• Camada_1
  • LOGO_DRAFTERS_NEGATIVO
  • VBT_LOGO_NEGATIVO
  • Logo

Afeto multiespécie como categoria de negócio: a solidão gerou um mercado bilionário que já adoece seres humanos e animais

Maria Reiff - 21 out 2026 Maria Reiff, pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie.
Maria Reiff, pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie.
Maria Reiff - 21 out 2026
COMPARTILHAR

Em 2025, a Organização Mundial da Saúde pôs em número uma intuição de qualquer morador de metrópole: uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão. 

No mesmo período, o Brasil chegou a 160,9 milhões de animais de estimação e a um mercado pet de 77,96 bilhões de reais, com projeção de passar de 80 bilhões de reais em 2026.

As duas curvas são, na verdade, a mesma curva. É o que mostra o estudo Futuro Multiespécie, do Atelier do Futuro, que ouviu mais de 60 especialistas: a nossa saúde mental e a nossa relação com os animais viraram um sistema só

O semioticista Norval Baitello Junior, professor da PUC-SP, explica boa parte desse mercado sem abrir uma planilha. Para ele, a vida digital produziu uma “fome de pele”, uma carência de toque que nenhuma tela resolve. “Corpo pede corpo”, resume.

O cineasta Diego Freitas, diretor do filme Caramelo, soma outra variável: estamos tendo menos filhos. O cachorro que dormia no quintal virou membro da família. E o veterinário Victor Costa vê isso no consultório: o pet passou a ocupar a cadeira vazia da casa.

O psicanalista Kályton Resende, referência na discussão sobre o trauma da pobreza, vai mais longe. Para ele, o cachorro virou o laço social perfeito do nosso tempo justamente porque não frustra, não contradiz e não briga

O efeito terapêutico é real: menos cortisol, pressão mais baixa, menos solidão entre idosos. E o mercado leu isso como especificação de produto. Cat cafés como o Mi&Mo, em São Paulo, viraram salas de descompressão. Por outro lado, robôs-pet como o Roomba testam a pergunta mais radical: se a função é acalmar o humano, o animal precisa mesmo estar vivo?

Quando esse vínculo acaba, a dor costuma não ter lugar. A psicóloga Juliana Sato, especialista em luto pet, lembra que frases como “era só um cachorro” aumentam o sofrimento de quem perdeu o animal. 

A neurociência dá razão a ela: o luto por um pet ativa os mesmos sistemas cerebrais de apego da perda de uma pessoa

As empresas estão se antecipando. Há firmas de tecnologia dando até três dias de folga a quem perde um pet. O escritório de design Criamia, de Elis dos Anjos, criou uma licença para quem adota, uma espécie de licença-paternidade pet. A pet tech Budz vende cuidado com o animal como benefício corporativo, porque cuidar do pet ajuda a reter o funcionário.

Crematórios com sala de velório e rodas de acolhimento com psicólogos se espalham por SP, MG e RJ. Em São Paulo, a Lei Bob Coveiro passou a permitir enterrar cães e gatos no jazigo da família.

QUEM CUIDA DE QUEM CUIDA?

O dado mais desconfortável do estudo está em quem sustenta essa economia. Veterinários têm taxas de suicídio de duas a três vezes e meia maiores que a média da população em países como EUA e Reino Unido. 

A arquiteta e psicóloga Suelena Morais, que estuda neuroarquitetura veterinária, chama esse quadro de fadiga da compaixão. Na proteção animal, segundo a pesquisadora mexicana Ericka Fosado, cerca de 85% do trabalho de campo é feito por mulheres, quase sempre sem apoio.

E há os criadores de conteúdo. A pet influencer Luana Felix conta que seguidores com ansiedade tratam seus vídeos como “o salvador do dia”. Mas, quando um de seus cães morreu, ela viveu o luto diante de centenas de milhares de pessoas. Na creator economy, até a dor vira métrica

Foi essa lacuna que o psicólogo Leandro Bravo transformou em negócio. A socialma, que ele fundou, se apresenta como o primeiro ecossistema de saúde mental para criadores de conteúdo: conecta profissionais que entendem de clínica e de algoritmo, mantém um fundo para quem não pode pagar e cobra a responsabilidade das marcas que lucram com essa exposição.

Daniela da Silva, ex-executiva da Meta e fundadora da ONG CTRL+Z, aponta um lado mais sombrio: crueldade contra animais gera reação extrema – e reação extrema vira engajamento. Daí os “resgates falsos” e também o PL 1.043/2026, que quer obrigar as plataformas a detectar esse tipo de conteúdo.

E SE OS PETS PUDEREM DISCORDAR?

Leandro Bravo levanta uma hipótese provocadora. O luto por um animal dói tanto, em parte, porque é uma relação sem conflito verbal. (Se a inteligência artificial um dia traduzir o que os animais comunicam, como pesquisa o Earth Species Project, essa relação vai ganhar atrito pela primeira vez.)

E há quem lembre que o vínculo mais forte muitas vezes acontece fora do consumo. Edu Leporo, do projeto Moradores de Rua e Seus Cães, mostra pessoas para quem o cachorro é o único laço estável que sobrou. 

O ativista Weverton Braga resume a escolha de boa parte do país: “Ou eu como, ou eu pago conta, ou eu cuido de cachorro”.

A economia do afeto multiespécie vai crescer, e rápido. A dúvida é o que ela vai escalar: a culpa de quem cuida, ou a capacidade de reconhecer o outro como outro, e não como espelho 

A fome de pele vai continuar. A questão é se vamos construir um mercado que a alimente, no mau sentido, ou um que a compreenda.

 

Maria Reiff Gemelli Minucci é pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie, do Atelier do Futuro, onde atua como estrategista de linguagens e novos movimentos. Bacharel em Letras (Português e Linguística) pela USP e graduanda em Licenciatura pela mesma instituição, possui experiência em pesquisa acadêmica, revisão de textos, roteirização audiovisual e tecnologia educacional, com atuação em projetos ligados a inovação e a processos contemporâneos.

COMPARTILHAR

Confira Também: