“As pessoas riam de mim, diziam: ‘Mira, você não está falando sério que essa sua ideia, esse TruckPad, é uma empresa, né?…'”

Bruno Leuzinger - 21 abr 2020
Carlos Mira, fundador da TruckPad: expectativa de fechar 2020 com 500 colaboradores e 2 bilhões de reais transacionados.
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“O primeiro aplicativo de cargas para caminhoneiros do mundo foi o TruckPad. E eu tenho a prova conceitual disso, porque registrei em julho de 2012, no Instituto Nacional de Propriedade Industrial.”

O empreendedor Carlos Mira fala orgulhoso sobre seu negócio, uma plataforma que conecta transportadoras e motoristas de caminhão autônomos. Aos 52 anos, com uma jovialidade movida a bom-humor, ele conta que no começo ouviu muita chacota. Não só pela decisão de registrar sua ideia no INPI (“isso é bobagem, ninguém respeita”), mas pelo conceito da empresa em si. 

“As pessoas riam, me perguntavam: ‘Mira, quando você vai arrumar um emprego…? Caminhoneiro não usa smartphone, e meu funcionário aqui da transportadora nunca vai parar numa tela de computador para procurar caminhoneiro, pô… Ele grita ali na rua e aparecem cinco!’. Era um baita dum descrédito”

Contamos a história da TruckPad aqui no Draft dois anos atrás, em abril de 2018 (trajetória que incluiu uma aceleração pela Plug and Play na Califórnia e o investimento da Movile). 

Em maio de 2018, semanas depois daquela nossa primeira reportagem, estourou a greve dos caminhoneiros, que paralisou o Brasil e de certa forma provou que Mira estava certo: a categoria sabia manejar muito bem o smartphone.

A PANDEMIA DO CORONAVÍRUS NÃO DEVE FREAR O CRESCIMENTO DA EMPRESA

A TruckPad contabiliza hoje 1,2 milhão de downloads do seu aplicativo — número superior, diz Mira, ao total de caminhoneiros no país pelas contas da Agência Nacional de Transportes Terrestres (na época da greve, informação atribuída à consultoria NTC & Logística cravava esse número num patamar mais alto, em 2 milhões de caminhoneiros).

Dos 1,2 milhão de downloads, 500 mil motoristas já se registraram de fato na plataforma, e 60 mil abrem o aplicativo todos os dias, segundo o empreendedor. 

Em 2019, a TruckPad transacionou 700 milhões de reais em fretes localizados e contratados pela plataforma. E a pandemia do coronavírus não deve frear esse ímpeto. Mira diz que a expectativa é algo como triplicar esse valor em 2020, chegando a 2 bilhões de reais transacionados:

“Crescemos em março, mesmo trabalhando 15 dias em home office, e com o movimento de frete caindo 30%, 40% nas estradas. E estamos crescendo em abril. E por quê? Porque é um setor de 70 bilhões de dólares de fretes por ano, há um espaço enorme para crescer. O setor de transporte rodoviário de carga é o maior setor da economia nacional que carece, que precisa, que não pode abrir mão da digitalização”

Esse crescimento da empresa deve ser impulsionado por um novo aporte, anunciado em novembro de 2019, da chinesa Full Truck Alliance (também conhecida como Manbang Group). 

O CONTATO COM OS CHINESES COMEÇOU A PARTIR DE UMA VISITA EM 2017

Mira se refere a esse novo sócio chinês como a “maior plataforma global digital de conexão entre caminhões, aporte e cargas no mundo”, com mais de 15 milhões de usuários na China e 3 bilhões de dólares de investimentos recebidos.

Carlos Mira era frequentemente questionado quando ia arrumar um emprego. Hoje está à frente da TruckPad.

A companhia é uma fusão de duas ex-concorrentes, criadas a partir de 2015 com a mesma proposta da TruckPad de “uberizar” o transporte de cargas. “Só que China é outro planeta, bicho. É outro mundo. E os caras cresceram rápido pra caramba”, diz Mira. 

O contato com a Full Truck Alliance começou em 2017, quando o empreendedor esteve na China e contou que tinha um negócio muito parecido aqui no Brasil. Ele diz que até tentou um acordo de cooperação tecnológica na época, mas não rolou. Até que em janeiro de 2019, chegou um email dos chineses, interessados em conhecer startups aqui no país.

“Eles vieram com o pessoal do Softbank junto, visitaram todas as startups parecidas com a TruckPad, startups que eu chamo tranquilamente de ‘copy-cat’, porque se eu fui o primeiro, tenho essa honra de chamar todo mundo de copiador.” 

A análise técnica, segundo ele, levou três meses. “Daí, eles decidiram investir no TruckPad, porque foi o único sistema que faz exatamente o que a FTA faz na China, com a mesma visão, o mesmo conceito, e que se dispõe obviamente a trabalhar pari passu [no mesmo passo] com a empresa na China.”

ALÉM DO MARKETPLACE DE FRETE, UM E-COMMERCE DE PEÇAS E SERVIÇOS

O fundador da TruckPad se esquiva de abrir faturamento, aportes e valuation (mas diz que os investimentos recebidos pela empresa até aqui batem na casa das “dezenas de milhões de reais”). E explica essa postura: 

“Não quero passar para a minha galera o que critico no mercado. Não quero que todo mundo fique numa de ‘ah, vamos fazer valer um bilhão…’ Nosso usuário tem que usar, gostar e continuar usando. Daí, um valuation de 1 bi, 2 bi, 10 bi é consequência natural… Ficar inflando número e esquecer de construir valor é uma ‘vibe’ em que eu não acredito”

São três frentes de negócios. A principal, que responde por uns 80% do faturamento, é o marketplace de frete. “Temos vários modelos, desde a empresa pagar uma mensalidade para usar a plataforma, até clientes que nos pedem para localizarmos e contratarmos caminhoneiros por eles e nos pagam uma comissão.” 

Além disso, por meio de parcerias com marcas como Mercedes-Benz (investidora da TruckPad via Daimler), Michelin e ZF (gigante alemã de autopeças), a startup funciona também como um e-commerce de peças e serviços, de onde vem cerca de 18% do faturamento. De quebra, oferece informações sobre o perfil de seu público que ajudam essas marcas a se relacionar com os caminhoneiros.

COM UMA E-WALLET, ELE QUER DIGITALIZAR OS PAGAMENTOS NA ESTRADA

Lançada em março, a terceira frente — já responsável por uns 2% do faturamento — é a TruckPad Pay, uma carteira digital. Aqui, Mira admite que apenas copiou o conceito de e-wallet de marcas como Mercado Pago, por exemplo.

A empresa agora vem num esforço de “evangelizar” os atores do transporte de carga a adotar a solução. Para o caminhoneiro, uma vantagem de receber o frete pela ferramenta seria não precisar circular com dinheiro vivo (sob risco constante de assalto). 

“O TruckPad Pay faz o ‘close the loop’ [fecha o ciclo] em toda a nossa plataforma. O caminhoneiro pega frete pelo aplicativo, recebe pela carteira digital e depois pode comprar produtos no nosso marketplace usando o TruckPad Pay. E assim, a gente destrava uma série de facilidades, benefícios, descontos…”

Na outra ponta, com a digitalização da compra e venda de produtos e serviços, o controle de estoque ganharia em inteligência, com postos de gasolina e estabelecimentos de beira de estrada adquirindo apenas as peças e insumos que de fato vão vender aos motoristas.

“É legal porque resolve um pepino num setor que era tido como arcaico”, diz Mira. “Vamos ensinar o borracheiro, a lojinha de autopeças, a usar o TruckPad Pay. Imagina que bacana a inclusão digital e comercial para esses pequenos estabelecimentos.” 

Segundo a startup, a previsão é de que a carteira digital seja aceita “em 2 mil postos de rodovias e 3 mil outros estabelecimentos, como oficinas e concessionárias pelo Brasil, até o fim deste ano”. 

DESDE O FIM DE 2019, O TIME TRIPLICOU — E A IDEIA É SEGUIR CRESCENDO

No fim de 2019, a TruckPad trocou a sede da Movile, na Vila Olímpia, em São Paulo, por um prédio na região da Avenida Paulista, onde ocupa oito andares — ou ocupava, até o coronavírus.

A mudança tem a ver com o crescimento: o time mais que triplicou nos últimos meses. 

“De novembro [de 2019] para março, fomos de 80 para 250 colaboradores. Nosso planejamento era ter 500, 600, por volta de junho, julho. Agora com o coronavírus, não sei, mas a gente imagina que chegaremos nesse número até o fim do ano, sim”

A equipe se divide basicamente em três áreas: engenharia (ou tecnologia), marketing e experiência do usuário. “Temos um onboarding muito específico”, diz Mira. “Desenhamos um chatbot e cada caminhoneiro que entra [na plataforma], a gente meio que ‘pega ele pela mão’ mesmo.” 

O empreendedor afirma que “de 65% a 70%” de todos os produtos à volta de cada um de nós foram transportados por caminhão. E se diz feliz por empreender uma ferramenta que ajuda a “empoderar” a categoria:

“Eu fui empresário do setor de transportes, fui presidente da Associação Brasileira de Logística, vice-presidente da Associação Nacional de Transporte de Carga… E a visão [que prevalece no meio] sempre foi a do embarcador, a do empresário. No fim do dia, porém, o grande ator desse negócio é o caminhoneiro.”

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