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A História se desenrola diariamente diante dos nossos olhos. Ele criou um podcast para levá-la ao nossos ouvidos

Bruno Leuzinger - 5 fev 2026 Vítor Soares, criador do podcast História em Meia Hora.
Vítor Soares, criador do podcast História em Meia Hora.
Bruno Leuzinger - 5 fev 2026
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A História entrou meio por acaso na vida de Vítor Soares. Quando estava no ensino médio, ele nem pensava direito em faculdade, mas resolveu prestar o Enem para impressionar a família da então namorada. “Falei: ‘Quero fazer Psicologia’, inventei ali na hora…”

Na plataforma do Sisu, Vítor cravou Psicologia como primeira opção, e precisava escolher uma segunda. Lembrou-se então de um professor de História, Thiago Monteiro Bernardo, que marcou o seu tempo de aluno em um colégio público de Angra dos Reis (RJ).

“Eu sempre tive banda, de vez em quando toco ainda, e ele é um cara que gostava de punk, tinha referências muito legais… Eu adorava a aula dele”

Essa afinidade musical acabaria definindo o futuro de Vítor. Hoje, aos 34, ele é professor e também o criador do História em Meia Hora. Lançado em 2019, o podcast esmiúça, com rigor e sem chatice, personagens e episódios históricos em cerca de trinta minutos.

Se você acha que História a priori é um assunto tedioso, bolorento, pense de novo: “História é gente fazendo coisas. Cometendo atrocidades, criando e destruindo coisas maravilhosas”, diz Vítor. “A História mostra para a gente do que o ser humano é capaz.” 

GRAVANDO AS SUAS AULAS DURANTE A FACULDADE, ELE DESCOBRIU SEM QUERER O MUNDO DOS PODCASTS

Foi por pouco que Vítor não virou psicólogo. Aprovado para fazer faculdade em Niterói, abriu mão porque o curso era integral e a cidade, muito distante de Angra. “Só que eu também passei para História, e o curso era noturno, então daria tempo para trabalhar.”

A faculdade de História era em Barra Mansa, mais perto (ou menos longe) de Angra. Todo dia, Vítor trabalhava de manhã, à tarde encarava duas horas e meia de ônibus e no fim da noite outras duas horas e meia voltando para casa. Ele conta como aproveitava o tempo gasto nos deslocamentos:

“Durante a faculdade, eu tinha o costume de gravar as aulas — obviamente, eu pedia permissão — e depois ouvia no ônibus, no meu MP3 player. Na época era o que havia de mais tecnológico, eu estava na crista da onda [risos]…”

Um dia, precisando se preparar para uma tarefa sobre a Primeira Guerra Mundial, Vítor percebeu que não tinha nenhuma aula gravada a respeito. “Eu queria estudar, mas não consigo ler no ônibus, passo mal. Isso era [por volta de] 2011, 2012… Joguei no Google ‘aula primeira guerra mundial’ e caí no 4shared, um site com arquivos [compartilhados].” 

Ali, Vítor achou o que parecia ser uma aula gravada e compartilhada por alguma boa alma. Na verdade, era um episódio do Nerdcast, podcast do Jovem Nerd, que o rapaz até então desconhecia. 

“Não era uma aula, era um programa: tinha edição, trilha sonora, intervalo, tinha preparação, tinha roteiro…! E também tinha uma parte descontraída, de conversar, de todo mundo fazendo piada…”

Aquela descoberta casual abriria os olhos (e ouvidos) de Vítor para o formato podcast, que ainda estava engatinhando. Parecia que ele estava ouvindo uma conversa dele mesmo com os amigos, bebendo cerveja e comentando animadamente sobre a aula. “Faculdade de História tem isso, a gente se apaixona, fica meio fascinado.”

UM BURNOUT DURANTE A PANDEMIA MOTIVOU A CRIAÇÃO DE UMA CAMPANHA DE FINANCIAMENTO COLETIVO 

Uma vez formado, Vítor foi conquistando espaço como professor no circuito de escolas particulares e cursinhos pré-vestibular de Angra dos Reis. Passou uma década trabalhando assim. “A minha desenvoltura para o podcast veio muito desses dez anos em sala de aula.”

Em 2019, já consolidado a ponto de poder escolher escolas e recusar convites, ele tirou da gaveta o projeto do História em Meia Hora. Que na verdade começou como História em 10 Minutos; a duração logo foi esticada para dar conta do aprofundamento necessário.

Até então, o podcast era um trabalho paralelo. Essa “pré-história” do História em Meia Hora chegou ao fim em abril de 2021. Foi quando Vítor deu uma surtada. Ele e todo mundo:

“Tive um burnout, fiquei meio maluco. Eu não sei se as pessoas lembram do que foi a pandemia emocionalmente… Era um medo constante de não só você morrer também, mas de levar a doença para as pessoas que você ama. E meus pais são idosos. Eu já não morava mais com eles, mas tentava vê-los sempre que possível”

Naquele mês, a Covid-19 chegou a matar 4 mil brasileiros por dia. Vítor já morava no Rio, mas se deslocava da capital fluminense até Angra dos Reis para dar aulas em uma escola particular. Detalhe: ninguém tinha sido vacinado ainda. 

Para piorar, Angra enfrentava uma série de episódios violentos. Vítor recorda “um tiroteio, no meio da cidade, com direito a granada, uma coisa horrorosa”. Em meio ao medo duplo, da violência urbana e da voracidade do vírus, o burnout chegou batendo forte. “Naquele dia eu fui embora e nunca mais dei aula.”

O História em Meia Hora ainda era um podcast pequeno. Mesmo assim, Vítor resolveu disparar uma mensagem de SOS: 

“Fiz um episódio falando: ‘Ou eu abandono a sala de aula para ficar com o podcast, ou abandono o podcast e sabe-se lá o que vai acontecer…’” 

Ele criou uma campanha no Apoia-se, anunciando como contrapartida episódios exclusivos para os assinantes. “E as pessoas compraram muito a ideia: em um dia a gente tinha batido a meta pra eu sair da sala de aula”, diz Vítor. “Foi surpreendente, emocionante.”

O CONTEXTO DA GUERRA ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA AJUDOU A ALAVANCAR A AUDIÊNCIA

Com esse “grito de independência” via financiamento coletivo, as coisas engrenaram e Vítor pôde se dedicar em tempo integral ao projeto. 

A partir de fevereiro de 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia mobilizou a opinião pública. O H30 reagiu enfocando, por meio de diferentes recortes, a relação histórica entre os dois países. E a audiência correspondeu.

“Nesse momento, no contexto da Guerra da Ucrânia, [o História em Meia Hora] se tornou o podcast mais ouvido no Brasil durante uns dez dias. Foi um feito enorme para mim”

Na esteira, em 2023, Vítor recebeu uma proposta de exclusividade do Spotify. “Topei e entrei no circuito de produção de conteúdo do Brasil. Comecei a ser conhecido e a conhecer pessoas.” (O acordo de exclusividade se encerrou em 2024, mas segundo ele a relação permanece “muito boa”.)

A ESCOLHA DOS TEMAS EQUILIBRA ASSUNTOS DE MENOR APELO E A QUENTURA DO NOTICIÁRIO

O H30 já lançou quase 500 episódios. Os roteiros são escritos a quatro mãos, com um colaborador. Quem edita é a Agência de Podcast, que cuida também dos materiais visuais. Os temas podem ir do Tratado de Versalhes à Intentona Comunista, de Maria Antonieta e Maria Quitéria (“a Mulan brasileira”) até Vlad Tepes, a inspiração para o Conde Drácula.

Vítor diz que sempre tenta trazer diversidade, alternando tópicos campeões de ibope, como as Guerras Mundiais, com outros de menor apelo, como a Partição da Índia ou a vida de Mansa Musa, imperador do Mali do século 14 que foi “o homem mais rico da História”.

“Obviamente, estou trabalhando com internet, preciso de resultado. Não posso ignorar essa parte também”

Como mostrou o pico de audiência no começo da guerra na Ucrânia, o zeitgeist importa. Quando faz sentido, Vítor pega carona no noticiário ou na agenda cultural. Foi assim com um episódio sobre o Projeto Manhattan na semana de lançamento do filme Oppenheimer (2023), e outro sobre Rubens Paiva no auge do hype de Ainda Estou Aqui (2024).

AO RECEBER UM E-MAIL COM AMEAÇAS, ELE REAGIU COM UMA SÉRIE SOBRE OS HORRORES DA DITADURA

No dia em que os Estados Unidos abduziram Nicolas Maduro em Caracas – 3 de janeiro de 2026 –, o História em Meia Hora lançou um episódio sobre o ditador venezuelano. Como a tensão entre os países vinha escalando há meses, Vítor já tinha um episódio engatilhado.

Logo na abertura, reconhecendo que o tema é “extremamente polêmico”, ele avisa: “Como eu sei que vou ser xingado por todos os lados por conta desse episódio, quero lembrá-los que uso autores e fontes confiáveis para tratar desse assunto”.

Por falar em xingamento e polarização: durante o governo Bolsonaro, em meio à atmosfera de guerra cultural e caça às bruxas, Vítor diz que chegou a receber um email com ameaças e citando informações sobre sua família:

“Eu falei: tenho duas opções, uma é recuar e a outra, ir pra cima… E poxa, passei por coisas muito piores do que receber um e-mail, né? Então, decidi fazer uma série de episódios sobre os horrores da ditadura”

Professor de História no Brasil há muito virou sinônimo de “esquerdista”. Vítor não esconde de ninguém as suas visões políticas, mas tem sempre o cuidado de, a cada episódio, abrir aspas para dar voz a historiadores renomados e citar as suas fontes de forma clara.

“Tento ao máximo não dar opinião. Não é que eu esteja sendo ‘imparcial’ – ninguém nunca está sendo imparcial –, mas eu falo o que eu tenho fonte para falar.” 

ALÉM DE TOCAR OUTROS PODCASTS EM PARALELO, VITOR JÁ LANÇOU LIVROS E UM JOGO DE TABULEIRO

Antes, o História em Meia Hora tinha dois episódios semanais. Em 2025, Vítor reduziu essa frequência para uma vez por semana. “Eu já estava há cinco anos fazendo o mesmo projeto, e tem uma hora que você quer dar uma oxigenada na cabeça.”

Assim, abriu mais espaço para projetos paralelos. Hoje, ele apresenta ou co-apresenta pelo menos mais quatro programas: 

“Tenho um podcast de humor chamado Reinaldo Jaqueline [com Nicolas Queiros e Príncipe Vidane], que tenta simular um programa de auditório dos anos 2000. É bem, bem imbecil… Do jeito que eu gosto [risos]”

Ele também toca o Manual do Desespero, com Alexandre Nickel; o História e Cinema, com o xará Vítor Vogel (do Vogalizando) e João Pedro Barbarussa; e o Desventuras na História, podcast da revista Aventuras na História, para a qual Vítor contribui com artigos.

Com a marca História em Meia Hora, Vítor tem livros publicados, mantém um clube do livro para os apoiadores com encontros mensais por vídeochamada e, no fim de 2025, lançou seu primeiro jogo de tabuleiro, recorrendo novamente ao financiamento coletivo.

Para quem ainda vê a História com ranço ou não se convenceu a ouvir o podcast, vale a pena refletir sobre a sua relevância, ainda mais em tempos em que políticos manipulam fatos com tecnologia e enfeitam mentiras com uma roupagem de “pós-verdade”.

“Negacionista não é só quem discorda do quanto a vacina funciona. Negacionista é o cara que fala que ‘nazismo é de esquerda’. Ele está negando a realidade. O estudo da História vem como uma forma de mostrar o que é a verdade, o que é a realidade”

A missão do historiador, portanto, é servir de antídoto ao esquecimento. “O Peter Burke tem uma frase clássica: ‘O papel do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer’. Esse é também o meu papel.”

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