“Estou no time de jornalistas que acreditam que a comunicação tem importância civilizatória, em defesa dos direitos humanos”

Rodrigo Borges Delfim - 27 dez 2019
A curiosidade pelo tema das migrações atuais fez Rodrigo Borges Delfim criar e manter, mesmo diante das dificuldades, o site MigraMundo.
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por Rodrigo Borges Delfim

“Como surgiu o MigraMundo?” Essa é a pergunta que mais ouço ao longo dos sete anos já completos que o projeto tem de estrada. Antes, essa mesma pergunta era antecedida por outras duas: “Quem te financia? A que instituição você está ligado?” A impressão que tinha era de um certo “bug” na cabeça das pessoas quando eu dizia que:

a) o MigraMundo não conta com apoio financeiro;

b) é um projeto totalmente independente, sem ligação com outra instituição.

Esse misto de curiosidade e desconfiança pouco a pouco sumiu, ficando apenas a pergunta sobre como o projeto surgiu — e sobre como ele se mantém.

E sinceramente, várias vezes já me peguei pensando: como o MigraMundo – e não apenas eu – chegou até aqui? Como se manteve ao longo desses anos?

Quando comecei o MigraMundo, mais exatamente em 3 de outubro de 2012, o intuito era pessoal: conhecer melhor um universo que já algum tempo me instigava, o das migrações contemporâneas

Cresci em um bairro de São Paulo com grande presença de descendentes de imigrantes do leste europeu. Era acostumado a estudar com colegas cujos sobrenomes eram lituanos, russos, ucranianos ou poloneses. Com as migrações contemporâneas, passei a entender que migração não era apenas um evento histórico, mas sim algo que transforma as sociedades — no passado e no presente.

Segundo dados recentes da OIM (Organização Internacional para as Migrações), atualmente há 272 milhões de migrantes internacionais no mundo, algo como 3,5% da população global e superior ao número de habitantes do Brasil. Como ignorar o potencial de histórias, ensinamentos e debates que essa comunidade representa?

Ao topar o desafio de usar o jornalismo como forma de entender e abordar as migrações do passado e do presente, vi o MigraMundo assumindo um outro papel: passou a ajudar a preencher uma lacuna de informação sobre o tema

Tive esse insight definitivo em outubro de 2013, durante um curso na USP que reuniu jornalistas, comunicadores, militantes e pesquisadores sobre migrações. Notei que quando me apresentei e citei o MigraMundo, rolou uma curiosidade geral — e não entendi bem o porquê na hora.

Poucos minutos depois, em um dos intervalos para o café, o tradutor e poeta peruano Víctor Gonzales — que depois se tornou meu amigo — veio falar comigo. “Então você é o responsável pelo MigraMundo? Cara, parabéns! Sigo seu blog sempre!”

Foi a partir daí que comecei a ver o MigraMundo como um potencial veículo de informação, um projeto de jornalismo independente que ajudasse a qualificar o debate e a abordagem das migrações na mídia, e não mais como um blog pessoal.

A partir desse curso na USP, pode-se dizer que encontrei um sentido para minha atividade como jornalista. E resolvi comprar essa briga de tocar o MigraMundo como veículo de informação. Batalha que está longe de ser fácil, especialmente em um momento de crise no qual discursos simplistas costumam ganhar terreno com mais simplicidade.

Estou no time de jornalistas que acreditam que a comunicação possui, sim, uma importância civilizatória, em defesa dos direitos humanos — especialmente frente a manifestações como xenofobia e outros tipos de preconceito e discriminação.

E espero que o MigraMundo possa ser uma dessas ferramentas. Se ele me ajudou a ver como as migrações explicam um pouco do mundo em que vivemos, também pode fazer o mesmo com outras pessoas.

No entanto, manter um projeto independente – e ainda conciliá-lo com atividades remuneradas – é uma tarefa que desperta amor e ódio ao mesmo tempo. Em vários momentos já tive vontade de me esmurrar por insistir em algo que não me permitiu um retorno financeiro consistente

Ao mesmo tempo, ao ver pessoas de diferentes origens e qualificações comentando e usando o MigraMundo como referência para pesquisas e projetos, vem o outro lado da moeda. E com ele, a sensação de que, sim, o projeto contribui com algo de útil para a sociedade.

Pois é, olhar para o caminho já percorrido pelo MigraMundo — e por mim, por tabela — funciona como aquele empurrão necessário para um carro pegar no tranco, ou como aquela mão que te levanta depois de tropeçar e cair no chão.

O MigraMundo acompanhou in loco a edição 2014 do Fórum Social Mundial de Migrações, em Joanesburgo (África do Sul); recebeu o prêmio de “Blog Favorito do Público em Português”, da emissora pública alemã Deutsche Welle, graças a uma votação online; foi co-autor de uma cartilha voltada a comunicadores com dicas para a cobertura jornalística sobre migrações (é citado em uma série de pesquisas, “papers” e outras produções acadêmicas sobre migrações).

Lembrar do caminho já percorrido, no entanto, não me torna imune às crises pessoais e profissionais. E não foram poucas as vezes em que achei que seria melhor chutar o balde e seguir outro caminho.

No ano de 2017, podemos assim dizer, o MigraMundo esteve por um fio na maior parte do tempo e fiz um relato sobre essa situação para o próprio site. Logo em janeiro eu “virei estatística” e fui demitido do UOL, passando a viver de freelas esporádicos. E com isso, as finanças pessoais — e da família, porque estava recém-casado — começaram a jogar contra

Em meados do ano, fiz uma promessa para mim mesmo, que cheguei a compartilhar com amigos próximos: caso eu não conseguisse estabelecer nenhum tipo de renda a partir do MigraMundo em 2017, o site seria descontinuado em 2018. Não foi fácil, mas uma série de apoios pontuais — que conto nesse relato — permitiram que a promessa sombria não fosse cumprida.

Em agosto de 2018, nova crise pessoal. Ouvi de uma pessoa muito próxima, em um momento de ira, a seguinte pergunta: “Para que insistir em um projeto que não te deu retorno financeiro de fato?”. Desta vez, cheguei a ir mais longe. “Dispensei” duas das colaboradoras do projeto, afirmando que não teria mais condições de tocar o site com a qualidade que eu gostaria, e que era melhor, digamos assim, “tirar o time de campo”. Levei um puxão de orelhas de ambas no sentido de: “Chegou até aqui para desistir? Estamos com você”.

Mesmo com equipe, muitas vezes me senti sozinho na tarefa de tocar o MigraMundo. Ouvir essa bronca me ajudou a lembrar que, de fato, tem gente disposta a vestir a camisa pelo projeto. Coincidência ou não, as duas autoras dos puxões de orelha estão até hoje no MigraMundo. Correto, Antonella e Victória?

A partir dessa crise, veio uma nova fase. A equipe conseguiu definir uma rotina de reuniões presenciais mensais que ajuda a planejar as pautas e outras tarefas ligadas ao projeto. Sim, embora eu seja a parte mais conhecida do MigraMundo, não sou a única. Outras três pessoas fazem parte da equipe fixa hoje: Antonella Pulcinelli, Eduarda Esteves e Victória Brotto. Sem contar uma série de pessoas que contribuem esporadicamente com o site.

E, bom, 2019 foi um ano igualmente difícil no sentido de encontrar tempo para escrever, publicar e organizar a vida do MigraMundo. No entanto, felizmente, não teve nenhuma crise que ameaçou a continuidade do projeto. Dessa forma, fica mais fácil planejar 2020. E o plano principal é a institucionalização do MigraMundo, de forma que ele tenha mais condições de manter a si e aqueles que estão diretamente envolvidos.

Isso passa, infelizmente, pela questão financeira. Tirando apoios esporádicos, o MigraMundo só recorreu a investimento “externo” em três momentos, todos por meio de financiamento coletivo. A primeira foi no final de 2015, quando percebi que era hora de deixar a “fase blog” de lado e partir para algo mais profissional. Com o dinheiro levantado por uma vaquinha online, foi possível fazer a virada para site — concretizada em 25 de abril de 2016.

A segunda foi no começo de 2017. Com a ajuda de leitores e outros apoiadores, parti para Roraima e acompanhei pelo MigraMundo uma missão do Ministério Público Federal criada para verificar a situação dos migrantes venezuelanos que chegavam ao estado.

A terceira está em curso neste momento. Trata-se de uma campanha de financiamento recorrente para tentar obter recursos visando os próximos passos: formalizar o MigraMundo como associação sem fins lucrativos, além de fazer pequenos investimentos no projeto — desde compra de equipamentos a ajuda de custo para realização das reportagens.

A jornada é difícil, mas sempre aparece uma voz interior, um gesto aqui e acolá que te puxa para cima. Aprendemos a trocar o pneu do carro com ele em movimento, acertamos e erramos, mas seguindo em frente sempre.

Chegar até onde estamos e jogar tudo para o alto? Desistir da escalada depois de tanto tempo? Vejo cada vez mais que vale a “teimosia”. E felizmente não estou sozinho.

 

Rodrigo Borges Delfim, 34, é jornalista formado pela PUC-SP, com passagens por UOL e Folha de S.Paulo. É fundador, mantenedor e editor do MigraMundo, um dos únicos portais jornalísticos com enfoque exclusivo em questões migratórias. Atualmente também é repórter do Portal do Bitcoin, com foco no setor de fintechs.

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