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“Como a gente adivinhou o futuro?”

Luiza Lages - 17 dez 2020 Carro conceito Fiat Mio
O carro do futuro já foi feito. Há 10 anos.
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Em 2008, o hoje diretor do Design Center da FCA na América Latina, Peter Fassbender, teve um insight que culminaria em um dos maiores projetos de inovação aberta do Brasil e o primeiro do tipo no mundo: a produção de um carro conceito muito especial. Aquele era o momento da concepção do Fiat Mio.

Fassbender se perguntava sobre a capacidade da indústria automotiva de compreender e atender os desejos de seus consumidores e, com o aval da diretoria da empresa, trabalhou junto de uma equipe talentosa e motivada de designers, engenheiros e comunicadores, que levou para frente a ousada construção de um carro em plataforma aberta.

A Fiat então perguntou ao público qual seria o carro do futuro. E recebeu um retorno surpreendente. Foram quase 11 mil ideias e 12 mil comentários, que norteariam todo o trabalho.

Dois anos depois, em julho de 2010, após um longo e desafiador processo de interações e produção colaborativa, a montagem do Fiat Mio foi finalizada, dentro do Salão Internacional do Automóvel de São Paulo.

“Conseguimos manter a nossa promessa de criar um carro com vocês, com as suas ideias, com a sua participação. O carro no salão não foi a grande mudança cultural que fizemos, mas como o fizemos; de forma aberta, com uma comunidade de mais de 15 mil pessoas. A verdadeira ideia revolucionária foi fazer um projeto com todo mundo”, diz Peter.

 

Uma ideia revolucionária

Peter Fassbender, Diretor do Design Center Latam da FCA

Para Peter Fassbender, Diretor do Design Center Latam da FCA, a ideia revolucionária foi o projeto colaborativo em si.

“O designer é um artista, quer melhorar o mundo e não aceita o status quo. A nossa oportunidade de fugir das regras acontecia a cada dois anos, no Salão do Automóvel, quando a gente mostrava um carro com novos conceitos, objeto de experimentação. Mas a gente queria ainda mais, porque quando você faz um conceito, mesmo hoje, poucas pessoas se lembram”, conta Peter.

Na época, ele leu um artigo que trazia uma reflexão sobre transparência da empresa e envolvimento dos consumidores na produção.

“E vi que o processo mais comum era criar e depois mostrar e perguntar ao público, mas assim é tarde demais para mudar um projeto. Por isso é preciso envolver o cliente desde o início”, diz.

Peter explica ainda que a visibilidade de um carro lançado no Salão do Automóvel é de aproximadamente seis meses, mas há uma fase anterior, de produção, que dura um ano e meio.

“Isso significa que a gente tinha a possibilidade de criar uma visibilidade de quase dois anos. Então chamei as pessoas mais criativas da empresa em uma sala e perguntei: por que não fazemos online?”

Na época chefe de interior design na Fiat, Mateus Silveira coordenou parte do time de designers do projeto. Ele conta que a ideia de aumentar o tempo de exposição evoluiu em cima da compreensão do momento das redes sociais e das transformações nas relações com o digital e a tecnologia. Mais que exibir o conteúdo, seria possível permitir ao consumidor interagir diretamente com o processo. Já que o trabalho seria aberto, a equipe optou também por colocar a plataforma sob a licença Creative Commons.

“Assim, todo o conhecimento disponível pertenceria a todos. O que significa que, até hoje, qualquer um pode pegar aquelas ideias, desenvolver o próprio Fiat Mio e toda melhoria voltaria para o coletivo”, conta Mateus.

 

Fiat Mio: construção aberta

Maria Lucia Antonio, Brand Marketing Communication da FCA para a América Latina

Maria Lucia Antonio, Brand Marketing Communication da FCA para a América Latina.

Segundo Isabella Vianna, gerente de Design de Cores e Materiais Gráficos, Realidade Virtual e Acessórios, o primeiro grande desafio foi construir a plataforma de interação com o público e abastecê-la com conteúdo. A primeira versão, que pedia ideias conceituais, foi ao ar em agosto de 2009, e a segunda em novembro, já com 21 tópicos selecionados para continuar a discussão.

“Era necessário gerar conteúdo diariamente, não deixar as pessoas sem resposta”, lembra.

Câmeras registravam todo o processo dos designers, que foi documentado em episódios que abasteciam o blog do projeto.

“Essa transparência ajudou muito, mostrou uma Fiat muito humana, aberta, que está fazendo um trabalho dedicado, todos os dias”, diz Peter.

Maria Lucia Antonio, Brand Marketing Communication da FCA para a América Latina, conta que foi construída praticamente uma “sala de guerra” para lidar com o processo colaborativo e organizar todas as informações que chegavam e que eram devolvidas.

“A indústria automobilística esconde tudo e esse era um projeto completamente aberto. Internamente, foi preciso aprender a trabalhar dessa nova forma. E externamente foi maravilhoso: tudo era notícia. No Brasil, o carro ainda tem um poder imagético muito grande e participar dessa construção é o sonho de muita gente”, diz.

A equipe abriu o site e perguntou sobre cor, design, tecnologias e funcionalidades do carro, desenhou e colocou as ideias online. Todas as características vieram diretamente dos consumidores ou interpretadas a partir de anseios compartilhados.

“Hoje a gente fala de um carro responsivo, autônomo, movido a energia solar, sustentável. Tudo isso apareceu de forma muito forte lá atrás, e nos trouxe um feedback muito importante para os próximos trabalhos, sobre o que as pessoas queriam. Muitas vezes a gente fica dentro da nossa caixinha e perde um pouco a sensibilidade sobre o que as pessoas precisam, então abrir a conversa é muito rico”, reflete Isabella.

 

Você também vai querer espiar o Fiat Fastback, o mais novo carro conceito da Fiat apresentado na América Latina. E vale conferir que a FCA também trabalha em rede, no HUB!

 

Evolução da tecnologia

Carro conceito Fiat Mio

Fiat Mio ainda é case de inovação estudado em todo o mundo.

Paulo Matos, Gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional no ISVOR, era supervisor de inovação na Engenharia de Produto da Fiat, e tinha o papel de entender, analisar e produzir estudos de viabilidade técnica de equipamentos e tecnologias para o carro, a partir da opinião dos clientes. Algumas das propostas implementadas conceitualmente no Fiat Mio já se tornaram realidade ao longo desses dez anos, como o carro elétrico. Outras são desafios ainda muito atuais, como assistente pessoal e carro autônomo.

“E tem coisas que a gente enxergou muito na frente, como o motor nas rodas ou o som distribuído, em que o motorista ouve uma música e o passageiro outra. Era um carro muito à frente do seu tempo. Ainda é.”

Isabella destaca as propostas relacionadas a sustentabilidade. A designer conta que, ainda hoje, não foi possível aplicar todas as sugestões que surgiram na época. Outras viraram ponto de partida para novos projetos da marca, como o uso de tecidos com fios recicláveis no interior dos veículos.

“A gente conseguiu trabalhar com fornecedores para viabilizar esse tipo de revestimento. No setor automotivo há essa preocupação ecológica, com o impacto dos nossos produtos. Na produção do Fiat Mio, começamos a enxergar esse lado das pessoas: mais humano, preocupado com o futuro e com o tanto de carros nas ruas”, explica.

 

Novas formas de produzir

Para Mateus, que viveu uma grande mudança na carreira a partir do trabalho com o Fiat Mio e hoje é Gerente de Inovação e Conectividade de Produto, o projeto transformou também o modo como a equipe pensa a produção de um carro.

“Primeiro, a gente abriu mão dessa relação direta com o core business, com o carro; depois, desse entendimento de que quem faz carro é a gente. Aprendemos que o saber combinado tem muito poder”, relata.

Maria Lucia conta que os processos internos foram muito ricos, com a colaboração entre as diferentes áreas e equipes, de forma pouco hierárquica.

“Era uma grande diversidade cognitiva, de pessoas com informações, trabalhos, visões de mundo diferentes, internamente e externamente. Eu acho que foi um experimento de diversidade”, diz.

 

Fiat Mio: uma lição de inovação

Paulo fala do projeto como um grande exercício de mudança de mindset.

“No começo ainda éramos muito ortodoxos, e foi preciso abandonar isso. Não estávamos desenvolvendo o carro para hoje e não era a gente que definia as resoluções; era o cliente”, diz.

Ele lembra que o pedido de motor elétrico nas rodas foi motivo de muito debate entre os engenheiros, porque não existe, ainda hoje, motor leve o suficiente para não afetar a dinâmica do carro ao ser usado nas rodas.

“Mas, daqui a um tempo, talvez os motores não sejam mais tão pesados. E aí a gente mudou o mindset, porque era o carro do futuro. Começamos a fazer esse exercício de quebrar essas ortodoxias e isso mexeu com a nossa forma de pensar. Não há inovação sem pensar o futuro”, diz.

Para o engenheiro, o projeto deixou lições para a Fiat sobre inovação aberta e um grande legado sobre como conversar com o cliente.

Toda a equipe fala em “saudades” e em mudança de visão, de planos de carreira e de novas possibilidades quando lembra do projeto. Ainda hoje, o Fiat Mio é um case de sucesso estudado em todo o mundo.

“Quando eu olho para o Mio, vejo que a gente acertou, o coletivo acertou. Um veículo elétrico com baixas emissões, assistente pessoal, autônomo, com um interior que parece a sala de casa, com materiais sustentáveis. Para mim isso é mágico! Como a gente adivinhou o futuro?”, Mateus reflete.

 

Esta matéria pode ser encontrada no FCA Latam Stories, um portal para quem se interessa por tecnologia, mobilidade, sustentabilidade, lifestyle e o universo da indústria automotiva.

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