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“GPS brasileiro”: por dentro do projeto do Brasil para desenvolver seu próprio sistema de geolocalização e sincronização do tempo

Dani Rosolen - 10 ago 2026 Osório Coelho, Diretor de Departamento de Programas de Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Osório Coelho, Diretor de Departamento de Programas de Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Dani Rosolen - 10 ago 2026
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Se você utiliza aplicativos de navegação para se guiar, sabe a importância que um sistema como esse tem no dia a dia para as tarefas mais básicas, como chegar a um endereço em uma região desconhecida. “O ‘GPS’ é uma tecnologia invisível: você só percebe o quanto precisa dela quando perde o sinal”, diz Osorio Coelho, Diretor de Departamento de Programas de Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Ele está entre os articuladores de um Sistema Nacional de Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT), projeto que busca reduzir vulnerabilidades, fortalecer a soberania tecnológica e apoiar setores estratégicos da economia. Hoje, o Brasil depende de sistemas de geolocalização e sincronização do tempo estrangeiros, especialmente do GPS (Global Positioning System), controlado pelo governo dos Estados Unidos.

Popularmente apelidada de “GPS brasileiro”, a iniciativa ganhou força há cerca de um ano, quando um grupo de trabalho interministerial, com 14 órgãos civis, militares e industriais, passou a mapear capacidades e vulnerabilidades do país nesta área.

O relatório desta etapa foi entregue no fim de julho de 2026 ao Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro (CDPEB). Para o articulador do projeto, existe ainda muito desconhecimento sobre o tema e as vulnerabilidades a que todos ficam expostos sem um sistema próprio. 

“É importante conseguirmos comunicar que vemos o PNT como uma infraestrutura crítica, assim como são estradas ou hospitais”

Um segundo grupo de trabalho foi criado e deve começar a atuar, a partir desta semana, em reuniões quinzenais pelos próximos 180 dias, com foco em tecnologias específicas, governança e financiamento.

A seguir, em entrevista ao Draft, Osorio explica como essa agenda do PNT surgiu, quais os riscos da dependência de sistemas estrangeiros e como o projeto nacional está caminhando:

 

Hoje, o Brasil depende de sistemas estrangeiros para uma série de atividades críticas. A ideia de desenvolver um modelo nacional de Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT) não surgiu da noite para o dia. Como essa agenda foi ganhando força ao longo dos anos? 

Essa agenda surgiu a partir de uma reunião, no final de 2024, no gabinete da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação [Luciana Santos], com a apresentação de um trabalho feito pelo CGEE, que é nosso Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, sobre algumas tecnologias que poderiam eventualmente se desdobrar no PNT. 

Em outras reuniões, a gente discutiu que, por questões geopolíticas, existia uma dependência de sistemas que não são do Brasil, como o GPS americano. Ele não é o único global, tem também o BeiDou, que é chinês; o GLONASS, russo; e o Galileo, europeu.

Havia, então, essa percepção de vulnerabilidade pela dependência, mas acima de tudo a ideia de que a gente precisava ter soberania tecnológica. Soberania nacional é algo sobre o qual o presidente Lula sempre fala e passa pela soberania tecnológica

A ministra se interessou e falou para irmos em frente. Eu represento a SETEC, que é a Secretaria de de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, e ela me indicou como ponto focal dessa iniciativa. Decidimos criar um grupo de trabalho para entender nossas capacidades, vulnerabilidades, dentre outras questões, para a eventual implementação do que se tornou uma das agendas mais importantes do ministério. Hoje, essa iniciativa é liderada pelo secretário da SETEC, Daniel Almeida Filho.

Soberania tecnológica é um conceito que aparece cada vez mais quando se fala em inovação. Na prática, o que isso significa: menos dependência ou total autonomia?

Eu diria que soberania tecnológica é fazer escolhas. Não tem como, em termos de desenvolvimento tecnológico, o Brasil tentar produzir tudo aqui. A questão é fazermos escolhas das potencialidades que temos e desenvolver essa cadeia. 

Isso envolve não somente uma questão de pesquisa básica, mas ter um ecossistema de inovação funcionando de forma sinérgica, com o governo como agente de estabilidade, dando as condições para que esses atores de inovação, sejam eles do setor acadêmico ou privado, possam interagir de forma eficiente, e colocando os mecanismos adequados para isso, com segurança jurídica e financiamento.

A soberania tecnológica passou também a ser uma questão geopolítica, entendendo o que está acontecendo no mundo em termos de cadeias globais de valor – em grandes guarda-chuvas como minerais críticos, transição energética e IA, por exemplo – e endereçando essas responsabilidades para o nosso ecossistema de inovação. Em resumo, reduzindo vulnerabilidades e aumentando as opções estratégicas do Brasil.

O que é possível adiantar sobre as principais conclusões do relatório do PNT entregue ao CDPEB no final de julho? 

O relatório mostrou que o Brasil fica exposto a uma grande vulnerabilidade se não tiver o próprio sistema.

Um bloqueio de sinal, mesmo por pouco tempo, causaria um impacto enorme em setores como financeiro, agrícola e de mineração de precisão

Também entendemos que com o nosso próprio sistema temos a possibilidade de apoiar a indústria nacional por muito tempo, já que esse é um projeto que deve atingir sua fase mais complexa daqui a 10, 12 anos

Pode dar um exemplo do cotidiano sobre os riscos de o Brasil continuar totalmente dependente de um sistema controlado por outro país? 

Um exemplo bem corriqueiro é o uso do Waze ou Google Maps, que depende do sinal de navegação. Imagina não ter isso hoje em dia… Quem conhece o caminho, consegue se virar facilmente, mas se você chega num lugar desconhecido, é um problema. 

No setor financeiro, que opera com precisão de tempo por conta da Bolsa de Valores, essa tecnologia também é fundamental. Sem isso, os impactos podem ser gigantescos. 

No grupo de trabalho, foram feitas pesquisas que demonstraram o impacto financeiro no PIB por uma negação de sinal de navegação. Em sete dias, isso chegaria a quase 30 bilhões de reais.

E sobre capacidades, o que já temos hoje como base e o que precisaria ser construído do zero para o PNT existir? 

O Brasil tem um estoque de conhecimento, não só de pesquisa básica, mas de instituições, como por exemplo o INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], e um ecossistema de inovação muito robusto.

Então, nós temos, sim, capacidade, a questão é saber se na velocidade que essa tecnologia requer

Por exemplo, hoje o país ainda não domina a tecnologia do relógio atômico, que é um componente fundamental para esses receptores terrestres. No final das contas, vai ser uma questão de entender que talvez um caminho seja cooperar internacionalmente, sempre com transferência de tecnologia.

As políticas de inovação exigem continuidade, mas os governos têm um ciclo de quatro anos. Como construir estratégias de soberania tecnológica capazes de sobreviver às mudanças de gestão?

O desenvolvimento de tecnologias pode levar décadas, então não faz sentido ser algo que dure apenas uma ou duas gestões, porque naturalmente outros governos irão entrar. Somos uma democracia.

O que precisa ficar claro é que os resultados não ocorrem de forma imediata e que existe um processo de tentativa e erro. Então, é preciso revisitar a estratégia adotada ano a ano, justamente porque a tecnologia é algo muito dinâmico 

Acredito que o Ministério de Ciência, Inovação e Tecnologia talvez seja um dos mais estratégicos da Esplanada, porque requer continuidade, políticas públicas perenes e previsibilidade orçamentária para que os projetos possam ultrapassar ciclos eleitorais e se mantenham como uma política de Estado e não uma política de governo.

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