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Ela criou um espaço para reunir empresas, pessoas e projetos que estão pensando o futuro da alimentação

Dani Rosolen - 6 ago 2026
Juliana Bechara, fundadora do Bioma Food Hub.
Dani Rosolen - 6 ago 2026
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À primeira vista, o Bioma Food Hub pode parecer um coworking tradicional, mas sua proposta sempre foi ir além desse modelo. 

O espaço foi concebido para aproximar negócios ligados à inovação alimentar que compartilham desafios parecidos e, por isso, podem acelerar uns aos outros.

Fundado por Juliana Bechara, em 2020, o Bioma hoje ocupa três andares de um prédio no Itaim Bibi, em São Paulo, e é a casa de cerca de 60 empresas que estão pensando a alimentação, seus impactos e futuros possíveis, entre elas Água na Caixa, Cellva, Cuíca, Iamaní, NotCo (a primeira residente) e Nude.

AO SE MUDAR PARA NOVA YORK, ELA DECIDIU FAZER UM MESTRADO SOBRE UM TEMA PELO QUAL SEMPRE TEVE INTERESSE

Quando começou a graduação em Relações Internacionais, Juliana sonhava em trabalhar com política internacional, mas sua carreira, como ela mesma conta, nunca foi linear.

Atuei com direitos humanos e até marketing esportivo, mas sempre tive muito interesse por empreendedorismo”

Em 2012, já inquieta com as mudanças climáticas, mudou-se para Nova York com o marido e passou a pesquisar mais sobre o tema.

Um dos primeiros projetos foi uma colaboração com a jornalista Rosana Jatobá, escrevendo para uma coluna do site da comunicadora, o Universo Jatobá. Também atuou em um coworking de inovação social e, na mesma época, mudou sua alimentação, após ler um livro sobre abate de animais. 

A soma dessas experiências despertou o interesse por um mestrado. Juliana ingressou no departamento de Sociologia da The New School para estudar a relação entre consumo humano e mudanças climáticas, chegando ao conceito de sistemas alimentares.

“Minha tese foi sobre a resiliência de povos da Caatinga no Brasil a partir de espécies nativas. Conheci cooperativas de mulheres que trabalhavam com isso e estavam conseguindo sair de situação de vulnerabilidade”

Ainda durante o mestrado, foi trabalhar no Slow Food USA, braço do movimento global que surgiu na Itália e defende um sistema alimentar baseado em três princípios fundamentais: comida boa, limpa e justa.

O BIOMA NASCEU DE MUITAS CONVERSAS

Em 2017, Juliana engravidou e a família retornou a São Paulo. “Depois de um hiato, após o nascimento da minha primeira filha, decidi que queria trabalhar na interseção entre food research, design, sistemas alimentares e impacto”, diz.

Ela conversou com donos de restaurantes, pessoas que haviam mudado seus hábitos alimentares, empreendedores e consultorias. Ao fim desse processo, percebeu que fazia sentido reunir, em um único lugar, quem estava pensando o futuro da alimentação.

A ideia ganhou força quando a família do marido de Juliana ficou com um andar, do qual é dona, vago em um prédio em uma localização estratégica de São Paulo. Foi ali que o Bioma começou a tomar forma, em 2019.

“Abrimos as portas em 2020 como um espaço que funciona, ao mesmo tempo, como escritório, cozinha para testes ou aulas, comunidade e ponto de encontro para marcas e empreendedores ligados a inovação, impacto ambiental e sistemas alimentares regenerativos”

Por causa da pandemia, os primeiros meses do Bioma se resumiram a lives. Apesar disso, o negócio já tinha sua primeira cliente, a NotCo, que ocupou o espaço apenas em junho e permaneceu sozinha por alguns meses. Em setembro, Juliana abriu as portas para novos residentes. Vieram, então, Água na Caixa e Nude, que, como ela lembra, praticamente foi lançada ali.

Consumidora de leites vegetais, Juliana chegou aos fundadores da Nude pelo LinkedIn, quando eles ainda desenvolviam a versão beta do produto. “Resolvi fazer uma proposta para eles, que estavam num momento de captação. Ofereci um ano de escritório e entrei com um dinheiro em troca de equity”, lembra.

Um dos espaços de trabalho do Bioma Food Hub, que ocupa três andares de um prédiono Itaim Bibi, em São Paulo.

Depois vieram a SaudaBe, agência focada em saudabilidade, e Patricia Abbondanza, profissional da área de gastronomia, que precisava de um espaço para ministrar aulas online.

Hoje, quase 60 empresas residentes têm acesso a escritórios, salas de reunião, auditório, duas cozinhas multiuso (para testes de produtos, gravações, recepções etc.) e podem participar dos eventos e workshops promovidos pelo Bioma.

MAIS DO QUE ESTRUTURA FÍSICA, O QUE CONTA SÃO AS TROCAS

Com a “casa” cheia, Juliana diz que o principal diferencial do seu negócio passou a ser justamente a convivência. Muitas parcerias nasceram ali, como a aproximação entre a Nude e a Belat Brasil, fintech focada em finanças sustentáveis que integra o grupo da Banca Ética Latinoamericana.

A empreendedora conta que, numa conversa de corredor com o cofundador da Nude, Alexander Appel, ficou sabendo que a empresa estava olhando para crédito.

“Aí lembrei da Belat, que já conhecia e na época ainda nem era residente do Bioma, mas promovi essa conexão entre eles e fez sentido uma empresa que fala de impacto conseguir crédito com outra desse setor.”

Vista de uma das cozinhas do Bioma, onde é possível fazer testes de produtos, realizar workshops, eventos e gravar aulas.

Para Juliana, o valor do Bioma está menos no metro quadrado e mais no tempo de aprendizado que consegue encurtar:

“Quando se começa uma empresa, é preciso entender uma série de questões, como canal de vendas, fornecedores, logística, captação… As trocas que acontecem com as empresas no mesmo ambiente ajudam a diminuir a curva de aprendizado”

Com o tempo, porém, Juliana percebeu que o modelo exclusivamente físico tinha limites.

O BIOMA CRESCEU PARA ALÉM  DO ENDEREÇO FÍSICO

Segundo Juliana, dependendo do estágio da empresa, manter um espaço no Bioma deixa de fazer sentido.

Além disso, o custo da operação e o desejo de levar os benefícios da comunidade para outras cidades deram origem ao BIOMA+.

“É um plano mais acessível, que leva essa jornada de conhecimento do Bioma para fundadores ou entusiastas que não podem estar aqui”

Hoje, o BIOMA+ oferece acesso a lives e workshops online, contato com fundadores da comunidade presencial e uso eventual do espaço físico para quando os assinantes estiverem em São Paulo.

“Já tivemos a adesão de algumas empresas de fora neste formato, como Bean Possible, de duas fundadoras do Rio de Janeiro que desenvolveram farinhas a partir do feijão. A necessidade delas é estar mais próximas do ambiente de negócios, pois hoje estão mais próximas da academia.”

Além desta iniciativa, Juliana cita como clientes do novo modelo a Alvitta e AmaZai.

“Estamos criando para o BIOMA+ trilhas de conhecimento divididas em jornadas temáticas. A partir do semestre que vem, por exemplo, teremos um workshop online focado em comunicação estratégica, outro em go-to-market e ainda um de cultura e liderança.” 

A EMPREENDEDORA BUSCA ABRAÇAR A AGENDA DESSE SETOR

Em paralelo ao seu negócio, Juliana passou a atuar na Base Planta, associação ligada a empresas de bebidas vegetais e alimentos alternativos. Embora a entidade não tenha surgido dentro do Bioma, muitas de suas empresas fazem parte da comunidade. 

Ela assumiu o papel de representante institucional, ajudando a dar visibilidade a esse trabalho, que hoje está concentrado em pautas regulatórias e tributárias. O foco principal é tornar as bebidas vegetais mais acessíveis e competitivas no mercado.

Ela explica um pouco desse desafio: “No começo do ano, houve um veto em Brasília para reduzir em até 60% os tributos que incidem sobre essas bebidas pela alegação de que não são essenciais para a população em termos de saúde”. E completa:

“Infelizmente, essa categoria ainda é vista como um produto de nicho,  para alguém de uma classe social privilegiada, sem entender que pessoas de baixa renda também podem ter intolerâncias e restrições alimentares”

Sua intenção é conseguir fazer a associação crescer para que represente outros alimentos alternativos do Brasil. 

Quanto ao Bioma, se no início o objetivo era criar um espaço de encontro, hoje a aposta é consolidá-lo como uma plataforma de conhecimento, articulação e impacto que ultrapasse as fronteiras de São Paulo — e do seu próprio espaço físico. A ambição é que se torne uma referência em sistemas alimentares e futuros regenerativos.

“Quero voltar para essa paixão que motivou a criação do Bioma, de falar de sistemas alimentares, e entender como a gente pode estar na mesa para debater o tema com grandes instituições e tomadores de decisões que enxergam o alimento como um vetor de transformação.”

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