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“A longevidade é um assunto de todos”: um papo sobre como repensar o trabalho e outras áreas da vida conforme envelhecemos

Dani Rosolen - 31 ago 2026 Sérgio Serapião, do  Movimento LABoo, da Labora e do Fórum & Festival Longevidade.
Sérgio Serapião, do  Movimento LABoo, da Labora e do Fórum & Festival Longevidade.
Dani Rosolen - 31 ago 2026
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“Costumo dizer que eu não fui atrás da longevidade, ela que veio atrás de mim, quando notei já estava rodeado de projetos sobre o tema.”

Quem diz isso é Sérgio Serapião, 51. Ele começou a se aproximar dessa pauta ainda nos anos 2000, quando fundou uma consultoria de impacto social e passou a se envolver com iniciativas relacionadas ao que era chamado, na época, de envelhecimento populacional.

O interesse, elabora ele agora, também veio de sua trajetória pessoal, com a morte precoce do pai:

“Meu pai era um executivo bem sucedido, mas até segunda página porque não olhava para si, não separava a pessoa física da jurídica. Descobriu um câncer terminal e morreu um ano depois, aos 47”

Essa trajetória, somada às experiências como cofundador do Sistema B e fellow da Ashoka, levou Sérgio a fundar o LAB60+ — hoje, rebatizado de Movimento LABoo — e a startup Labora, além de liderar o Fórum & Festival Longevidade.

O ETARISMO AINDA É NORMALIZADO

Quando Sérgio começou a estudar o tema, seu foco era o combate às desigualdades:

“As pessoas ainda não entenderam que a longevidade não vai ser igual para todo mundo. Ela realmente vulnerabiliza muito as pessoas e grupos diferentes”

Para ele, o maior erro é tratar a longevidade como uma questão restrita à saúde ou ao envelhecimento biológico, quando o que está em jogo é uma mudança estrutural da sociedade.

“O idadismo [etarismo] ainda é visto como algo trivial. É muito comum colocarem as pessoas mais velhas em um status diferente, como se fossem menos aptas, menos produtivas ou adaptáveis”

Segundo ele, é preciso intencionalidade para mudar essa visão, já que o aumento da expectativa de vida não vem acompanhado automaticamente de adaptação dos sistemas, do mercado de trabalho, dos produtos e serviços disponíveis ou das políticas públicas. 

MESMO AS EMPRESAS BEM-INTENCIONADAS AINDA NÃO ESTÃO PRONTAS

Embora a inclusão etária tenha entrado no discurso de muitas empresas, na prática as instituições ainda dificultam que ela se torne realidade. 

As carreiras são desenhadas de forma linear, os processos seletivos estão cada vez mais automatizados e os ambientes de trabalho continuam pensados para públicos jovens.

Foi nesse contexto que Sérgio fundou, em, 2019, a Labora (que já foi pauta aqui). Segundo uma pesquisa de 2025 da startup com a Robert Half, 70% das empresas brasileiras não medem a discriminação por idade; enquanto isso, dois a cada três profissionais desempregados consideram o etarismo o principal entrave para voltar ao mercado.

A ideia da Labora é enfrentar essa miopia sobre a potência dos talentos seniores e ajudá-los na reinserção profissional.

Segundo Sérgio, mesmo entre companhias interessadas na mudança, ainda acontecem equívocos. Ele cita o caso de uma empresa que criou um grupo interno de afinidades para profissionais seniores: “Sabe como eles batizaram o grupo? ‘Jovens por mais tempo’. O nome já é um erro que mostra o nível de inconsciência”.

AS CARREIRAS NÃO SÃO MAIS LINEARES: É PRECISO SEMPRE SE ATUALIZAR

Para mudar essa mentalidade, Sérgio defende o redesenho das carreiras. “Ainda existe uma correlação de idade com nível hierárquico. E isso está completamente ultrapassado.” 

Para ele, o problema também decorre de uma visão antiga de carreira como algo linear:

“A ideia é que se hoje sou coordenador, amanhã serei gerente. Ninguém pensa que o diretor de hoje será um analista amanhã. Bem-vindos a 2026, todos nós voltaremos a ser analistas!”

Sérgio prossegue: “Estamos falando de um novo curso de vida profissional, cheio de pequenos ciclos de aprendizado, o lifelong learning. Tudo isso exige um outro desenho de carreira, de desenvolvimento pessoal e de relações”.

Nesse sentido, a Labora desenvolve frentes de capacitação e reintegração de talentos seniores, entre elas a requalificação profissional (reskilling).

“A gente acredita que qualquer que seja a tecnologia, ela tem que ser dominada por todos. Hoje, os projetos de inclusão produtiva são voltados majoritariamente para jovens. Mas temos, por exemplo, um parceiro, a Oracle, que tem um projeto enorme do qual já participamos voltado aos 50+.”

POR UM FUTURO DO TRABALHO MAIS INCLUSIVO, MULTIGERACIONAL E FLEXÍVEL

Outra frente da Labora é conectar esses profissionais a empresas, especialmente nos setores de varejo, saúde e cultura, que têm alta demanda por profissionais de atendimento e relacionamento. A proposta é testar modelos de trabalho flexíveis para 50+, com jornadas reduzidas e adaptadas à experiência de cada profissional.

Para cada dez posições abertas, conta Sérgio, a Labora leva de 30 a 50 pessoas, que se alternam em horários indicados por um aplicativo e convivem com jovens contratados pelas empresas. O primeiro grande case foi realizado com o Itaú.

“Os profissionais ficavam em uma agência dando suporte ao público para o mundo digital, o que já quebrava paradigmas. Eles trabalhavam cerca de quatro horas por dia e a gente orientava os momentos em que ficavam de pé ou sentavam, para garantir apoio ergonômico”

Segundo Sérgio, o acompanhamento de indicadores mostrou ganho de mais de 80% na performance. A Labora também mediu a qualidade de vida dos profissionais em parceria com a Escola Paulista de Medicina.

Outros projetos foram desenvolvidos na área cultural, com a Casa Museu Ema Klabin, e na saúde, em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e com a rede AmorSaúde, ligada ao Cartão de Todos.

UM EVENTO PARA PROVOCAR E DESPERTAR CONSCIÊNCIA SOBRE O TEMA

A Labora é apenas uma das frentes dessa trajetória. A outra começou antes, com o LAB60+. 

Em 2014, quando a longevidade ainda era abordada principalmente por médicos, Sérgio organizou um laboratório social em formato de TED, reunindo profissionais de áreas diversas, de cineastas a pesquisadores.

“A grande contribuição do LAB60+ foi falar de longevidade pela lente do protagonismo, das fortalezas e da beleza do envelhecimento e não só da escassez ou de doenças”

A partir dali, criou-se uma rede de cooperação e nasceu o Café ComVida, roda de conversa colaborativa para trocar experiências, conectar diferentes gerações e debater inovações, projetos e soluções voltados para uma sociedade longeva e inclusiva.

Depois, ainda surgiu na vida de Sérgio o Fórum Expo Longevidade. Ele acompanhou e apoiou todas as edições do evento, que funcionava mais como uma feira de negócios. Até ser convidado, no ano passado, a assumir sua organização.

Sérgio fez então o rebranding do LAB60+, rebatizado de LABoo — os dois “os” simbolizam o infinito e fazem alusão à intergeracionalidade —, e do fórum, que passou a ter menos cara de feira e mais de festival. 

A próxima edição do Fórum e Festival Longevidade, que já é a oitava, está marcada para ocorrer entre 24 e 26 de setembro, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, com o tema “Reimaginando Futuros”.

“Um dos objetivos é ser um vetor de provocação para a ação individual e coletiva e conectar as pessoas com o tema da longevidade”

O formato de festival amplia esse apelo com atrações culturais, incluindo sessões de filmes em parceria com a Cinemateca Brasileira, imersões tecnológicas para que as pessoas se “vejam” no futuro, rodas de conversa e até meditação. 

Na parte de fórum, haverá palestras sobre futuro do trabalho, lifelong learning, cidades amigas da pessoa idosa, moradia multigeracional, finanças prateada e bem-estar, com especialistas e organizações referência nos seus setores, além de ONGs, governos e sociedade civil.

O QUE ELE PRÓPRIO APRENDEU AO AMADURECER JUNTO COM A PAUTA

Quando começou a encabeçar o assunto da longevidade, Sérgio tinha 30 e poucos anos. Com seu próprio amadurecimento, foi quebrando alguns paradigmas:

“Quando a gente é mais novo, acaba sendo prepotente. Mas acho que a vida vai trazendo esses saberes”

Ele compartilha uma experiência relacionada ao cuidado com a mãe, que faleceu há dois anos em decorrência de um câncer. “Tive a oportunidade de cuidar e conviver muito com ela nesses momentos finais. Para mim, o grande aprendizado foi ter essa consciência de que a morte pode ser algo bonito.”

Outro aprendizado relacionado a essa fase: quando, durante o tratamento, sua mãe foi se consultar com o cardiologista, a esposa de Sérgio insistiu para que ele também passasse por uma consulta. 

“Acabei sendo diagnosticado com hipertensão, um assunto com o qual, vira e mexe, me deparava. Mas achava que nunca ia sofrer com isso, que nunca ia ficar doente, porque faço esporte, como bem… De novo, aí está a prepotência” 

Envelhecer tem sido, para Sérgio, um exercício de humanidade. Nesses últimos 20 anos estudando o tema, entendeu algo importante: 

“A longevidade é um assunto de todos. Por isso, até brinco que não é para o outro que eu faço tudo isso. É em causa própria”.

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