Como uma jovem mãe transformou o isolamento em força para criar o projeto Empreender Materno

Mariana Pasini - 29 mar 2016
Bárbara e a filha Isadora. Com a maternidade, ela iniciou um longo caminho até se entender como empreendedora - e começar a ajudar outras mães.
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A jornalista brasiliense Bárbara Vitoriano, 26, observa uma característica comum bastante inusitada entre empreendedores e mães: o isolamento. “A maternidade nos isola, nos deixa cada vez mais solitárias. O empreendedorismo também!”, diz. “O empreendedor, principalmente quando ele está iniciando, não tem uma equipe. Não tem a hora do cafezinho… é bem solitário.”

Foi para aproximar e potencializar as características desses dois campos que ela criou, em abril de 2014, o EmpreenderMaterno, um projeto que oferece consultorias e dicas para mães que querem se aprofundar no mundo dos negócios. Desde sua criação, Bárbara tem enxergado cada vez mais convergências entre essas duas instâncias. O Empreender é pensado para mães que queiram de fato empreender, e não para quem só quer um negócio que sirva de fonte de renda temporária enquanto o filho cresce. Há conteúdos no site, num canal do YouTube, e nas redes sociais, além de um Hangout mensal com dicas práticas, como ela diz:

“A ideia é realmente informar, fomentar e apoiar a mãe empreendedora. Não só com dicas de negócio e marketing, mas dando acolhimento e trabalhando juntas as dificuldades que possam surgir”

Bárbara sempre começa uma troca de e-mails inicial para saber quais as necessidades e os objetivos da cliente em potencial. O site também oferece conteúdos e serviços pagos, divididos em três frentes: Negócio Materno, Empreendedora Materna e MaternaLab. As consultorias custam entre 547 e 847 reais – os valores, pagos numa só vez, incluem uma reunião inicial e mais três de desenvolvimento (em média, já que o número pode variar se houver necessidade).

Com a evolução do negócio, este ano as consultorias estão se mesclando em uma só, chamada EmpreendedoraMaterna. A Negócio Materno, por sua vez, vai virar um curso de Marketing Digital para mães empreendedoras com uma linguagem simples e dicas práticas.

Por sua vez, o MaternaLab é uma área para membros, com conteúdo premium sobre empreendedorismo e marketing digital. Nela, estão disponíveis palestras, cursos, tutoriais sobre os mais diversos assuntos que englobam este universo. O sistema de acesso é por assinatura mensal no valor de 39 reais, e a mãe acessa quando pode e todas as semanas novos conteúdos e atualizações são inseridas na plataforma.

Bárbara com as duas filhas. A maternidade a ajudou a dividir melhor tarefas e horários.

Bárbara com as duas filhas, Isadora e Julia. A maternidade a ajudou a dividir melhor tarefas e horários.

“A gente adequou o negócio ao poder aquisitivo do nosso público. Tem mães com condições de pagar muito por cursos e viagens e eventos, mas a maioria, não. Nas consultorias, há as reuniões e a estruturação de um plano de ação, que são individuais. Cada mãe, com cada negócio, recebe um plano para trabalhar o seu caso específico”, conta Bárbara.

O formato online das consultorias, ainda que exista a modalidade presencial, não é à toa. “O deslocamento de uma mãe é difícil. O formato para facilitar o encontro da consultora e as clientes. Há também muita flexibilidade para desmarcar consultas online, no caso de o filho ficar doente etc.” Os horários são combinados pensando na rotina da família, geralmente à noite ou nos finais de semana, dando bastante liberdade à mãe para escolher o horário em que quer ser atendida.

WHATSAPP, VÍDEOS CASEIROS, O QUE FOR PRECISO

Bárbara mantém, ainda, um grupo no WhatsApp de ajuda mútua entre as mães empreendedoras, e grava vídeos num estúdio na própria casa. Não tem sócios, apesar de contar com a ajuda “extra-oficial” do marido, como ela define, com questões tecnológicas  como o HTML de sites, por exemplo. Ela não esconde que faz as vezes também de psicóloga e coach, quando, às vezes, as mães precisam de alguém para desabafar. O que se ganha com a maternidade é o que falta às vezes no empreendedorismo, acredita Bárbara:

“Ao se tornar mãe você ganha jogo de cintura, algo vital para tocar um negócio. Não que seja fácil empreender sendo mãe, é claro”

Mas ela acredita que há várias características de uma mãe que são muito valorizadas no mundo corporativo: a atenção, o poder de concentração, a empatia (necessária, por exemplo, para decifrar o que o outro quer sem o outro falar). “A gente muda o nosso jeito de ver a vida, nossos sonhos e planos, e começa a observar ao nosso redor problemas e soluções para esses problemas de que muitas vezes surgem negócios, e negócios de sucesso”, diz ela que, pessoalmente credita a vontade de estar mais perto dos próprios filhos à superação de um velho problema: ter mais controle sobre a carga horária de trabalho.

Bárbara nasceu em Brasília e ingressou na faculdade de Jornalismo em 2006. Começou a trabalhar na Renner como analista de crediário mas com um ano de faculdade, o pai, que é funcionário do Tribunal de Contas da União, precisou se mudar para Salvador. Ela transferiu faculdade e emprego para a capital, e então descobriu-se grávida da primeira filha, Julia, hoje com 7 anos. Com uma nova transferência do pai, acabou se instalando de vez em Campo Grande, onde nasceu a segunda filha, Isadora, hoje com 2 anos.

Ainda em Salvador, Bárbara se interessou pela área de web e redes sociais, e buscou alguns cursos livres sobre o tema. Saiu de uma empresa que revendia cursos de Autodesk para o Marketing Digital para ganhar menos, mas por paixão. Após o fim da licença maternidade, deparou-se com um problema clássico: a dificuldades em conciliar a vida de funcionária com a de mãe de duas crianças.

SENDO MÃE É MAIS DIFÍCIL

Em 2009 ela criou o blog Tudo de Concurso, que ainda está no ar. “Fui meio que descobrindo que, sim, existia uma forma de empreender”, diz. Ela criou então o Indiretas Maternas, um blog sobre empreendedorismo e maternidade (abrigado no guarda-chuvas do site Personare). “No Indiretas, comecei a escrever alguns textos sobre empreendedorismo materno, sobre o que que era empreender na internet, quais as vantagens etc, e muitas pessoas a se interessarem”, conta. Com o interesse do público, ela buscou iniciativas similares, mas só achou algumas voltadas a mulheres, mas não necessariamente para mães. Surgiu, então, a ideia de um projeto que falasse exclusivamente com mães empreendedoraso Empreender Materno (a criação do site custou 5 mil reais, de economias de Bárbara). Ela reflete sobre a área em que escolheu mergulhar: 

“Ser mãe é algo que abre possibilidades mas traz desafios e barreiras. Nada mais é tão simples como antes. Ao empreender, a gente sente uma resistência maior do mercado”

Atualmente, aos 29 anos, estudante de uma pós-graduação em Marketing, Bárbara é, ela própria, um exemplo da importância de se amadurecer a ideia de um negócio antes de vê-lo consolidado. “Empreender não é um passe de mágica, que você não monta um negócio hoje e amanhã está vivendo dele. Demorei anos para fazer a minha transição total. Tive um tempo de amadurecimento da ideia, e até interno meu, de entender que realmente criei isso para a minha vida”, diz. “Tanto a questão do negócio sobreviver sozinho quanto uma questão interna de decisão e de amadurecimento, porque não é fácil empreender. Alguns empreendedores digitais vendem um modelo pronto de empreendedorismo. E nem todo mundo tem condição e a mesma velocidade de amadurecimento e decisão interna mesmo.”

O blog Indiretas Maternas, também tocado por Bárbara, tem quase 200 mil fãs no Facebook.

O blog Indiretas Maternas, também tocado por Bárbara, tem quase 200 mil fãs no Facebook.

O principal desafio das mulheres que são suas clientes ou leitoras, segundo Bárbara, é conciliar os papéis de mãe e de empreendedora. “Por isso, sempre destacamos a importância da rede de apoio”, afirma.

Outra grande dificuldade é o valor do investimento: a maioria delas possui um capital baixo para começar. Também existe o desafio de lidar com os novos conhecimentos necessários para empreender. “E é aí que nós entramos. E por incrível que pareça, muitas mães não acreditam em si mesmas, acham que não conseguem ou que não são capazes de empreender”, conta.

Entre os exemplos de negócio que o Empreender Materno ajudou a crescer, está o de Cristiane Medeiros, uma consultora de estilo que pretende trabalhar com moda acessível. Ela não é uma mãe empreendedora tradicional: com mais de 40 anos, entrou para o mundo dos negócios com o filho já mais crescido, aos 8 anos. O grande desafio do negócio, chamado Badulacris  é conversar com seu público alvo, C e D, e mostrar que a consultoria de imagem não é algo supérfluo.

“Nossa primeira reunião foi meio que uma consultoria de mão dupla. Ela falou de coisas que eu poderia melhorar no meu visual para me impor mais, para as pessoas confiarem mais na minha imagem. Vi o tanto que as dicas dela me impactaram. É um dos trabalhos que está sendo mais especial para mim”, conta Bárbara. “Com ela, nosso desafio é mostrar para esse público que uma consultoria de imagem não é algo supérfluo, que se ele tiver essa ajuda ela consegue consumir muito mais de uma forma muito mais consciente, certeira.”

DIFICULDADES E AJUSTES NO AMADURECIMENTO DO NEGÓCIO

Desde sua criação, o Empreender Materno já passou por algumas mudanças. A criação do MaternaLab, uma área de membros restritos com aulas que servem para todas as mães, é um exemplo disso. Bárbara percebeu que muitas clientes precisavam de conhecimentos específicos de administração ou produção de conteúdo. “A gente dá as diretrizes, mas não adiantaria nada se ela não soubesse fazer. Para solucionar esse problema, a gente criou as aulas que ficam numa área reservada para aprender a mexer com ferramentas específicas”, conta.

A primeira ideia era de oferecer uma gama extensa de cursos independentes, mas após o lançamento do primeiro curso e de muita conversa com o público, Bárbara notou algumas características, como o baixo investimento e o não conhecimento técnico da área. “Por isso surgiu a ideia das consultorias, onde cada negócio é visto de forma independente, e a ideia da área de membros, pois lá, essa mãe consegue adquirir uma vasta gama de conhecimento por um excelente custo-benefício e pode estudar quando e onde quiser e puder.”

Com o MaternaLab, Bárbara produz um conteúdo só e o distribui entre todas as clientes, e isso facilitou a redução do valor, além de reduzir o tempo em ficar explicando cliente por cliente. “A maioria delas precisa, por exemplo, de uma presença digital, uma fanpage, um blog, ou um site institucional. Em vez de eu ensinar mãe a mãe a fazer isso, tem uma aula que ensina todas elas.”

A empreendedora conta sobre seus erros e destaca a importância de escutar sempre o público, ainda mais por atuar em um “micro nicho”, com muitas particularidades. “No começo, trabalhamos com a persona errada e demoramos um pouquinho para ajustá-la. Ou seja, falávamos com o público-alvo errado. Percebemos que haviam mães que não queriam empreender de verdade, mas apenas ter uma renda enquanto os filhos são pequenos e tem aquelas mães que se despertam para o empreendedorismo e encontram na maternidade a coragem ou motivação ou até mesmo a ideia de negócio que faltava. É com esse último público que trabalhamos”, diz Bárbara.

Entre os projetos futuros do Empreender Materno, está a abertura para investidores e conseguir a consultoria de outras mães que foquem em outras áreas para ampliar o número de serviços, como os focados exclusivamente em questões administrativas ou financeiras.

No entendimento da empresária, empreender é transformar, fazer a diferença, no sentido de negócio ou não. “É o ato de transformar, de fazer algo diferente, não necessariamente ter um negócio próprio. É se reinventar, ter que encontrar soluções, se desafiar, fazer diferente, e fazer a diferença de algum modo.” Bárbara não esconde o quanto se sente bem por ajudar os outros, ao mesmo tempo em que continua fazendo o que gosta, que é conteúdo: “Me encontrei”.

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  • Projeto: Empreender Materno
  • O que faz: Consultoria de negócios e de marketing para mães
  • Sócio(s): Bárbara Vitoriano
  • Funcionários: 1 (apenas Bárbara)
  • Sede: Brasília
  • Início das atividades: abril de 2014
  • Investimento inicial: R$ 5.000
  • Faturamento: R$ 8.000 mensais, em média
  • Contato: [email protected]
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