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Em cidades grandes, é comum que a primeira pergunta seja: “O que você faz?”. E a resposta quase sempre vem acompanhada de um crachá: onde trabalhamos, qual cargo ocupamos, em que empresa estamos.
Porém, olhando para trás, aos 42 anos, percebo que os momentos que mais transformaram minha vida dificilmente caberiam em um currículo estanque ou em um perfil sistematizado de LinkedIn.
Ao longo da minha trajetória, entendi que podemos vestir muitos “crachás”, mas poucos são tão importantes quanto escolher as comunidades que queremos fazer parte.
Minha relação com o tema “comunidade” começou muito antes de virar profissão. Uma das experiências mais marcantes foi quando minha filha nasceu.
Morávamos em São Paulo, cidade onde nasci e cresci. Junto com outras famílias, criei, dentro de casa, uma creche parental chamada “Quintal do Limoeiro”.
Eu e meu marido tentávamos resolver um problema muito prático: como criar nossa filha de forma mais coletiva em meio ao caos urbano.
Com todos os percalços, ali eu aprendia uma das maiores lições: quando existe propósito em comum, as pessoas conseguem construir juntas aquilo que ninguém faria sozinho
Essa perspectiva continuou aparecendo em diferentes momentos da minha trajetória. Iniciei minha carreira profissional na área jurídica, depois de me formar na PUC/SP, e passei a me especializar como advogada na área de propriedade intelectual.
Aos poucos, fui percebendo que meu interesse estava menos nas questões jurídicas e mais nas causas, nas relações e nas possibilidades de interação com o território.
A transição para o campo do impacto social aconteceu depois de algum planejamento, erros e acertos. Cofundei o Conexão Cultural, passei um bom tempo trabalhando na Prefeitura de São Paulo, ajudei a iniciar a operação das bicicletas amarelas da Yellow, coordenei projetos estruturados de Políticas Públicas no Sebrae-SP e, com a pandemia abri minha própria PJ para ter mais mobilidade e conseguir trabalhar de forma remota.
Por meio de algumas amigas, conheci o Edgard Gouveia Jr. e assumi a diretoria da associação sem fins lucrativos LiveLab, organização que mobiliza jovens e lideranças comunitárias do Brasil para liderarem transformações em seus próprios territórios
Hoje, vejo que todas essas experiências tinham um fio condutor: criar conexões e fortalecer comunidades.
Em 2021, em meio ao caos da pandemia, decidi com o meu marido mudar de cidade. Nossa filha tinha 5 anos e sentimos que seria um bom momento para fazer essa transição.
Antes de escolher Ilhabela (cidade que conhecíamos apenas para frequentar casamentos e viagens pontuais), percorremos diferentes lugares. Visitamos Piracaia, Piracanga, Atibaia, São Francisco Xavier, Paraty e outros destinos incríveis.
Mas foi Ilhabela que reuniu aquilo que buscávamos: natureza exuberante, qualidade de vida, segurança, possibilidade de fazer as coisas a pé, escolas com bom custo benefício (comparando com a vida paulistana) e uma distância que permitiria visitar amigos e família
Mesmo chegando em Ilhabela para trabalhar remotamente, sabia que não queria, claro, viver apenas de frente para a tela do computador. Queria conhecer o território, me aproximar das pessoas que já faziam parte dele e encontrar atividades que me permitissem criar vínculos, cultivar um verdadeiro senso de pertencimento e construir conexões
Minha filha chegou na Ilha com 5 anos. Hoje tem 10. Enquanto ela construía suas primeiras amizades na escola, eu encontrava pessoas que se tornariam parte da minha rede de apoio.
Meu marido viveu um processo parecido. Com o tempo, encontrou na canoa havaiana uma paixão, pesquisou novas oportunidades profissionais e, junto com um casal de amigos que conhecemos aqui, restaurou uma linda escuna, batizada de “A Praieira”.
Percebi então que pertencimento não era algo que acontecia apenas comigo. Nossa família inteira começava a criar raízes
Mesmo assim, fazemos questão de manter vivo o vínculo com amigos de longa data, visitar a família sempre que possível e continuar participando de alguns eventos em São Paulo.
Logo entendemos, porém, que essa escolha de vida exigiria adaptações: a logística da ilha impõe limites e nos convida a fazer escolhas sobre onde investir tempo e energia.
No cotidiano, entre uma reunião e outra, descobri que podia caminhar até o mar em uma segunda ou terça feira… Algumas pausas podem acontecer em uma cachoeira próxima de casa. Outras surgem em conversas espontâneas com vizinhos ou amigas que moram próximas. As possibilidades de encontro se realizam com mais facilidade.
É outra lógica e outro ritmo, com seus benefícios e restrições. Costumo brincar que estou vivendo meu “intercâmbio” da fase adulta, com novas experiências, aventuras e perrengues. Às vezes sinto que moro na “Vila do Chaves”, onde sempre encontramos alguém conhecido na rua.
Cenas assim nos trazem algo muito mais valioso: a sensação de vida em comunidade. Mas pertencer também significa enxergar os desafios do lugar que escolhemos viver
Em Ilhabela, são muitos os desafios: problemas estruturais de esgoto e saneamento básico, descarte inadequado de resíduos, uso pouco eficiente dos recursos públicos, falta de opções de moradia popular e dificuldade de acesso ao emprego para grande parte da população.
Nos primeiros anos aqui conheci pessoas que se dedicavam ao território. Como o grupo do SOS Mangue e organizações como Instituto Ilhabela Sustentável, Grupo Semear, Projeto das Pretas, Subida do Morro, Festival Citronela, dentre muitas outras.
Conheci também uma turma da associação Elementos da Natureza e passei a integrar o conselho municipal do meio ambiente, representando a sociedade civil. Participei e sigo participando de mutirões, movimentos culturais, festas populares e ações ambientais. Passei a frequentar reuniões comunitárias, audiências públicas e encontros de coletivos.
Ajudei a criar a rede articulada Movimenta Ilha, que surgiu com o desastre climático histórico no Litoral Norte, em fevereiro de 2023. O grupo surgiu para promover a participação popular e para defender uma Ilhabela mais justa, inclusiva e sustentável
Também fui conhecendo e me aproximando de lideranças locais, como o vereador Manuh Júnior, escutando histórias e compreendendo como poderia usar meu tempo e bagagem para ajudar as causas desse território.
Vale dizer que comunidade não é esse lugar romântico onde todo mundo concorda. Existe conflito. Existem divergências. Existem disputa de interesses, política, burocracia e processos que muitas vezes parecem lentos demais. Existem frustrações, desencontros e diferente visões sobre o futuro do território.
E tudo isso faz parte. Porque o pertencimento não nasce da ausência de conflitos. Nasce da disposição de continuar sentado à mesa, escutar perspectivas diferentes e seguir construindo, mesmo quando não há consenso.
Foi justamente aprendendo a escutar que compreendi melhor qual poderia ser meu papel. Não o de protagonizar. Mas o de conectar pessoas. Fortalecer redes. Construir pontes entre iniciativas que muitas vezes já existem, mas precisam de mais colaboração para ganhar escala.
Essa percepção transformou minha forma de trabalhar. Passei a acreditar ainda mais que protagonismo não é apenas uma metodologia utilizada em projetos sociais. É uma prática cotidiana baseada em confiança, escuta e corresponsabilidade. Achei que tinha vindo para Ilhabela para desacelerar. Descobri que vim para somar.
Talvez por isso, neste ano, nasceu uma ideia que ilustra muito do que aprendi vivendo aqui. Junto com um grupo de amigos, criamos um bloco de Carnaval “O Fim da Picada”. Mais do que um bloco, ele se tornou uma experiência de construção coletiva
Cada pessoa contribuiu com o que sabia fazer: música, fantasias, comunicação, produção, apoio logístico, criatividade e muito entusiasmo. O resultado foi uma ocupação alegre do espaço público, reunindo moradores antigos, turistas, crianças, famílias e idosos em torno da celebração da cidade e do encontro entre as pessoas.
A energia foi tão bonita que a iniciativa não terminou no Carnaval. Alguns meses depois, fizemos uma edição junina, com festa comunitária construída com o mesmo espírito de colaboração. Comunidade também se constrói quando criamos oportunidades para que as pessoas convivam, celebrem juntas e desenvolvam vínculos de confiança.
Hoje, penso que impacto não se mede apenas pela quantidade de projetos realizados, mas pela qualidade das relações que cultivamos ao longo do caminho.
Sinto que minha travessia ainda está apenas começando. Se os primeiros anos foram dedicados a compreender este território, daqui para frente quero aprofundar meu compromisso com ele e com as causas que considero essenciais para o seu futuro.
Quero contribuir para fortalecer Ilhabela e outros territórios por meio da implementação de políticas públicas de educação socioambiental, ampliando a formação de crianças, jovens e comunidades para o cuidado com a Mata Atlântica, os recursos hídricos e o oceano. Também quero continuar incentivando projetos de economia criativa e inclusão que valorizem os talentos locais, gerem oportunidades e fortaleçam a identidade cultural da cidade.
Outro sonho é colaborar para a construção de um Plano Lixo Zero para Ilhabela, articulando poder público, coletivos, organizações da sociedade civil, empreendedores, universidades e moradores em torno de uma visão comum de desenvolvimento sustentável
Nenhuma dessas transformações acontece de forma isolada. Por isso estou me movimentando para apoiar lideranças e campanhas políticas comprometidas com esses valores, fortalecendo uma agenda pública baseada na participação cidadã, na justiça socioambiental e no desenvolvimento sustentável.
Em um momento de tanta desconexão, ansiedade e incertezas, pertencer não significa apenas morar em um lugar. Significa assumir responsabilidade pelo seu futuro. Talvez seja isso que transforme qualquer território: quando deixamos de perguntar “o que posso fazer por este lugar?” e começamos a questionar “como posso construir esse futuro junto com quem já está aqui?”.
Manu Colombo, 42, é diretora executiva da associação LiveLab, organização que promove protagonismo jovem, engajamento comunitário e soluções socioambientais, por meio da Jornada X. Com mais de 10 anos de experiência em gestão de projetos e políticas públicas, atuou na Prefeitura de São Paulo, Sebrae-SP e Yellow/Grow Mobility. Moradora de Ilhabela, participa de iniciativas da sociedade civil voltadas ao meio ambiente e ao desenvolvimento local. É formada em Direito pela PUC-SP, mestre em Gestão e Políticas Públicas pela FGV-SP e fez LLM na Universidade de Berkeley.
A exaustão é o resultado de uma sociedade que supervaloriza a velocidade e a performance. Paty Palhares conta como a rotina febril a levou a desenvolver uma doença autoimune, inventar outra vida para si e fundar a HIT Terapias Holísticas.
Cintya Soares afinou seu talento com um piano comprado com sacrifício pelos pais. Hoje, aplica essa vocação no trabalho como mentora, ensinando professores e donos de escolas de música a enxergarem suas atividades com olhar profissional.
