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“Voltei a estudar para cuidar melhor do meu filho e criei uma inovação que pode ajudar milhares de famílias brasileiras”

Nilza Carla Leal - 23 out 2026 Nilza Carla Leal com os filhos João Pedro e Maria Júlia.
Nilza Carla Leal com os filhos João Pedro e Maria Júlia.
Nilza Carla Leal - 23 out 2026
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Quando João Pedro nasceu, em 2006, eu tinha 28 anos e trabalhava sob regime CLT como assistente administrativa em uma empresa de segurança patrimonial.

Mas a maternidade trouxe uma realidade muito diferente daquela que eu conhecia e das expectativas que eu tinha para esse momento tão único na vida de uma mulher.

João Pedro sofreu uma anóxia perinatal, uma grave falta de oxigênio durante o período do parto, e foi diagnosticado com paralisia cerebral. Com um mês e meio de vida, precisou realizar uma gastrostomia, procedimento em que uma sonda gástrica leva alimentação, água e medicamentos diretamente ao estômago.

Eu não conhecia aquele universo. Precisei aprender sobre a condição do meu filho, os cuidados e as complicações. Desde que nasceu, João passou mais tempo em unidades hospitalares do que no aconchego de casa e no colo da família. Entre internações e a rotina doméstica, fui adquirindo um conhecimento que nasceu primeiro da experiência

Hoje, João tem 20 anos, não anda, não fala e depende de mim para tudo. Sou 24×7 e um pouco de tudo: mulher, mãe, cuidadora, nutricionista, administradora, economista, fisioterapeuta, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, empreendedora sem remuneração e tantas outras funções que acumulei ao longo do caminho…

Sou mãe solo e dependo financeiramente da pensão alimentícia dos meus filhos, João Pedro e Maria Júlia, de 14 anos. Ela é meu braço direito em casa e abraçou comigo o cuidado com o irmão de uma forma que enche meu coração de alegria e orgulho.

VOLTEI A ESTUDAR PARA ENTENDER MELHOR A CONDIÇÃO DO MEU FILHO

As complicações relacionadas à gastrostomia são frequentes: o vazamento do conteúdo do estômago e o atrito da sonda na pele podem causar irritações, lesões, sangramentos, odores e infecções. 

Eu queria compreender melhor o que acontecia para cuidar de João Pedro e garantir a melhor qualidade de vida possível a ele. Por isso, fui estudar para ser técnica de Enfermagem. 

A formação mudou meu olhar. Passei a observar outros pacientes gastrostomizados em hospitais públicos e privados e as soluções usadas no cuidado cotidiano, muitas vezes adaptações de materiais criados para outras finalidades 

Depois, cursei Ciências Biológicas, ainda buscando respostas para João Pedro. Meu objetivo era curar meu filho de algo que eu nem sabia exatamente o que era.

Vi também que o cuidado fica quase sempre sob responsabilidade dos familiares e, principalmente, das mulheres – mães, avós ou cuidadoras, quando é possível contar com uma.

Isso me trouxe uma identificação profunda com outras famílias, porque sou mãe solo de um filho atípico e responsável por fazer toda a estrutura da minha casa funcionar.

A PARTIR DAS MINHAS PESQUISAS, IDEALIZEI UM ABSORVENTE DÉRMICO

À medida que pesquisava bibliografias nacionais e internacionais, comecei a testar diferentes matérias-primas e adaptações para proteger a pele de João Pedro. 

Em 2016, passei a pesquisar essa necessidade de forma estruturada, verificando o que existia no mercado, buscando orientação e estudando materiais. 

Encontrei na China uma base com as características que procurava — uma matriz polimérica de poliuretano (PU) com blendas de polímeros de alta absorção. E, a partir dessa descoberta, a ideia do JO+ Absorvente Dérmico começou a ganhar forma.

JO é uma homenagem ao nome do meu filho, João, e o sinal de + representa as outras pessoas que também precisam desse cuidado. O dispositivo foi desenvolvido para o pós-operatório e uso contínuo da gastrostomia, protegendo a pele ao redor do estoma e absorvendo secreções antes que permaneçam em contato com o paciente

Também estudei o formato desse absorvente dérmico, porque aprendi que existem diferentes diâmetros de sondas, e eu não queria um produto que funcionasse somente em um tipo. 

Assim, desenvolvi um desenho que combina a matéria-prima que protege a pele com um formato capaz de se adaptar aos diferentes diâmetros da sonda, facilitando a vida do paciente.

NÃO DEIXEI QUE MINHA REALIDADE DEFINISSE O TAMANHO DO PROJETO

Nasci em Salvador, em 1977. Vivi meus primeiros 14 anos no bairro da Liberdade, um dos maiores e mais densos territórios periféricos da América Latina. Depois, fixei residência no bairro da Ribeira, Cidade Baixa. 

Quando João nasceu, eu morava no bairro dos Mares com o pai dele. Em 2009, me separei por falta de apoio em relação às necessidades do nosso filho e voltei para a casa da minha mãe. Em 2012, nasceu minha filha Maria Júlia. 

Em 2019, fomos para Nova Brasília de Valéria, mas tivemos que deixar o local devido à violência do tráfico e a situações de bullying e furtos que minha filha sofria na escola. Em 2026, retornei à Cidade Baixa, fixando residência no Bonfim.

Sou, portanto, moradora da periferia, mãe e cuidadora em tempo integral. Minha realidade é muito diferente daquela normalmente associada a alguém que cria um produto inovador ou uma startup  

Porém, isso nunca significou, na minha cabeça, que o projeto seria pequeno. Pelo contrário: eu queria encontrar maneiras de crescer. 

Fui atrás de programas, instituições e especialistas e encontrei muita gente disposta a ajudar. O protótipo do Absorvente Dérmico JO+ contou com apoio técnico do SENAI CIMATEC, do Instituto de Tecnologia da Saúde e do Centro Integrado de Design, além da colaboração da doutora Kátia Machado Baptista, pediatra, e de Ivan Schaeffer, dono da C. Centaurus Technology.

Não houve aporte de capital de risco ou investimento de fundos corporativos. O desenvolvimento foi custeado com recursos da pensão dos meus filhos, suporte financeiro da minha mãe e dos meus irmãos, doações pontuais de apoiadores e campanhas de vaquinha virtual.

Em 2021, depositamos o pedido de patente no INPI com apoio do Sebrae. A tecnologia avançou para testes em campo com quatro crianças gastrostomizadas, com diferentes diagnósticos, entre elas João Pedro, e reúne validações técnicas preliminares

Agora, buscamos mais parceiros para ampliar as validações e produzir em escala. Também estudamos fabricar a matéria-prima no Brasil – quem sabe, na Bahia. 

DA PERIFERIA DE SALVADOR PARA O WEB SUMMIT EM LISBOA

Em 2024, vivi uma experiência que me deu a certeza de que estava no caminho certo. 

O JO+ começou a ganhar visibilidade e fui convidada, por meio da ApexBrasil, CUFA Bahia e Escola de Negócios da Favela, para apresentar nosso projeto no Web Summit Lisboa.

Para uma mãe de um filho atípico, da periferia de Salvador, que começou esse trabalho observando uma necessidade nos hospitais e dentro de casa, chegar a um dos maiores eventos de tecnologia e inovação do mundo foi uma emoção 

Eu, que nunca tinha viajado para tão longe, atravessei o oceano para apresentar o JO+ na Europa. Descobri que aquela ideia de 2016 já podia ser discutida em um ambiente internacional de inovação.

Outro reconhecimento veio na Expo Favela, onde o projeto chegou ao Top 10 dos mais inovadores do programa. Para mim, foi também uma demonstração de que conhecimento, pesquisa e tecnologia podem surgir de muitos lugares.

CONCILIAR TANTAS ATIVIDADES EXIGE UMA DISCIPLINA RIGOROSA

Mais recentemente, apresentei o JO+ Absorvente Dérmico na Universidade Salvador, a UNIFACS. A universidade conheceu a minha trajetória e me concedeu uma bolsa para o mestrado, que estou cursando presencialmente.

Minha pesquisa é voltada para a área de cuidados pré, per e pós-cirúrgicos de pacientes gastrostomizados, abordando a assistência ao paciente, o amparo aos familiares, os direitos à saúde e a humanização do acolhimento 

Mais do que a produção teórica, meu foco na academia é estruturar dados concretos obtidos em campo para propor protocolos práticos de atendimento.

Hoje, sou cuidadora, bióloga, técnica de enfermagem, pesquisadora e empreendedora, além de mestranda. Conciliar tudo isso exige uma rigorosa organização diária. 

Divido o meu tempo entre a pesquisa, as demandas da minha filha adolescente, a assistência total ao João Pedro (que está há cinco anos sem internações hospitalares), o suporte à minha mãe – sobrevivente de câncer de mama – e ao meu padrasto de 74 anos, que tem sinais de Alzheimer. 

Nas madrugadas, aproveito o silêncio para estudar e prestar acolhimento telefônico a outras famílias enviadas por profissionais de saúde que conhecem minha jornada

Quero ampliar meus estudos, palestrar, conquistar minha autonomia financeira e continuar trabalhando com inclusão, cuidado e qualidade de vida para pessoas gastrostomizadas e seus familiares.

MEU SONHO AGORA É CHEGAR AO SUS

Segundo o Datasus, mais de 300 mil pessoas vivem com gastrostomia no Brasil. Em hospitais, associações e grupos de apoio, encontrei famílias vivendo as mesmas dificuldades enfrentadas por João e por mim e muitas outras mulheres, tendo de reorganizar suas vidas para assumir o cuidado diário.

O JO+ começou porque eu queria melhorar a qualidade de vida do meu filho. Hoje me move a possibilidade de levar essa solução a outras pessoas e contribuir para o sistema público de saúde. Prevenir uma lesão ou infecção tem impacto para o paciente, a família e os serviços que vão atendê-lo

Um dos meus maiores objetivos é fazer com que a tecnologia possa, no futuro, chegar ao SUS. Não quero uma inovação acessível apenas a uma pequena parcela da população. Se esse problema está presente na vida de milhares de brasileiros, precisamos pensar em escala e acesso.

Atualmente, temos um pedido de patente depositado, testes em campo, validações técnicas preliminares e uma equipe multidisciplinar atuando ao meu lado, formada por médica, engenheira química, doutora em Enfermagem Oncológica e administrador – além da pesquisa que avança dentro da universidade. 

Quando João Pedro nasceu, eu não sabia o que era uma gastrostomia. Hoje, consigo discutir desenvolvimento tecnológico, pesquisa, propriedade intelectual e inovação em saúde. Cada conhecimento surgiu porque havia uma necessidade concreta diante de mim – e eu decidi buscar uma resposta

Quem me ouve contar essa história sabe que sempre me emociono. Nas minhas entrevistas, às vezes a voz falha quando falo de João Pedro ou do JO+, porque lembro de tudo o que passamos. 

Com o tempo, fui entendendo que não preciso separar a Nilza Carla mãe da Nilza Carla pesquisadora e empreendedora. Uma existe porque a outra precisou nascer. 

A ciência me deu ferramentas para transformar o cuidado em pesquisa, mas foi o amor pelo meu filho que me colocou nesse caminho. Sem retrocesso!

 

Nilza Carla Leal é mãe, pesquisadora, empreendedora e CEO da JO+ Absorvente Dérmico.

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