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Você nunca perde o celular de vista? Ela criou um projeto para ajudar as pessoas a viver o presente e a passar menos tempo online

Dani Rosolen - 4 mar 2026
Talissa Monteiro, jornalista, professora de meditação e idealizadora do Clube do Offline.
Dani Rosolen - 4 mar 2026
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Quantas vezes ao dia, sem perceber, você abre as redes sociais para checar notificações, espiar o feed ou “matar” o ócio e, quando percebe, passou uma hora (ou mais) ali?

Se você já perdeu a conta do tempo scrollando, tentou um detox digital e não conseguiu mudar o hábito, talvez a saída seja outra: preencher esse espaço com atividades offline e usar a internet de forma mais equilibrada.

Foi essa estratégia que Talissa Monteiro, jornalista, professora de meditação e mestre em ética ambiental, adotou quando percebeu que o tempo conectada estava roubando sua atenção e sua paz. Ela testou as práticas na própria rotina, viu o que funcionava e resolveu compartilhar. 

Assim nasceu o Clube do Offline, um projeto para redescobrir a vida fora das telas e fazer da internet um lugar legal de novo.

PARA QUEM CRESCEU NO INTERIOR, A INTERNET SEMPRE FOI UMA MANEIRA DE CRUZAR FRONTEIRAS

Talissa, 33, cresceu em Quatis, município do interior do Rio de Janeiro, com cerca de 14 mil habitantes, onde vive ainda hoje. “É uma cidade com outro ritmo e a internet foi a maneira de me conectar com pessoas que têm interesses parecidos, mas não moram aqui.”

Além disso, como jornalista ela sempre gostou de escrever e encontrou nos blogs um espaço interessante para divulgar seus pensamentos e reflexões. Mas havia um outro lado: 

“Sempre foi uma relação meio ambígua, porque me sentia muito cansada fisicamente de estar em frente às telas. Percebi isso com o Instagram, principalmente quando pegava o celular antes de dormir ou logo ao acordar. Me sentia sugada de um jeito físico”

O tempo de tela de Talissa gira em torno de três a quatro horas por dia – bem menos do que a média dos brasileiros, de mais de nove. Ainda assim, ela costumava recorrer a detox digitais, desativando sua conta no Instagram por alguns períodos. 

“Nessas ocasiões, sentia o quanto ganhava tempo. De repente, estava lendo mais, desenhando, fazendo uma prática de yoga, preenchendo meu tempo com outras coisas.”

REDESCOBRINDO A REDE DE OUTRA MANEIRA OU COMO FAZER A INTERNET UM LUGAR LEGAL DE NOVO

Nessa mesma época, Talissa começou a escrever uma newsletter sobre natureza, antropoceno e temas do mestrado. 

“Vi o quanto era gostoso voltar para essa mídia um pouco mais lenta, com um ritmo diferente do Instagram. E aí fui descobrindo a internet de outra forma”

Ela voltou a usar as redes, mas entendeu que o essencial não era excluir aplicativos e, sim, organizar a rotina com atividades interessantes para estar menos online:

“Sempre reservo a primeira hora da manhã para ficar sem celular. Escrevo, medito, leio, faço minhas orações – e o celular fica longe de mim”

Já ao longo do dia, ela admite que, até por conta de sua profissão, é mais difícil manter o aparelho distante, mas de noite retoma a meta e segue uma agenda que envolve a prática de hobbies, como desenho, um clube do livro, visitas a um centro espírita, dentre outras atividades. 

Quando percebeu os efeitos positivos dessa rotina, em meados de 2025, criou um perfil no Instagram para dividir as experiências.

O CLUBE DO OFFLINE NASCEU PEQUENO E HOJE É UMA COMUNIDADE DE QUASE 30 MIL PESSOAS

O perfil no Instagram começou pequeno; na maioria das vezes, a audiência se resumia aos amigos. Um dos primeiros posts tinha como título “Coisinhas fáceis para fazer offline”. 

“Era um carrossel com fotos minhas em situações que traziam esse olhar mais curioso para a vida e a natureza. As pessoas gostaram muito”

A ideia virou uma série de postagens, com dicas simples mas eficazes, como montar um quebra-cabeça, testar uma receita, aprender um penteado, escrever cartas ou prestar mais atenção às conversas. Outro tipo de postagem que virou seção periódica é “perfis que tornam o Instagram um lugar mais gentil”.

Em novembro, ela diz que uma publicação viralizou, alcançando pessoas de fora de sua bolha:

“O post falava que esquecemos a maneira mais fácil de fazer amizades e sugeria planejar um jantar e convidar três amigos, que por sua vez convidariam cada um mais outro amigo”

Vieram curtidas, comentários, compartilhamentos, novos seguidores (hoje são quase 30 mil) e também um incômodo: “O Clube do Offline acabou me fazendo ficar muito mais online do que antes. Agora, estou tentando buscar um equilíbrio”.

POR UMA ROTINA MAIS ANALÓGICA, NA MEDIDA DO POSSÍVEL

Mais do que ficar offline, Talissa decidiu ter uma vida mais analógica em 2026. Assim nasceu o Projeto Analógico 2026, com a criação de uma newsletter do Clube do Offline no Substack.

“Postei uma notinha sobre como seria o projeto e 4 600 pessoas se inscreveram. Então, pensei, agora vou ter que fazer essa ideia acontecer”

Nesse momento, o namorado, Yasser Pereira, entrou como sócio. “Eu sou mais da parte criativa e ele vem com a estratégia digital.” Hoje, a newsletter tem quase 9 mil assinantes.

O projeto lança, a cada mês, um tema e um conjunto de atividades. No início do período, ela lança a proposta e, no fim, compartilha a experiência da execução com a comunidade. Na estreia, em janeiro, o foco foi escrita:

“Propus que as pessoas escrevessem três páginas matinais. Também sugeri enviar uma carta, criar um caderno de notas para compartilhar passagens de livro, filmes, pensamentos, desenhos etc. e ainda em um outro caderno pedir conselhos de vida. E por fim, sugeri manter uma agenda física”

Em fevereiro, o tema do projeto foi leitura analógica, com propostas que vão da criação de uma rotina (o que inclui montar um cantinho confortável, estipular um horário e metas possíveis de páginas) à visitação de bibliotecas e incentivo de encontros literários entre amigos:

“As atividades não levam em conta só a questão do analógico, mas pensam em criar esse senso de comunidade, de trocas. Não é só para cumprir uma atividade, mas se relacionar com o mundo lá fora, com os outros e consigo mesmo”

Talissa ainda deixa mais sugestão: “esquecer” um livro com dedicatória em algum lugar público, para incentivar outra pessoa a engatar na leitura.

A IDEIA É, SIM, MONETIZAR O PROJETO, MAS, ACIMA DE TUDO, IMPACTAR POSITIVAMENTE A COMUNIDADE

Hoje são poucos pagantes da newsletter, mas a meta é crescer. Para isso, Talissa passou a oferecer conteúdos exclusivos, como o Guia do Bem-Estar Digital, lançado em fevereiro. 

O material inclui exercícios de meditação e autorregulação emocional, reflexões e atividades gravadas, além de uma curadoria de textos, vídeos e podcasts. “Tudo o que consumi na internet ao invés de scrollar.”

Antes, ela já havia criado o e-book, o Diário de Hobbies, com 30 atividades para fazer offline (R$ 29,99). “Este livro nasceu do registro à mão em um caderninho das coisas que gostava de fazer e que não aconteciam no celular. Algumas usam o aparelho, mas de outro jeito. Por exemplo, uma das atividades é buscar Júpiter no céu e eu sugiro um aplicativo.”

Agora, um dos planos de Talissa e do namorado é lançar uma trilha offline. 

“Não é exatamente um detox digital, mas uma jornada pensando no que que acontece com o cérebro ao usar as redes, essa questão do vício, do uso como fuga e de como estruturar uma rotina possível para estabelecer uma relação diferente com o celular”

Enquanto pensa em formas sustentáveis de manter o projeto, ela reflete: “Às vezes, me pergunto se o Clube do Offline está cumprindo o seu propósito. Não sei se todo mundo que segue o projeto faz as atividades propostas. Mas muita gente está participando e isso para mim já é super recompensador.”

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