Você é mulher e está à frente de uma startup inovadora? O fundo WE Ventures está de olho em empresas como a sua

Bruno Leuzinger - 12 nov 2020 Marcella Ceva, Chief Investment Officer do WE Ventures.
Marcella Ceva, Chief Investment Officer do WE Ventures.
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Empresas lideradas por mulheres têm acesso a menos de 3% do capital global de venture capital. É um dado chocante — mas será que surpreende?

Transformar essa realidade em favor de um maior equilíbrio de gênero é a proposta do WE Ventures, um fundo idealizado pela Microsoft e pela Bertha Capital para investir em negócios de tecnologia pilotados por mulheres.

Marcella Ceva é a Chief Investment Officer do fundo, que tem hoje duas empresas investidas e está em fase de captação. Carioca radicada em São Paulo, Marcella fez carreira no mercado financeiro, em ambientes marcadamente masculinos. 

Ela conta que foi atraída ao novo projeto pelo propósito social, forte o bastante para convencê-la a retornar ao mercado de trabalho — seu filho tinha apenas 5 meses quando o convite surgiu, o que a deixou (obviamente) dividida.

A seguir, Marcella fala sobre machismo no escritório, o desafio de conciliar carreira e maternidade, os obstáculos no caminho das empreendedoras mulheres — e como o fundo WE Ventures atua para apoiá-las.

 

Ouvi você dizer que você foi criada por um pai “superfeminista”. Você se considera feminista? E o que é feminismo para você?
É uma pergunta difícil. Sim, eu me considero feminista. Feminismo, para mim, é remover os obstáculos e vieses que existem na sociedade hoje, seja por motivos culturais, econômicos etc. O movimento feminista é essa união para remover esses obstáculos adicionais que existem na jornada da mulher — e não existem no caminho do homem. Me considero feminista nesse sentido.

Falando sobre sua trajetória pré-WE Ventures, alguma vez você se viu prejudicada ou preterida por machismo?
Eu venho do mercado financeiro. Foram sete anos em um banco de investimentos, eu fazia M&A [fusões & aquisições], tinha absoluta adoração por M&As, digo que trabalhava “na Disney”. E era um ambiente super amigável, saía todo mundo junto… Era uma vida intensa de trabalho, mas como a gente passava muitas hora juntos, todo mundo acabou se aproximando muito, eu fiz bons amigos lá. 

Enquanto trabalhei no mercado, nunca me senti diminuída ou preterida, e aí falo que foi muito pela criação que recebi. Minha mãe sempre trabalhou e meu pai sempre incentivou isso. Então nunca me enxerguei como menos do que ninguém. Essa foi a postura com que encarei a minha vida profissional.

Mas tenho sim algumas histórias do mercado financeiro, tipo: “Marcela, amanhã a gente precisa fechar esse mandato, hein? Acho melhor você ir de saia e com uma blusa bem decotada para a reunião…”. Coisas assim eram “normais”, e passavam batidas

Só passei a entender que isso era preconceito, discriminação, depois que saí do mercado e me juntei a grupos de mulheres também acostumadas a esses ambientes supermasculinos. E aí eu via: “Nossa, todas passam por isso… É ruim, não está certo!”.

Como você reagiu ao convite para ser head do WE Ventures? Deve ter sido confuso, sei que você estava com um filho pequeno…
Depois que saí do mercado financeiro, recebi propostas para voltar, mas nada me brilhava os olhos. Me faltava muito propósito, sentia falta porque sempre fui engajada com o social. Mas quando o convite para o WE Ventures pintou, foi em novembro de 2019. Eu estava amamentando, meu filho tinha 5 meses. 

Quem fez o convite foi um amigo, ex-colega da G5, que tinha aberto uma gestora. Minha primeira reação foi: “não tem a menor possibilidade, imagina…!, estou amamentando uma criança, não sei quando é dia e quando é noite…” Estava totalmente afogada, imersa na experiência da maternidade.

Ele disse: pensa com calma, vamos falando, vou continuar entrevistando gente aqui… Nos meses seguintes, conversei com meu marido, meus pais, e concluí que realmente era um projeto muito legal. Eu nunca tinha feito Venture Capital, mas é muito semelhante com M&As, são M&As menores, basicamente.

Estava nervosa, preocupada de deixar meu filho em casa, sem saber se estava fazendo a coisa certa…Mas me ancorava no propósito: não estou voltando a trabalhar só por voltar a trabalhar. E sim porque surgiu um projeto diferenciado, com um propósito muito forte. E foi isso. Comecei em fevereiro.

Como está sendo sua rotina? Quantas horas você trabalha?
Isso é um problema sério (risos). Eu tenho o que eu gostaria que a minha rotina fosse — e o que ela é de fato. Na “verdade verdadeira”, eu trabalho das 8h às 20h, mas procuro fazer pausas para estar com meu filho, fazer um exercício, almoçar… Ainda estou aprendendo.

O trabalho sempre foi a minha vida. Eu trabalhava sábado, domingo, feriado, não tinha férias…. Sempre trabalhei com muita intensidade e um nível de exigência comigo mesma e com o meu trabalho muito alto. Mas depois que você tem um filho, vem uma sensação de que nada no mundo é mais importante…

A pandemia mudou muita coisa, mas meu início foi esse, cresci com esse nível de exigência de perfeição e entrega no trabalho. E [agora tenho] uma competição completamente “desleal” em casa, uma criança de 1 ano, absolutamente dependente de mim.

Explica como funciona o WE Ventures, e sua relação com a WE Impact?
O Women Entrepreneurship é um programa da Microsoft, iniciativa veiculada através do fundo WE Ventures e da WE Impact. 

O fundo faz investimentos a partir de 1 milhão de reais, em empresas em estágio de maturidade já de tração, que tenham pelo menos uns 200 mil reais de faturamento, sempre com mulheres na liderança, com pelo menos 20% do capital.

Ficamos de março até agora complementando a captação. Tivemos a entrada da Multilaser e até o começo de 2021 vamos anunciar mais cotistas de verticais de educação, jurídico, fintechs… A gente traz esses cotistas para atuarem sob a ótica dos clientes, aprimorando o produto que as startups estão oferecendo

A WE Impact é uma das empresas investidas, que atua na camada anterior de maturidade, desde ideação até operação e tração. É um venture builder, faz uma value creation em oito disciplinas: growth, vendas, marketing, finanças corporativas, jurídico… 

O WE Impact rodou um primeiro programa de desenvolvimento para 18 empresas financiado por esse primeiro aporte do fundo; dessa turma, está negociando investimento em algumas dessas empresas. 

O Impact não tem exclusividade com o WE Ventures. O sonho é que elas tenham independência, outras fontes de financiamento, trabalhem para outros fundos nessa criação da jornada de desenvolvimento de empreendedoras em estágio de maturidade mais inicial — sempre com esse viés feminino. 

Você mencionou a pandemia. De que forma a Covid-19 impactou a rotina das empreendedoras mulheres? (considerando home office, carga mental…)
A Covid afetou a mulher de uma maneira muito diferente do que afetou os homens, isso é sabido. Por mais que a gente esteja evoluindo como sociedade, a verdade é que as tarefas domésticas e a criação dos filhos, ainda recaem culturalmente sobre a mulher. E assim, elas foram muito impactadas pelo fechamento das escolas e a questão do home office. 

Outro ponto: o empreendedorismo feminino se dá majoritariamente em áreas que foram muito impactadas pela Covid. As mulheres ainda são só 6% em tecnologia, elas estão mais concentradas em áreas como comércio, alimentação, lazer, hospitalidade… Setores muito afetados pela pandemia.

Além disso, lá fora, onde há dados mais claros do que no Brasil, a gente vê que a financiabilidade das mulheres também caiu. 

É triste, as mulheres já recebem, historicamente, nos últimos três anos desde 2017, só 2.2% do capital global de venture capital… E com a pandemia isso piorou, a mulher teve ainda menos acesso a capital 

São dados tristes que mostram que a gente ainda tem um caminho muito importante a percorrer.

Quais são as maiores dores para a empreendedora mulher hoje? E como o WE Ventures atua para mitigá-las?
A maior dor é mesmo a falta de acesso a capital. O que fica evidente quando só 2% do capital global de venture capital [nos últimos três anos] foi para mulheres. E o WE Ventures vem com a proposta de trazer capital exclusivo para negócios comandados por empreendedoras. Isso é superpioneiro, não existe outro no Brasil 100% dedicados a mulheres.

A segunda maior dor é falta de apoio na gestão. No WE Ventures, fazemos uma gestão super “ativista”, não só através dos cotistas na jornada de validação do produto, mas também com nosso próprio time interno e por meio do WE Impact — que também atua junto às startups em estágio mais avançado, fazendo o venture management

Ainda na questão das dores… Vieses conscientes e inconscientes, todos temos. Mas em um ambiente majoritariamente masculino, o viés inconsciente contra as mulheres é muito forte. 

Sabe-se que perguntas dos investidores homens para empreendedores homens são sempre positivas, focadas no negócio, em crescimento, projeções… E as perguntas deles para empreendedoras mulheres são sempre pejorativas: “Mas será que você consegue dar conta do negócio? Você tem filhos ou pretende ter? Como você concilia…?”

Então, é importante trazer investidoras mulheres para quebrar os vieses e criar um ambiente mais amigável, de empatia para as empreendedoras mulheres.

Do ponto de vista masculino, há uma percepção (ou estereótipo) de que mulheres seriam muito competitivas entre si. Isso é uma verdade no ecossistema de empreendedorismo? Ou a colaboração prevalece?
Eu venho de um ambiente que é sim muito competitivo: mercado financeiro, banco de investimento… Mas, pelo contrário, no ecossistema de venture capital, no ambiente de startups, eu vejo muita colaboração. Acho um ambiente superconstrutivo, não vejo aqui esse tipo de competitividade. 

Mais do que isso: vejo uma boa vontade geral entre mulheres, sim — mas também entre homens e mulheres, todo mundo sempre disposto a fazer uma crítica construtiva, a ajudar na jornada de um produto, a ajudar na jornada empreendedora… Isso me surpreende bastante.

Há situações em que, mesmo em meio a um ecossistema machista, ser uma empreendedora (ou uma investidora) mulher é uma vantagem?
Sim, há muitas vantagens em ser uma empreendedora mulher. Falando de maneira mais ampla, a diversidade é o motor principal da inovação. Incluo a questão de ser mulher empreendedora ou investidora nessa multiplicidade de visões, que a diversidade traz a qualquer ambiente.

Diversas pesquisas mostram que empresas que têm board diverso, equipes diversas, lideranças diversas, são mais lucrativas, têm saídas mais rápidas… Lá fora, a cotação da empresa na bolsa sobe quando tem qualquer anúncio ligado a uma notícia positiva sobre diversidade… 

Outras pesquisas indicam que a mulher traz um contraponto ao ponto de vista e ao perfil de gestão masculino, que — por questões hormonais — é mais imperativo, autoritário, um pouco mais impulsivo… A mulher vem trazer, tanto na liderança quanto nos boards, um ponto de vista mais balanceado.

Pode falar sobre o perfil dessas empreendedoras que estão no escopo do WE Ventures e da WE Impact?
No fundo, temos duas empreendedoras [investidas]: a Carol Dallacorte, da PackID, e a Lícia Souza, da WE Impact. Sou absolutamente fã das duas. Elas têm inteligências completamente diferentes, mas incríveis. 

A Carol é supertécnica, engenheira de alimentos, fez mestrado, faz doutorado, é super analítica… E a Licia é advogada, fez carreira no mundo da moda, especialização em gestão… Então traz uma ótica de advogada e uma ótica estratégica super diferente para o WE Impact.

Admiro as duas, cada uma nas suas habilidades — e na jornada, na coragem de empreender, nessa vontade de criar uma coisa e tocar sozinha e ser mulher nesse mercado altamente masculino, responsável por equipes, por outras empresas [no caso da Lícia]…

Vejo como funciona o dia a dia da Lícia nessa jornada: com filho, empreendendo, tocando 18 empresas numa turma, agora decidindo investimento… É admirável.

Sobre as empreendedoras dessas 18 startups, me sentiria mal de falar de uma e não de todas… Cada uma tem algo especial que a gente admira e principalmente muito o que ensinar. 

Acreditamos muito na mentoria reversa, eu aprendo diariamente com elas e me inspiro diariamente por elas, é uma relação muito saudável, me faz muito bem.

Há startups no radar do WE Ventures que mesclem tecnologia e um foco mais forte de negócio social?
Buscamos retorno financeiro, não somos um fundo puramente de impacto. Apesar disso, temos um pilar social muito forte, somos alinhados com as ODS da ONU, e desde a primeira chamada do WE temos bastante contato com empreendedoras que têm um projeto ou produto de impacto social. 

Ao longo da nossa jornada, já vimos diversas empresas que atuavam assim. Estamos vendo uma agora, por exemplo, que atua no Norte e no Nordeste, e é um canal de denúncia de violência contra mulheres no transporte público

Olhamos um tempo atrás para uma [startup] maravilhosa que, quando veio para a gente estava muito early [stage], mas que agora recebeu investimento — e que faz também um canal de denúncias, esse para violência contra mulheres no ambiente corporativo… 

Então, sempre gostamos de olhar produtos com esse viés — contanto que se enquadrem nos nossos critérios de investimento.

 O que você diria para uma jovem mulher que está começando a empreender?
O mais importante é ter conteúdo e estudar muito: sobre o mercado, o produto, sobre empreendedorismo em geral, a jornada de financiamento de uma startup… Entender quais são as etapas: friends & family, pre-seeds, seeds, Série A, Série B etc. Saber quem são os players em cada etapa. 

A gente já enfrenta muitos vieses por ser mulher — mas com conteúdo vem a confiança. Então se preparem mais, estudem mais, estejam no seu “A-game” [na sua melhor performance].

A segunda dica é prestar atenção no equity ao longo dessa jornada de financiamento. Fico com coração apertado quando vejo empreendedoras abrindo mão de equity super cedo. Elas estão dedicando anos de vida, e na hora em que a empresa for vendida, não vão ser remuneradas por esses anos de dedicação…

Dica três: contem com outras pessoas. Mulheres têm uma dificuldade intrínseca de fazer networking, mas todo mundo pode ter um ponto de vista importante para dar. Na hora dos primeiros contratos de financiamento, peçam opinião de família, amigos, advogados… 

E não tenham vergonha de acionar mulheres que você não conheça: mulheres em cargo de liderança sempre têm boa vontade de ajudar outras mulheres, então contem com essa rede de apoio. Não só nessa jornada de financiamento, mas para tudo.

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