda diz: 

“Os bancos e players financeiros têm um papel fundamental e estão se unindo para criar um guarda chuva de produtos financeiros – os green bonds, ou mercado de títulos verdes, como, por exemplo, CPR-Verdes e títulos financeiros que apoiam o planejamento da jornada net zero de empresas”

De acordo com Catarina, os bancos têm espaço para crescer também em outras frentes e estruturar títulos de Carbono Azul (para a conservação dos oceanos), produtos financeiros que apoiem o Desenvolvimento Comunitário Regenerativo (que considera que a saúde de um ecossistema está diretamente relacionada com aqueles que a habitam), projetos de regeneração e preservação da qualidade do solo, entre outros. 

“Vejo algumas iniciativas já nessa tratativa, como o Grupo BMV, uma greentech que viabiliza a preservação da biodiversidade e estruturou na B3 a primeira CPR-Verde do Brasil, que é utilizado como fator para o ESG.”

Para saber mais:
1) Leia no MIT Technology Review: “Finanças regenerativas são o lado ainda impopular da Web3”;
2) No Cointelegraph, acesse a análise “The future of DeFi is ReFi”;
3) Confira o artigo de Marcelo Silva, CEO da ReFiDAO, sobre Finanças Regenerativas (partes um e dois);
4) Leia outro artigo de Marcelo Silva, no LinkedIn, com o tema “O Ecossistema Brasileiro das Finanças Regenerativas”;
5) Acesse, na newsletter da The Shift, o texto: “ReFi para já, também no Brasil”.

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