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Durante séculos, os animais tiveram um lugar definido na cultura humana. Eram personagens, símbolos, companhia, mercadoria. O ser humano sempre os representou nas histórias, como imaginou que fossem: engraçados, fofos, assustadores, heroicos. Imaginávamos o que eles pensavam, o que sentiam e o que diriam, caso pudessem falar. A história, no entanto, sempre foi centrada na percepção humana.
Mas a forma como nos relacionamos com os outros seres vivos e com o espaço que compartilhamos está passando por mudanças. E nenhuma transformação, seja bioética, tecnológica ou mercadológica, se sustenta politicamente se não houver uma mudança no nosso imaginário coletivo. A cultura atua como o motor invisível da nossa sociedade.
Podemos observar que no cinema, na literatura, nas artes visuais e na música, o animal aparece cada vez menos como adereço de uma trama humana e cada vez mais como um protagonista. Como interlocutor, agente de transformação, coautor de sentido.
A mudança extrapola a estética. A cultura delimita o que uma sociedade consegue imaginar como possível, e transformações jurídicas ou econômicas costumam precisar deixar de parecer esquisitas antes de se tornarem aceitáveis. É aí que filmes, canções e livros atuam.
O modo como representamos os animais diz menos sobre eles do que sobre nós: revela o que entendemos por inteligência, consciência, natureza, pertencimento e, no limite, por humanidade. Depois de tanto tempo imaginando o que os animais diriam se pudessem falar, a pergunta virou do avesso: estamos preparados para escutá-los?
Olhemos para o que está sendo deixado para trás.
Na cultura ocidental, a relação com os animais foi atravessada pela domesticação utilitária e pela ideia de subjugação. A fronteira entre humano e animal não organizou apenas uma visão de mundo: converteu seres sencientes em recursos produtivos. Na cultura de massas, essa distância assumiu diversas formas. O animal era infantilizado, virava personagem fofo, ganhava roupa e voz humana, ou sumia por completo daquilo que consumíamos.
Quanto mais próximo de nós o animal ficava como personagem, mais fácil era projetar nele características humanas. Proximidade simbólica, porém, não é reconhecimento. Nada disso implicava admitir que aquele bicho tem uma experiência própria do mundo.
Quando o animal chegava à mesa, a experiência desaparecia de vez. É o que Carol J. Adams chamou de referente ausente: o produto de origem animal perde qualquer vínculo visual ou afetivo com o indivíduo que existiu antes dele. O animal está presente como a representação da vivência humana, ele deixa de estar presente como animal
A lógica também atravessava a infância. Cantigas transmitidas de geração em geração normalizaram a agressão a outras espécies. “Atirei o pau no gato” é o exemplo mais conhecido de como uma cena de violência vira brincadeira, repetição e memória afetiva.
Nada disso significa que toda representação antropomórfica seja nociva, nem que uma cantiga determine o modo como uma sociedade trata os animais. O que interessa é outra coisa: por muito tempo, a cultura ofereceu poucas ferramentas para imaginar o animal fora de duas posições. Ou ele era parecido conosco o bastante para virar personagem, mascote e objeto de afeto, ou era diferente o bastante para virar recurso.
Essa estrutura começou a ser tensionada na segunda metade do século 20, por movimentos contraculturais e pelo veganismo político. Povos indígenas e comunidades tradicionais, por outro lado, mantiveram concepções baseadas em reciprocidade e interconexão. Foi nesse terreno que apareceu um deslocamento mais interessante. O animal deixou de ser apenas aquilo que representamos e passou a interferir na história que contamos.
O audiovisual brasileiro recente oferece dois casos quase simultâneos.
Caramelo, dirigido por Diego Freitas, estreou na Netflix em outubro de 2025 e se tornou o filme brasileiro de maior alcance global da plataforma. Pedro (Rafael Vitti) é um chef prestes a comandar o próprio restaurante quando recebe um diagnóstico de câncer. O cão que ele encontra, batizado de Caramelo na ficção, vivido pelo vira-lata Amendoim, não é o coadjuvante simpático que acompanha a jornada do protagonista: a relação entre os dois é o centro da narrativa.
O filme transformou uma figura corriqueira e pouco glamourosa da vida brasileira em protagonista de uma produção de alcance internacional, e a discussão vazou para fora da tela. Segundo a Netflix, 83 cães participaram das gravações, e todos os que vieram de abrigos e ONGs foram adotados.

“Caramelo”, filme da Netflix dirigido por Diego Freitas.
Caju, Meu Amigo, de Bruno Carboni, foi ao ar na Globo em janeiro de 2026, dentro do projeto Telefilmes Regionais. Ambientado em Porto Alegre um ano depois da enchente de 2024, acompanha Rafaela (Vitória Strada), que adotou um cão resgatado das águas, e Nice (Liane Venturella), que perdeu a mãe, a casa e um cachorro idêntico. O mesmo animal atende por dois nomes, Caju e Pingo, e o impasse sobre a guarda poderia virar disputa judicial.
É o cão que costura duas histórias humanas que não se encontrariam de outro modo, funciona como tecido conjuntivo de uma comunidade ferida, e o vínculo entre espécies deixa de ser consolo individual para operar como mecanismo de reconstrução social.
Os dois filmes mexem numa convenção narrativa antiga. O animal não está ali para ensinar algo ao personagem humano ou provocar emoção na plateia. A presença dele modifica os acontecimentos. A história não seria a mesma sem ele.
Donna Haraway ajuda a entender por que a diferença é maior do que parece. Em “O manifesto das espécies companheiras”, ela insiste que os cães não existem para os humanos. Não são projeções dos nossos desejos nem substitutos daquilo que procuramos em nós mesmos. São animais numa relação histórica e constitutiva conosco: nenhum dos dois preexiste à relação. Em vez de investigar o que o animal representa para nós, passa a interessar o que acontece entre nós e ele
O trabalho recente de Leandro Selister segue esse caminho por outra via. Em A alegria é um lugar possível, livro lançado em junho de 2026 e painel exposto no Centro Cultural da UFRGS, a cachorra Chica não é tema de uma história sobre adoção nem personagem de uma autobiografia. A convivência com ela atravessa luto, pandemia, separação e enchente, e o artista descreve a experiência como aprendizado: aprendeu a estar mais atento e a entender o luto como transformação. Chica funciona como agente pedagógico. É o animal quem ensina; o humano aprende.
A inversão sugere um critério diferente para o que seria uma cultura multiespécie. Não basta produzir mais filmes, livros e canções sobre animais. Devemos escutar a natureza dos animais e explorar a cultura nascida a partir da escuta. Devemos expandir a percepção que se tem dos seres que habitam o planeta Terra ao nosso lado.
Por muito tempo, a linguagem foi tratada como a fronteira mais nítida entre nós e os outros animais. Se nós falamos e eles não, então pensamos, narramos e produzimos cultura, eles respondem a estímulos. A fronteira fica menos estável quando se amplia a definição de comunicação.
O primatólogo Frans de Waal dedicou Somos inteligentes o bastante para saber quão inteligentes são os animais? a questionar o modo como definimos inteligência. O problema, para ele, não está em descobrir se outros animais são inteligentes, e sim em usar uma régua construída a partir das capacidades humanas para avaliar seres que evoluíram de maneiras completamente diferentes.
O livro reúne casos de cognição, resolução de problemas, uso de ferramentas e aprendizagem social: polvos que carregam cascas de coco como abrigo portátil, elefantes que distinguem tipos de ameaça, o papagaio-cinzento Alex nomeando objetos com precisão, chimpanzés que escondem informação, esperam o momento certo de buscar uma recompensa e ajustam o comportamento conforme o que os outros indivíduos sabem ou não sabem.
A provocação de Frans de Waal é anterior à pergunta “os animais são inteligentes?”. Ela é sobre nós: somos inteligentes o bastante para reconhecer uma inteligência que não se parece com a nossa?
Essa mesma pergunta cabe à cultura. Arte, música, linguagem, transmissão de conhecimento e memória foram usadas durante séculos para demarcar a fronteira entre nós e o resto da vida. Se aves aprendem vocalizações umas com as outras, se comportamentos são transmitidos entre gerações e modificados ao longo do tempo, a linha entre comportamento e cultura fica porosa.
Não é preciso afirmar que baleias compõem sinfonias. Basta aceitar uma definição menos autocentrada: aprendizagem social, transmissão, memória coletiva, comunicação, formas compartilhadas de viver.

A baleia-jubarte é conhecida por suas vocalizações complexas, frequentemente associadas ao canto.
A tecnologia entra aqui com promessa e com risco. A bioacústica mostra que muitas espécies produzem repertórios sonoros complexos, capazes de transmitir informação, coordenar comportamentos e sustentar relações sociais.
O Earth Species Project, criado em 2017, aplica aprendizado de máquina a grandes volumes de gravações de animais e desenvolveu o NatureLM-audio, modelo de áudio treinado especificamente em vocalizações não humanas. Jane Lawton, diretora de impacto da organização sem fins lucrativos, costuma ser direta sobre o que o projeto não é: o objetivo não é construir um tradutor que permita conversar com outras espécies, e sim chegar a algo mais próximo de dicionários rudimentares, capazes de melhorar estratégias de conservação.
A ressalva importa. Transformar a inteligência artificial em intérprete universal da natureza cria uma ilusão confortável, a de que os animais finalmente estão falando conosco quando, na prática, apenas inventamos novas formas de interpretar seus sinais. Identificar padrões numa vocalização não equivale a descobrir seu significado
E, se conseguimos gerar artificialmente um chamado, aparece outra questão: quem decide quando é legítimo interferir no comportamento de uma espécie? A mesma tecnologia que protege pode atrair, explorar e controlar.
Haraway oferece um antídoto contra o atalho fácil. Para ela, não adianta antropomorfizar nem zoomorfizar. Encontrar outra espécie exige inventar categorias novas, e não encaixar o outro nas que já temos. Escutar, nesse sentido, não é esperar que uma baleia diga “estou com fome” ou que um cachorro diga “estou triste”. É aceitar que pode existir comunicação para a qual ainda não temos categorias.
A filósofa belga Vinciane Despret batizou de Fonoceno a era em que essa escuta ativa entre humanos e não humanos ocupa o centro da relação, e na qual animais, plantas e rios deixam de ser ruído, paisagem ou fenômeno físico para se tornarem agentes. O termo aparece ao final de Habitar como um pássaro e foi desenvolvido numa performance e num diálogo público com Haraway, em Barcelona, em 2020.
A troca de pergunta parece pequena. Em vez de “o que o animal quer dizer para nós?”, vale perguntar “que mundo esse animal percebe que nós não percebemos?”. Quem escuta assim não procura um humano escondido dentro do animal. Procura compreender mais sobre o animal.
Se o animal deixa de ser objeto de representação, cabe perguntar qual é o lugar dele na produção da cultura. A resposta não está em procurar animais que façam aquilo que reconhecemos como arte, e sim em admitir que a criação é mais relacional do que costumamos supor.
Pense num cão que vive com uma família. Ele aprende horários, gestos, comandos e rotinas humanas, os humanos aprendem os sinais, as necessidades e os ritmos dele. A casa muda para acomodá-lo. Os hábitos mudam. A relação entre as pessoas muda. O animal não está apenas dentro de uma cultura humana: participa da construção de uma forma de vida.
Aqui a reflexão de Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, amplia o campo. Em “A terra dá, a terra quer”, ele critica a lógica colonial que transforma criação em propriedade e cultura em produto. Nas práticas comunitárias que descreve, a música não é obra separada da vida: é canto, corpo, território, memória e participação, existindo na comunidade e atualizada por quem participa dela
Se a cultura pode ser coletiva, transmitida e continuamente recriada, a pergunta “qual animal é capaz de produzir uma obra de arte?” perde força, ela ainda exige que o animal passe por um exame humano para ser reconhecido. Uma pergunta melhor seria: que formas de criação e transmissão já existem entre outras espécies e não reconhecemos como cultura porque não se parecem com as nossas?
Algumas iniciativas já experimentam essa fronteira. O projeto Sounds Right, lançado pelo Museum for the United Nations – UN Live em abril de 2024, credita NATURE como artista nas plataformas de streaming: gravações de ecossistemas e faixas de músicos que trazem “feat. NATURE” geram royalties destinados à conservação, distribuídos pela EarthPercent, organização cofundada por Brian Eno. David Bowie, Ellie Goulding e V, do BTS, estão entre os nomes que já dividiram crédito com ela.
No Brasil, o projeto Avatares da Natureza, de Danilo Olivaz, converte sinais biológicos de rios e plantas em música por meio de sensores. Nos dois casos, a natureza deixa de ser tema ou inspiração e passa a fornecer a matéria da obra.
São gestos experimentais e imperfeitos. Creditar “a natureza” como artista é, afinal, uma convenção jurídica inventada por humanos para mover dinheiro na direção da conservação. O conceito, ainda assim, incomoda na medida certa: e se a natureza não for apenas aquilo sobre o que fazemos arte, mas também aquilo que participa da obra?
Criar cultura para outro animal significa admitir que o público da cultura não precisa ser humano. Como seria um espaço pensado a partir da percepção de um cachorro, de um morcego, de uma ave? Que sons seriam escolhidos, que frequências seriam suportáveis, que luzes, cheiros e ritmos fariam sentido?
O começo disso aparece em lugares pouco glamourosos. Protocolos como Fear Free e Cat Friendly reorganizam clínicas veterinárias a partir do medo, do estresse e da percepção sensorial dos animais atendidos: iluminação, cheiros, ruído, manejo, tempo de espera. Não é cultura feita para animais no sentido pleno da expressão, mas marca uma mudança de princípio. O ambiente humano começa a ser projetado levando a sério a experiência de outra espécie.
Há uma contradição no centro de tudo isso. Ao mesmo tempo em que reconhecemos animais como seres sencientes, seguimos transformando outras espécies em produto, objeto de desejo e símbolo de status.
O mercado dos chamados animais de produção que viraram pets urbanos é o caso mais visível. Porcos, mini cabras e mini galinhas entraram no universo do lifestyle e da companhia doméstica, com exemplares que chegam a custar cerca de 3 mil reais. Poderia ser lido como vitória: mais espécies entrando no círculo do afeto humano.
A leitura é mais complicada. Se uma galinha se torna digna de companhia porque é pequena, rara ou desejável, enquanto outra continua sendo tratada como alimento, o que mudou foi a categoria do animal ou apenas o preço dele dentro do nosso sistema de consumo?
A mesma tensão aparece quando se compara a chamada pauta pet, concentrada em cães e gatos, com uma agenda mais ampla de direitos animais. A proteção avança para algumas espécies enquanto outras seguem invisíveis. É o risco de uma transformação multiespécie conduzida pelo mercado: o animal deixa de ser propriedade para virar produto premium
O Legislativo brasileiro reproduz essa fronteira com precisão quase didática. O PL 6.054/2019, conhecido como “PL Animais Não São Coisas”, determina que animais não humanos têm natureza jurídica sui generis e são sujeitos de direitos despersonificados, com direito a tutela jurisdicional e vedação ao tratamento como coisa. Aprovado na Câmara em 2017 e alterado no Senado em 2019, voltou à Câmara com uma emenda decisiva: o texto não se aplica a animais empregados na produção agropecuária, na pesquisa científica e em manifestações culturais. Ou seja, a lei que pretende retirar o animal da categoria de coisa preserva como coisa exatamente os animais que comemos, usamos e exibimos.
O PL 179/2023, do deputado Delegado Matheus Laiola, segue caminho paralelo. Reconhece a família multiespécie como entidade familiar e disciplina guarda, visitação e alimentos em casos de divórcio e dissolução de união estável. O alcance, no entanto, é o “animal de estimação”, aquele selecionado para conviver conosco por afeto, assistência ou companhia.
As duas propostas mexem numa categoria que parecia natural: a propriedade. Durante muito tempo, possuir um animal significava exercer sobre ele direitos semelhantes aos exercidos sobre qualquer outro bem. Agora, a pergunta é outra: o que significa possuir alguém que sente?
A resposta legislativa, até aqui, desenha um círculo estreito, e mostra que é possível ampliar a consideração moral sem abandonar o antropocentrismo: dá para amar um cachorro e tratar uma vaca como mercadoria; dá para defender o bem-estar de gatos e ignorar espécies que não participam do nosso imaginário afetivo…
Por isso, o futuro multiespécie não cabe numa expansão da categoria “pet”. O que está em jogo é a hierarquia que organiza quais vidas consideramos próximas, inteligentes, importantes ou dignas de proteção.
Mudanças culturais raramente acontecem por substituição. Por um bom tempo, as versões antigas e novas convivem. Hoje é possível encontrar, simultaneamente, o animal como personagem, membro da família, mercadoria, alimento, sujeito de direitos e possível interlocutor. Essa sobreposição mostra que o futuro multiespécie não é um destino conhecido: é uma disputa sobre quais relações queremos tornar normais.
A história das baleias mostra como a cultura age nessa disputa. Em 1967, nas Bermudas, o biólogo Roger Payne recebeu de um engenheiro da Marinha americana uma gravação de sons subaquáticos captados durante a monitoração de submarinos soviéticos. Payne identificou ali cantos de baleias-jubarte. Em 1970, lançou o disco Songs of the Humpback Whale, um sucesso improvável que se tornou o álbum ambiental mais vendido da história.
O movimento Save the whales ganhou adesivos, camisetas e escala global. A Comissão Baleeira Internacional aprovou a moratória à caça comercial em 1982, em vigor desde 1986. Antes da política, houve uma nova sensibilidade. Antes que a lei reconhecesse um sujeito, foi preciso que as pessoas conseguissem imaginá-lo como sujeito
É isso que conecta os exemplos deste texto. Caju, Meu Amigo põe um cachorro no centro de uma história sobre perda e reconstrução coletiva. Caramelo leva um vira-lata brasileiro a uma audiência internacional. Selister transforma a convivência com Chica em matéria de memória e luto. Os projetos de bioacústica ampliam o que conseguimos escutar. Haraway obriga a pensar os animais como parceiros constitutivos, não como metáforas. De Waal desmonta a ideia de que inteligência é propriedade exclusivamente humana. Em todos eles, o animal deixa de ser apenas aquilo que fazemos dele.

“Caju, Meu Amigo”, filme produzido pela Rede Globo.
A resposta à pergunta inicial, então, é: ainda não estamos preparados para escutá-los. Mas começamos a entender que escutar não se resume a desenvolver uma tecnologia capaz de traduzir sons. Escutar significa revisar as categorias que usamos para decidir quem pode falar, quem pode produzir conhecimento, quem pode ter interesses próprios e quem participa da construção do mundo.
Nenhum dos movimentos descritos aqui encerra o antropocentrismo. As contradições mostram o contrário. É possível querer compreender a comunicação das baleias e, ao mesmo tempo, transformar seus sons em dados a serviço dos nossos interesses. O futuro multiespécie não elimina essas contradições: torna-as mais difíceis de ignorar.
A mudança mais importante talvez não seja tecnológica nem jurídica, e sim epistemológica. Precisamos admitir que o mundo não existe apenas da maneira como o percebemos. Transformar os animais em instrumentos do nosso próprio desenvolvimento seria só uma versão atualizada do velho antropocentrismo. O objetivo não é escutá-los para nos tornarmos humanos melhores, e sim reconhecer que eles têm valor, experiências e mundos que não dependem da utilidade que demos a eles.
A cultura não precisa prever como será esse futuro. Basta criar condições para que certas perguntas deixem de parecer absurdas. Durante muito tempo pareceu absurdo imaginar animais como membros de uma família, sujeitos de direitos ou interlocutores possíveis. Hoje essas ideias tramitam no Congresso.
Depois de séculos imaginando o que os animais diriam se pudessem falar, o próximo passo é mais difícil: parar de esperar que falem a nossa língua e descobrir o que precisa mudar em nós para conseguirmos escutá-los
No fim, o futuro multiespécie não é sobre conceder aos animais uma parte do protagonismo. É sobre reconhecer que o protagonismo da Terra nunca foi só nosso, e que estamos apenas começando a aprender a dividi-lo.
Nicole Camargo Tietzmann é pesquisadora e comunicadora com experiência em marketing, customer experience e design de experiências (UX). Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade de São Paulo (USP), integra o Laboratório IDEIA USP, onde atua no desenvolvimento de projetos de inovação focados em pesquisa, User Experience e design de interfaces digitais. Sua trajetória profissional e acadêmica une processos criativos interdisciplinares e comunicação estratégica com o design de impacto social. Pesquisa tópicos como: User Experience (UX) e Design de Interfaces; Inovação e Processos Criativos; Marketing e Customer Experience; e Comunicação Estratégica.
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