Exoesqueletos com tecnologia nacional: como uma startup quer ajudar a indústria a garantir a saúde e a segurança dos seus funcionários

Marília Marasciulo - 5 dez 2023
Alfredo Marczynski (à esq.) e Rafael de Tarso, dois dos sócios da Exy Exoesqueletos.
Marília Marasciulo - 5 dez 2023
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Esqueça a armadura ultratecnológica do Homem de Ferro ou mesmo o traje desenvolvido pelo neurocientista Miguel Nicolelis que permitiu que uma pessoa paraplégica desse o pontapé inicial na abertura da Copa do Mundo do Brasil, em 2014. 

Exoesqueletos podem ser muito mais acessíveis e terem aplicações menos mirabolantes — especialmente na indústria. É o que a startup curitibana Exy Exoesqueletos quer provar.

“A gente quer tentar desmistificar essa ideia [associada à ficção científica], porque não trabalhamos com um exoesqueleto do futuro que vai fazer voar — mas vai melhorar a saúde do trabalhador”, diz Rafael de Tarso Schroeder, 41. 

Publicitário e designer, Rafael é um dos cofundadores da Exy, que se posiciona como a primeira empresa do Brasil a desenvolver e produzir os equipamentos com tecnologia 100% nacional.

“Todo mundo pensa em exoesqueleto como uma coisa supertecnológica de filmes, que [a pessoa] vai conseguir levantar dez vezes o próprio peso. Mas é como se fosse um terno, não tem bateria, funciona mais no sentido de proteção e redução dos riscos de movimento, aproveitando o próprio movimento do corpo”

Os administradores Alfredo Marczynski, Aline Tortato e Daniel Pacheco completam o quadro societário da startup. Fundada em 2019, a Exy afirma ser capaz de reduzir em até 60% o risco de lesões no ambiente de trabalho, e hoje atende marcas como Embraer, Thyssenkrupp, Pirelli e Michelin. 

CONHEÇA OS DOIS MODELOS DE EXOESQUELETOS MADE IN BRAZIL

Para desmistificar e popularizar os exoesqueletos, a Exy aposta em dois produtos diferentes: o ExyONE Back Lite e o ExyONE Shoulder. 

Rafael, de costas, apresenta o exoesqueleto ExyONE Shoulder.

O primeiro é, na verdade, um exovestível, pois não conta com partes mecânicas, como um chassi, molas ou elásticos. Feito inteiramente de tecido, parece uma cinta lombar, e funciona justamente para reduzir o risco de lesão nessa região da coluna. É vendido a 3 900 reais, mas o valor pode diminuir dependendo da quantidade encomendada.

Já o ExyONE Shoulder é um exoesqueleto passivo. Ao contrário dos exoesqueletos ativos, que incluem componentes eletrônicos e podem custar mais de 200 mil dólares, os modelos passivos funcionam com pontos de ancoragem que auxiliam e corrigem os movimentos naturais do corpo. “É matemática e elástico”, define Rafael. 

O valor de cada ExyONE Shoulder varia entre 14 e 18 mil reais; há a opção de alugá-los por um valor entre 400 e 1 mil reais mensais. 

FISSURADOS EM TECNOLOGIA E TRANSFORMAÇÃO DIGITAL, ELES ENXERGARAM UMA OPORTUNIDADE NO SETOR AUTOMOTIVO

A ideia para empreender em um mercado tão de nicho surgiu por acaso. Na época, em 2017, Rafael havia recém fundado uma empresa de impressão 3D com Alfredo e Marcos Loest, que atualmente não é mais parte da sociedade. 

Os três se conheceram na Renault — Alfredo e Marcos trabalhavam na área de tecnologia de informação da montadora; Rafael, que tem formação em comunicação e design, atuava como consultor de inovação do Senai Paraná e passou alguns anos atendendo a Renault. Ele conta:

“Nós começamos a mapear outras tecnologias e a fazer parcerias com startups. Éramos uma espécie de evangelistas da transformação digital”

Em uma conversa com Michelle Souza, uma empreendedora da área de neuroengenharia que conheceu durante os anos de Senai, ela pediu ajuda para tocar um negócio de exoesqueletos. “Comecei a olhar para esse mercado de forma muito experimental”, diz Rafael. “Não imaginava que iria focar nisso”

Usando a estrutura da empresa de impressão 3D, fizeram um protótipo “bem pirata” para entender o que funcionava e não funcionava, e apresentaram à Fiat — na época, a montadora havia começado a importar exoesqueletos.

“Conversamos com o ergonomista e ele falou que tinha muita coisa ruim, mas tinha coisas boas”, lembra Rafael. Somado a isso, o empreendedor percebeu que quase nenhuma outra empresa estava apostando no produto para uso industrial, porque era algo ainda muito ligado à academia.

Foi o suficiente para, em 2019, os sócios decidirem “incubar” o que viria a ser a Exy. Investiram cerca de 300 mil reais do próprio bolso, e captaram mais cerca de 250 mil reais com investidores anjo que investem na startup até hoje. 

“Tentamos fazer as coisas o mais barato possível”, diz Rafael. “Não tínhamos nenhum professor doutor especializado, tinha a Michelle com o conhecimento empírico, mas foi sempre tudo muito na tentativa e erro.” 

DEPOIS DO FOCO EM P&D, O DESAFIO DA STARTUP AGORA É ESCALAR O HARDWARE

O trabalho de pesquisa e desenvolvimento foi até 2022. No período, enfrentaram os desafios não só de desenvolver um novo produto, mas de empreender pela primeira vez.

Quando o dinheiro acabou, Rafael precisou se afastar da Exy para trabalhar em outro local; Michelle saiu da sociedade para se dedicar à aplicação dos exoesqueletos na área de saúde, em vez da indústria; Aline, esposa de Alfredo, que trabalhava na área de compras da Renault, entrou na empresa para fortalecer a pesquisa com materiais e financeira; e Daniel veio do setor metalmecânico para atuar exclusivamente em P&D.

Outra barreira foi convencer clientes a apostarem no produto.

“É um produto novo e o usuário tem que querer usar, é cultural. Além disso, existia uma alta expectativa sobre o que seria um exoesqueleto. Quando a gente mostra, a reação em geral é ‘ah, mas é só isso?’ ou ‘ah, mas é caro’…”

Em média, o tempo de negociação até a venda se concretizar em capital de giro para a empresa é em média 90 dias. “Um pouco absurdo”, diz Rafael. 

De 2022 para cá, a empresa vendeu 200 equipamentos, e a expectativa é fechar 2023 com 350 vendidos — o breakeven, portanto, ainda não chegou.

“É muito difícil escalar o hardware, a não ser que a gente tenha acesso a custo. Hoje tenho preço competitivo, consigo produzi-lo barato, mas o problema para as empresas não é só o custo, é ter gente dedicada para usar”, diz Rafael.

Ele cita o exemplo de um cliente que testou cinco equipamentos durante um ano — para só então fazer um novo pedido de mais 40 produtos.

NA FALTA DE UMA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA QUE CERTIFIQUE O PRODUTO, A EXY DECIDIU BUSCAR O AVAL NO EXTERIOR

A maior dificuldade, porém, tem sido a falta de certificação. No Brasil, ainda não existe uma legislação clara sobre esse tipo de equipamento. 

“Já tentamos conversar com o Inmetro, mas eles validam somente os componentes do elástico, por exemplo, porque não têm regras para o conjunto. E aí tem empresas que não compram da gente, porque precisam disso por razões de compliance”

Por esse motivo, o foco da Exy no momento é buscar essa certificação — nem que para isso precisem ampliar a operação para o exterior. A ideia é começar em Portugal, que tem uma legislação a respeito. 

Além do idioma ser o mesmo, o que simplifica a abordagem, o fato de a Exy trabalhar com um produto totalmente fabricado no Brasil torna o preço bastante competitivo, segundo Rafael, graças às diferenças cambiais. 

A expectativa é que, com isso, a empresa possa não só aumentar as vendas, mas expandir seu escopo — desenvolvendo, por exemplo, um software que crie um fluxo digital para apoiar o trabalho dos ergonomistas na implementação. 

“Essa logística é um grande foco, porque o produto de entrada vai representar 60% das nossas vendas. Nosso foco inicial é o exoesqueleto, mas depois queremos suportar toda essa cadeia, estamos explorando as possibilidades”

Mesmo com todos os percalços e desafios pela frente, Rafael é otimista com o potencial do negócio. 

“Existe hoje um mercado mundial para os exoesqueletos, a previsão é que eles bombem a partir de 2028 — e a gente já sabia disso desde 2017”, afirma, orgulhoso. “No futuro, robôs vão [cada vez mais] cumprir tarefas, mas tem coisas que não vai valer a pena substituir. E aí, como faço para melhorar a qualidade de vida do trabalhador? Reduzindo os riscos de lesões com exoesqueletos.”

 

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  • Projeto: Exy Exoesqueletos
  • O que faz: Exoesqueletos e exovestíveis que reduzem o risco de lesões em trabalhadores industriais
  • Sócio(s): Alfredo Marczynski, Aline Tortato, Daniel Pacheco e Rafael de Tarso
  • Sede: Curitiba
  • Início das atividades: 2019
  • Investimento inicial: R$ 300 mil
  • Faturamento: R$1,3 milhão (ano)
  • Contato: [email protected]
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