Como garantir que o dinheiro chegue a quem precisa? A Simbiose Social conecta empresas e projetos que utilizam leis de incentivo

Juliana Afonso - 13 dez 2022
Da esq. à dir.: Raphael Mayer, Mathieu Anduze e Tadeu Silva, sócios da Simbiose Social (crédito: Simbiose).
Juliana Afonso - 13 dez 2022
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Faz tempo que as leis de incentivo têm sido alvo de discussões e polêmicas, vide a confusão (cercada de incompreensões e fake news) que volta e meia se cria em torno da Lei Rouanet. 

Esse tipo de mecanismo de renúncia fiscal é uma alavanca fundamental para apoiar projetos sociais, culturais e esportivos no Brasil. Mesmo assim, é fato que, polêmicas à parte, os recursos nem sempre chegam às iniciativas que mais precisam.

Da compreensão desta dificuldade surgiu a Simbiose Social, socialtech que usa inteligência de dados para conectar empresas e projetos que utilizam leis de incentivo em todo o país.

Os amigos Mathieu Anduze, 29, e Raphael Mayer, 28, são os fundadores da startup, que ainda tem como sócio Tadeu Silva, 32. Em 2021, a Simbiose bateu a marca de mais de 350 milhões de reais geridos via plataforma. O montante é a soma dos recursos investidos pelos clientes em diferentes organizações. 

ANTES DE EMPREENDER, ELES PASSARAM POR GRANDES COMPANHIAS E TIVERAM CONTATO COM MECANISMOS DE DOAÇÃO (E SEUS GARGALOS)

Raphael estudou Administração na Fundação Getúlio Vargas; Mathieu cursou Marketing, Publicidade e Propaganda na ESPM. Antes de empreenderem juntos, cada um passou por uma grande empresa: o primeiro estagiou na Ambev, e o segundo, na Unilever.

A experiência corporativa corria bem, mas os dois entendiam que queriam algo mais. Raphael afirma:

“A gente buscava propósito no trabalho. Foi assim que começamos a nos envolver com as áreas de responsabilidade social dessas empresas e a ter contato com mecanismos de doação”

Ao se aprofundarem na área, eles observaram que, na maioria das vezes, os recursos eram alocados em projetos conhecidos. 

“Era uma lógica comercial e nem sempre social”, diz Raphael. “A empresa até queria investir em um projeto diferente, em um local distante, mas nem sempre tinha acesso a essas organizações.”

AO SE DEBRUÇAR SOBRE O TEMA “LEIS DE INCENTIVO”, A DUPLA ESBARROU NA DIFICULDADE DO ACESSO ÀS INFORMAÇÕES

Ao tentar mudar essa realidade, os amigos se juntaram ao centro de pesquisas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) para estudar incentivos fiscais no país. 

Logo de cara, encontraram dificuldade para acessar as informações a respeito – os dados, apesar de serem públicos, não se encontravam acessíveis. Eles utilizaram então duas estratégias: buscar as instâncias públicas e elaborar pedidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Os dados começaram a chegar em caixas e mais caixas… Foi quando Raphael e Mathieu buscaram Tadeu, especialista em tecnologia com foco nas áreas de desenvolvimento e analytics, para organizar os dados. 

O mapeamento contabilizou 200 mil projetos aprovados em leis de incentivo e mais de 80 bilhões de reais investidos por 62 mil empresas desde dezembro de 1991, quando foi criada a Lei Rouanet, uma das primeiras leis de incentivo do país. 

Em seguida, Tadeu desenvolveu robôs para rastrear as organizações que poderiam fazer uso dos incentivos fiscais, em tempo real, em todo território nacional. Raphael diz:

“Se surge um projeto no interior do Piauí que pode receber qualquer tipo de imposto para resolver uma demanda social local, essa informação vai estar na nossa base em até uma hora”

Com os dados em mãos, os três começaram a trabalhar em um sistema capaz de conectar empresas a organizações que precisavam de recursos. Cinco companhias toparam fazer o piloto: Monsanto, São Domingos (gráfica), Cushman & Wakefield, Uber e Cogna Educação

Nos primeiros três meses, foram direcionados 8 milhões de reais para projetos em todas as regiões do país. Em setembro de 2017, após um ano e meio de estudos, a primeira versão da Simbiose Social foi lançada. 

PARA UMA DISTRIBUIÇÃO DEMOCRÁTICA DOS RECURSOS, FOI PRECISO CRIAR UMA FERRAMENTA ACESSÍVEL

Os mecanismos de incentivo vão muito além da Lei Rouanet: são mais de 50 tipos de incentivos fiscais ativos no país nos âmbitos federal, estadual e municipal. Isso sem contar com as doações de recursos próprios. Segundo Raphael:

“Estamos falando de empresas que vão direcionar 30, 40, 50 milhões de reais por ano. É um super potencial de transformação que, na prática, acaba investido sempre nos mesmos projetos”

De fato, os estudos mostraram que 71% dos projetos que podiam resolver uma demanda social não conseguiam captar nenhum centavo. Além disso, mais de 50% dos recursos disponíveis, principalmente em níveis municipais e estaduais, não eram utilizados, e 80% da verba nacional estava nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Esse cenário era possível por dois motivos. O primeiro era o fato de que organizações sociais, governo e empresas não conversavam na mesma língua. O segundo tinha a ver com o custo transacional, ou seja, os gastos associados a uma transação – afinal, acompanhar e monitorar projetos distantes custa dinheiro.

PROSPECÇÃO, AVALIAÇÃO DE RISCO E MONITORAMENTO: O TRIPÉ DA SIMBIOSE PARA GARANTIR A ALOCAÇÃO CERTEIRA DOS RECURSOS

Para favorecer essa descentralização dos recursos, a ferramenta foi pensada a partir de três etapas. A primeira é garantir visibilidade no processo de busca e prospecção de projetos. Raphael afirma:

“Se eu quero investir em empoderamento feminino no interior do Maranhão, com dois clique eu vejo todas as organizações que trabalham com isso”

A segunda etapa envolve a realização de uma auditoria, ou seja, uma avaliação de risco de cada projeto. Para isso, os robôs que capturam dados em tempo real também capturam informações sobre a prestação de contas e a estrutura fiscal das organizações. 

A terceira e última etapa, chamada de pós-investimento, envolve o monitoramento do projeto escolhido: por meio da plataforma é possível mensurar as ações e a estrutura da instituição que desenvolve o projeto.

ALÉM DO ACESSO À PLATAFORMA, A SIMBIOSE PASSOU A OFERECER O SERVIÇO DE ASSESSORIA DE INVESTIMENTO

No fim de 2017, a Simbiose Social foi uma das 10 startups de impacto brasileiras selecionadas pelo Facebook para um programa de aceleração. Os sócios foram estimulados a melhorar o design do produto e, assim, a experiência dos usuários.  

A nova versão da plataforma foi lançada em julho de 2018: “Aí foi um boom. Entraram empresas como BNP Paribas, BTG Pactual, Grupo Ultra, Unilever, Fundação Grupo Volkswagen e Heineken”, diz Raphael.

O que os sócios não calcularam é que o mercado não estaria pronto para absorver o produto. 

“Quando a gente tem uma imaturidade do setor na hora de comprar um produto, a demanda natural é um serviço. Além de oferecer a tecnologia, passamos a oferecer uma assessoria para viabilizar esses investimentos”

O contrato com a Simbiose prevê a licença de software para uso da plataforma e o suporte de assessores de investimento. O acordo é modular: a empresa pode contratar só a busca de projetos, só a auditoria, só o monitoramento ou todos os serviços.

Há também uma seção na plataforma chamada “Radar de patrocinadores”, na qual as organizações sociais podem acessar dados de potenciais empresas investidoras. Raphael afirma:

“Não temos nenhuma margem de lucro em cima desse projeto, pelo contrário, ele é subsidiado para que chegue a um preço acessível para as organizações” 

Para manter a estrutura, a Simbiose conta com 55 pessoas na equipe e se organiza nas áreas de gestão (vendas, assessoria de investimento para empresas e relacionamento com as organizações sociais), tecnologia e comunicação.

O PAPEL DAS EMPRESAS COMO ATORES DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL FOI REFORÇADO DURANTE A PANDEMIA

A pandemia da Covid-19 trouxe uma série de desafios ao setor. Por um lado, muitas empresas tiveram resultados ruins, o que afetou a arrecadação de impostos e a quantidade de recursos a ser convertida para projetos. 

Por outro lado, a importância de negócios no desenvolvimento de setores sociais foi amplificada. Raphael diz:

“A gente viu mais empresas querendo fazer uma transformação durante a pandemia. Dobramos a carteira de clientes, o faturamento e o volume de recursos direcionados”

Durante esse período, foram elaborados novos filtros de busca para que as empresas pudessem encontrar organizações que atuassem diretamente com temas relacionados à pandemia, com destaque para as áreas de saúde, ações para a terceira idade, cultura e cultura indígena. Além disso, as organizações que atuavam com esses temas tiveram acesso gratuito às ferramentas da Simbiose.

A equipe seguiu realizando pesquisas para gerar informações sobre o mercado. Um desses estudos foi o Brasil ODS: desafios para democratizar a transformação por meio do investimento social, lançado em setembro de 2022. 

Por meio de 344 indicadores públicos, a pesquisa contribuiu para desenhar um panorama da demanda social de cada região do país, especialmente com relação ao ODS 4, sobre Educação. O objetivo foi apoiar tomadas de decisão mais conscientes.

O estudo já trouxe resultados práticos. “Hoje, o investimento em localidades com altíssima e alta demanda social recebem mais verba de clientes atendidos pela Simbiose em comparação com o mercado”, afirma Mathieu.

INEDITISMO E TECNOLOGIA GARANTEM RECONHECIMENTO À SIMBIOSE

A Simbiose Social coleciona reconhecimento. Em 2018, os sócios ganharam o prêmio Empreendedor Social de Futuro, da Fundação Schwab e do jornal Folha de S.Paulo. 

Em 2019, a Simbiose passou a representar o Brasil no Fórum Mundial de Impacto, na Universidade de Oxford. Em 2020, os sócios integraram a Forbes Under 30, lista de jovens que se destacam em diversos setores.

Depois de bater a marca de mais de 350 milhões de reais geridos via plataforma em 2021, a dupla espera fechar 2022 com um novo recorde, atingindo 500 milhões de reais investidos pelos clientes da Simbiose em diferentes organizações. 

A geração de dados inéditos e o uso de tecnologia para auxiliar no direcionamento de recursos são características que tornam a Simbiose um negócio inovador. Ainda assim, Raphael acredita que o crucial está no propósito: 

“Mostramos que é possível ter uma empresa rentável financeiramente e que gera uma transformação social no mundo” 

Esse propósito, aliás, tem tudo a ver com o próprio nome da empresa: simbiose é quando dois seres interagem e os dois saem ganhando. 

“A gente não vai tomar uma decisão apenas para gerar lucro”, diz Mathieu. “A premissa é estarmos sempre alinhados com nossa essência social.”

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Simbiose Social
  • O que faz: Usa inteligência de dados para conectar empresas e projetos sociais que utilizam leis de incentivo.
  • Sócio(s): Mathieu Anduze, Raphael Mayer e Tadeu Silva
  • Funcionários: 40
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 20 mil
  • Contato: [email protected] 
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