Do personagem ao livro, ao game e ao que mais eles criarem: na Farofa Studios, a criança é a alma do negócio

Luisa Migueres - 12 fev 2015
Os fundadores da startup: Saulo Ribas, Eduardo Azevedo e Marco Rossi.
Luisa Migueres - 12 fev 2015
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Pensar como criança é um desafio, ainda mais em um tempo em que elas já nascem com um celular, tablete ou computador nas mãos. Na definição dos criadores da Farofa Studios, essa geração é formada por “pequenos geeks apaixonados por novidades”. E foi para esse público que eles resolveram trabalhar, desenvolvendo de animações a mascotes.

O tripé da empresa, reconhecida no mercado como uma das mais expressivas no desenvolvimento de entretenimento infanto-juvenil, são três caras apaixonados pelo seu target: Saulo Ribas, Marco Rossi e Eduardo Azevedo. Cada um com sua especialidade, eles formam uma equipe de sócios dispostos a manter o espírito de startup em um negócio que cresce a cada ano. Ano passado, a Farofa conquistou respaldo e clientes estratégicos como o Santos FC, a Fundação Lemann e o Gloob, o canal infantil da Globo.

Criada há três anos, em 2012, a Farofa Studios não tem uma única atuação e nem quer ser rotulada. “É tanta coisa… Não é uma produtora, ou uma desenvolvedora de games, ou de design. É muito maior do que isso”, diz Eduardo, responsável pela parte de captação de clientes e atendimento da empresa. Ele se uniu a Marco e Saulo no segundo ano de vida da Farofa, que no início funcionou em esquema de coworking.

Saulo vinha de mais de uma década no mercado editorial, onde já trabalhava com o universo infantil. Na Editora Globo, conheceu Marco, também fascinado pela relação das crianças com tecnologia e igualmente sedento por abrir seu próprio negócio. Depois que o impulso surgiu, foi difícil abandonar a ideia, e ambos se viram investindo no que seria o embrião da Farofa.

Na época, os sócios passaram a trabalhar em seus primeiros projetos sob o olhar de reprovação de um grupo de arquitetos com quem dividiam a sala . “Caímos nessa onda de ser moderno (risos), mas pra nós a experiência não foi boa, porque os funcionários que a gente queria contratar são desses que pegam um brinquedo no meio do expediente e começam a gritar”, conta Saulo, que se recorda com “carinho”, entre aspas mesmo, das tardes que passava escutando músicas infantis de um trabalho para o MPBaby, um projeto de clipes animados para crianças. “As músicas eram lindas, mas a gente tinha que ouvir a mesma música 20 vezes por dia, todo mundo ficava louco.”

A empresa fica, hoje, em um espaço amplo, que tem impressora 3D e uma área para receber crianças - que brincam e mexem em tudo.

A sede da empresa tem uma “oficina” com impressoras 3D e uma área para receber crianças – que brincam e mexem em tudo.

Foi aí que o número 19 da Praça General Craveiro Lopes, na Bela Vista, região central de São Paulo, entrou na jogada. Com espaço de sobra para os mais de 20 funcionários e uma “oficina” com impressoras 3D, o espaço se tornou a sede da Farofa e fonte de uma serie de novas ideias. De lá, passaram a nascer projetos como o desenvolvido para o Santos FC, que começou como um pedido de criação de personagens – Baleinha e Baleião – e se tornou um emaranhado de ações que envolveram os mascotes dentro do campo até jogos online para os torcedores mirins.

“Eram dois personagens, mas criamos uma família de nove, nos metemos a desenvolver junto o boneco, descobrir como ficaria a costura… Porque tudo isso é parte do que a gente faz”, conta Saulo, que não disfarça a paixão pelo seu público-alvo a cada frase que diz. “O dia em que a gente viu o Santos jogando com a nossa marca na camisa foi o maior prazer, ver os mascotes no campo foi muito incrível”, concorda Eduardo. Comemorar as conquistas faz parte do trabalho do trio. A cada novo cliente ou projeto, há também um novo motivo para tentar superar os limites, como Saulo comenta:

“Não queremos transformar nada em uma fórmula, pois precisamos sempre entrar com a cabeça aberta em cada projeto novo. Isso faz parte da nossa cultura”

É com esta curiosidade permanente que eles tentam extrapolar os próprios limites, descobrindo a cada dia o que “funciona” para a garotada, que segundo eles mesmos “muda mais do que qualquer outro público”. A necessidade de entrar na cabeça dos pequenos deu origem ao que eles definem como pesquisa comportamental, é uma espécie de reunião com crianças na sede da empresa, onde elas brincam, têm contato com uma série de produtos (games, aplicativos, brinquedos etc.) e respondem a perguntas que revelam sobre suas preferências. Foi por meio deste contato direto que os sócios entenderam que um personagem tem muito mais empatia entre os pequenos quando os pais também demonstram interesse por ele. E, então, a Farofa encarou um de seus maiores desafios, relançar um personagem já conhecido por quem viveu a infância da década de 1980, o Fofão.

Relançar o famoso personagem dos anos 80 foi um dos maiores desafios da Farofa.

Relançar o famoso personagem dos anos 80 foi um dos maiores desafios da Farofa: pais e filhos teriam que gostar.

“Eles têm muito mais prazer de compartilhar essas coisas com quem eles conhecem e se relacionam, os pais”, explica Saulo, que se envolve diretamente com a criação de personagens e material audiovisual. Marco, o “nerd” do grupo (sem conotação pejorativa, eles mesmo ressalta), é dedicado à tecnologia por trás de cada projeto. É ele o responsável por viajar e trazer o que há de mais inovador no exterior para ser testado na Farofa. Foi graças a essa experiência com o que rola lá fora que ele concluiu que a empresa não precisaria focar em um tipo de atuação e, sim, no público:

“O que mais vende a Farofa é a nossa reputação, a reputação dos trabalhos que a gente foi fazendo. Tanto que damos referências de outros clientes, que dizem que a gente entrega mais do que eles esperavam. Não deixamos ninguém à deriva”

A boa reputação — que é, essencialmente, o marketing mais poderoso que uma startup pode desejar — poupou um tempo precioso ao trio, que poderia ter investido na imagem da empresa logo de cara, mas decidiu entregar bons projetos para que eles falassem por si.

Quando ainda era considerada uma “novata” no mercado, a Farofa chegou até a assustar agências de publicidade, que viam a empresa mais como concorrente em potencial do que prestadora de serviço. Foi por isso, lembra Eduardo, que eles decidiram pular a ponte e ir direto conversar com os clientes. Assim surgiu uma abordagem que se mostrou mais eficiente, e fez com que Saulo, Marco e ele pudessem falar de igual para igual com quem vive o mundo infantil. “A gente traz informações muito boas pro cliente, porque ele está no negócio. É um grau de especialização que a gente conseguiu”, afirma Saulo.

O aprendizado, no entanto, não veio sem tropeços. Os sócios admitem que o início da empresa – com investimentos sistemáticos por parte deles e a insegurança característica de um novo negócio sem garantia nenhuma de sucesso – teve seus momentos críticos, mas, como Saulo diz: “Pensar em desistir e voltar a trabalhar em outras empresas era muito pior”.

Ousadia e alegria: o cliente encomendou dois personagens, eles desenvolveram uma família inteira.

Ousadia e alegria: o cliente encomendou dois personagens, eles desenvolveram uma família inteira para o Santos FC.

A própria ideia de montar uma empresa que tinha a criança como foco não era uma tacada certeira e apoio mútuo dos três foi fundamental para que ninguém se deixasse abalar. “A gente era antenado, mas até transformar isso num negócio de verdade, demorou. Depois de três anos podemos dizer que é algo legal e original”, diz Saulo, que faz questão de frisar o quanto se surpreende com o aprendizado pessoal que o empreendedorismo trouxe para ele.

Atualmente, a Farofa tem pelo menos quatro grandes projetos em sua grade. O mais recente é um edital da Prefeitura de São Paulo. “Foi o primeiro edital de games, ele entrou pela Secretaria de Cultura e nós levamos, com outros três contemplados, entre mais de 50 projetos. Vamos desenvolver um game pra ensinar a criança a programar”, conta Marco.

Do frio na barriga à comemoração, do coworking ao escritório onde a palavra de ordem é pirar em ideias inovadoras para crianças, a Farofa parece trilhar um bom caminho. “Dizer que deu certo é uma coisa muito definitiva. Está dando certo. Porque se a gente não tiver essa postura de se envolver com tudo e manter esse espírito de startup, desanda. Mas estamos na direção”, afirma Eduardo. E ele não está brincando.

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