A história da Samambaia: ou como uma casa em Curitiba transbordou suas limitações de espaço

​Stephanie Hering - 4 dez 2015
Bruna Castro na cozinha da casa que a fez repensar valores como o trabalho, a colaboração, a convivência e o dinheiro.
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No coração de Curitiba, um imóvel na esquina da rua Cândido Lopes com a rua Desembargador Ermelino de Leão chama a atenção de quem ali passa. No topo de um prédio de três andares coberto por samambaias – o Edifício Anita – havia uma casa muito engraçada. Mas, diferente da de Vinicius de Moraes, ela tinha teto e todo mundo podia entrar. Este poderia basicamente ser o slogan da Samambaia, atual residência da Bruna Castro, 27, e também um espaço para coworking, reuniões, ensaios fotográficos, hospedagem e outras milhares de possibilidades.

Tudo começou em 2011, quando Bruna, que trabalhava como redatora publicitária, começou a questionar sua rotina. “Eu não estava feliz, sentia que era subutilizada no meu trabalho. Ficava só sentada em frente ao computador escrevendo textos de demandas de clientes”, conta. Para se motivar, resolveu disponibilizar um quarto de seu então apartamento em plataformas como o Couchsurfing e Airbnb. Formada em Comunicação Empresarial pela UFTPR, Bruna conta que chegou a receber mais de 100 pessoas de 31 países em três anos.

No início de 2014, ela foi chamada para um evento do Airbnb em São Francisco, na Califórnia (EUA), que reuniu os 1 500 anfitriões mais influentes no mundo. Para a ocasião, Bruna preparou um cartão de visitas especial: uma cópia real de sua chave, com um convite para um vídeo que mostrava o que aquela chave abriria. Na viagem, teve contato com “casas que eram utilizadas como mais do que uma casa”, tais como coletivos e hoffices, o home office para quem não quer trabalhar no mesmo ambiente onde mora.

A Samambaia é, literalmente, uma casa em cima de um prédio, no centro de Curitiba.

A Samambaia é, literalmente, uma casa em cima de um prédio, no centro de Curitiba.

Mas conforme o tempo foi passando, a anfitriã percebeu que seu apartamento já não comportava tantas trocas e pessoas, e resolveu dar um passo maior, em direção ao que seria um novo modelo de moradia, de trabalho — e de vida. Há seis meses, Bruna decidiu aceitar uma outra proposta de trabalho e trocou, também, o apartamento financiado pelo aluguel da casinha descrita no início deste texto, construída no último andar de um prédio da década de 1950, ao lado de grandes ícones da capital paranaense, como o edifício Tijucas. Bruna batizou carinhosamente o local de Samambaia, por conta da fachada do prédio. Ela tinha um plano, que era também um pulo no vazio:

“Decidi ser feliz pessoalmente e profissionalmente apostando numa ideia que considerava inovadora”

A tal ideia de Bruna era, basicamente, morar no local sem ter que desembolsar um real sequer no aluguel. Para isso, ela foi atrás de pessoas que estivessem interessadas em usar o espaço de alguma forma. Encontrou Carol Reine, consultora de marketing freelancer que topou pagar uma quantia mensal semelhante ao valor praticado em coworkings para trabalhar na Samambaia. Além disso, Bruna passou a disponibilizar o espaço para eventos, que vão desde a reuniões a confraternizações.

UM MODELO DE NEGÓCIO BASEADO EM NÃO QUERER PAGAR PELO ALUGUEL

A hora pelo uso do espaço começa em 50 reais e varia de acordo com a ocasião. Com o surgimento destes eventos, Carol também começou a ajudar em trazer oportunidades para a casa, e essa relação acabou evoluindo para uma espécie de “aluguel colaborativo”. “Combinamos que, no início, iríamos abater 20% do valor tudo que ela ajudasse a fechar em eventos. Já no primeiro mês deste novo modelo, o valor zerou”, conta Bruna. Neste momento, Bruna diz estar partindo para um terceiro formato, ainda não definido, em que pretende combinar um percentual de prospecção com quem trouxer e organizar os eventos na Samambaia.

O mutirão de reforma da Samambaia reuniu 30 pessoas, algumas delas inclusive, não eram tão próximas de Bruna.

O mutirão de reforma da Samambaia reuniu 30 pessoas, algumas delas inclusive, não eram tão próximas de Bruna.

Além disso, Bruna manteve sua vocação de anfitriã: ela hospeda em média uma pessoa por mês na Samambaia, pelo Airbnb. “No momento, não lucro com a Samambaia. Mas consegui não pagar para morar. Em troca, otimizo o espaço de uma casa que ficaria parada durante o dia e somo conhecimento”, conta. Dentre os eventos que a Samambaia já traz em sua trajetória estão uma palestra sobre física quântica, uma festa corporativa da Melissa, jantares e até mesmo a gravação de um comercial de cerveja. Nos eventos abertos ao público, a entrada costuma ficar entre 20 e 50 reais.

“As pessoas e as cidades estão carentes de espaços quem abram suas portas para os outros”, diz Bruna. “Você pode ter um projeto super legal, por exemplo, de fazer um cineclube temático, mas dificilmente terá o lugar para colocar isso em prática. Provavelmente também não vai querer comprar um projetor. Diversos fatores acabam contribuindo para que muitas ideias legais morram no papel. São coisas que elas querem participar ou dividir com alguém, mas um ambiente tradicional de trabalho não permite”.

Multifuncional e multicultural, a Samambaia é também uma representação da economia colaborativa. Desde o início, diversas pessoas que não conheciam Bruna resolveram apoiar o projeto e deram sua contribuição de alguma forma.

“Quando fui reformar a casa, postei uma foto pedindo ajuda. Gente que eu mal falava me procurou e quando percebi, 30 pessoas estavam lá plantando, pintando, construindo pallets ou cozinhando”, conta Bruna. E prossegue: “Aquele mutirão orgânico era o retrato do que viria mais para frente, com todo mundo querendo fazer parte e ocupar o espaço”

Efetivamente, ela conta, bem mais de trinta pares de mão ajudaram a colocar a casa em funcionamento. Bruna ainda conseguiu o patrocínio de uma marca de tintas, que cedeu latas para a pintura da casa; e recebeu diversas doações de móveis.

A Samambaia, vista da rua. Aos poucos outros negócios criativos estão se organizando no mesmo prédio.

A Samambaia, vista da rua. Aos poucos outros negócios criativos estão se organizando no mesmo prédio.

Recentemente, Bruna foi surpreendida por um comentário em seu blog, o Abra a Janela, onde divide textos como suas experiências com hospedagem. Era uma mensagem da bisneta de Anita, a ex-moradora do prédio que cedeu o nome para o imóvel. “Ela me contou que não tinha muitas lembranças da avó, mas que ela era uma pessoa muito doce, alegre, falante e que adorava uma boa conversa. Este é o lema de vida da Samambaia”, diz a anfitriã-empreendedora.

A Samambaia não só está dando certo, como anda chamando a atenção dos vizinhos. No mesmo prédio em que a casa ocupa o terraço, há um escritório de arquitetura, o Estúdio Coletivo, e um espaço com profissionais independentes que trabalham com design, ilustração e arte na Segundo Andar (que recebeu o nome por causa da localização no segundo andar do Edifício Anita). Recentemente, os três fizeram uma espécie de “reunião de condomínio” na qual resolveram unir forças para transformar o imóvel em um grande ponto cultural.

UMA COISA PUXA A OUTRA

“Queremos transformar o prédio em uma rede de parceiros não só para trabalhos, mas também para eventos que possam transformar positivamente o espaço ao redor”, conta Bruna. Questionada sobre como pretende rentabilizar o que seria uma nova fase do projeto, ela diz que isso ainda está em construção:

“Não tenho um modelo de negócios para a Samambaia. Mais importante do que ganhar dinheiro é mostrar que é possível criar projetos incríveis justamente sem ter dinheiro”

Para 2016, o único objetivo definido pela Samambaia é contratar um funcionário para ajudar na organização dos eventos. Por enquanto, ela aproveita o momento para por em prática os conhecimentos de sua pós-graduação em Gestão Cultural e Produção de Arte.

“Fiquei um tempo sem saber como utilizar o que aprendi, até encontrar a Samambaia. Hoje vejo que a casa tira o melhor de mim e me dá diversas possibilidades, seja para trabalhar com ações culturais ou redes colaborativas; para hospedar pessoas ou até mesmo inspirá-las”, conta. “A Samambaia acaba sendo um grande exercício do uso do potencial máximo de um espaço. Esse tem sido meu mantra nos últimos meses. Espero que mais pessoas o adotem em uma casa como a minha ou até mesmo em apartamento com mais cinco amigos.”

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  • Projeto: Samambaia
  • O que faz: Espaço colaborativo para eventos, coworking e aluguel no Airbnb
  • Sócio(s): Bruna Castro
  • Funcionários: não há
  • Sede: Curitiba
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: não houve
  • Faturamento: o valor do aluguel
  • Contato: [email protected]
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