“Fui desafiado a não depender do carro. Hoje economizo tempo e dinheiro me deslocando em apenas uma roda”

Kadu Palhano - 8 nov 2019 Kadu com seu Kingsong, que chega a 50 km/h.
Kadu com seu Kingsong, que chega a 50 km/h.
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por Kadu Palhano

Já faz dez meses que vendemos o carro. A ideia — “de jerico”, pensei à época — foi da Anne, minha mulher. Fui convencido aos poucos. Primeiro, ela me desafiou: “será que você consegue ficar um mês sem tirar o carro da garagem?”. Ri, com certo desprezo. “Então prova!”, ela insistiu. Estendi a mão e lhe entreguei a chave do veículo, como quem diz “pode esconder”. Acostumada a usar o transporte público, Anne tirou de letra o período sabático.

Eu, que há mais de 20 anos via o carro como uma extensão do meu corpo, suei um pouco mais. Literalmente. As ladeiras do bairro onde moramos quase me fizeram desistir

Mas fui forte: no segundo dia, troquei o metrô pelo Uber. E meu gasto com aplicativos cresceu 400%. Por outro lado, zerei as despesas com gasolina e estacionamento. Financeiramente, não sei se compensou. Mas só de aproveitar o trajeto para responder e-mails e adiantar outras tarefas já fez a troca valer a pena.

Anne, no entanto, achou pouco. Queria me ver andando de ônibus, pegando metrô e interagindo mais com São Paulo e seus diferentes modais de transporte. Renovamos o desafio por mais um mês. Já no primeiro dia, quase fui expulso do ônibus. Entrei pela porta de trás, tal e qual fazia nos meus tempos de colégio, no Rio de Janeiro.

O trocador achou que eu não queria pagar a passagem e ainda implicou com meu carioquês: “sou cobrador, mano. CO-BRA-DOR”, disse enfaticamente. Retruquei: “Trocador, cobrador… que diferença faz, meu camarada? Tu é o cara da roleta.” E ele: “CA-TRA-CA”. 

Apesar do trauma, não desisti. Segui me locomovendo pela cidade de ônibus, metrô e Uber, não necessariamente nesta ordem. Em paralelo, testei outros modais.

Como transpiro muito, logo de cara descartei as bikes convencionais. Chegar em bicas nos compromissos profissionais nunca foi uma opção. Menos ainda tomar banho no escritório, como sugeriram alguns amigos. Praticidade zero. Em vez disso, resolvi alugar uma bike elétrica. Nas retas e descidas, o suadouro praticamente cessou.

Nas subidas, entretanto, mesmo anabolizada, a bike exigiu de mim mais esforço do que eu estava disposto a despender. Além disso, achei um saco ter que ficar toda hora procurando lugares para estacionar e acorrentar a geringonça com segurança.

Experimentei ainda os patinetes elétricos compartilhados, das marcas Yellow e Scoo, que se mostraram eficazes para trajetos planos e curtos, mas sem potência suficiente para encarar os ladeirões do meu bairro.

Cheguei ao monociclo elétrico por acaso. Estava de bike, na ciclovia da Paulista, quando um sujeito sobre uma roda passou por mim como uma flecha. Curioso, fui pesquisar sobre o veículo. Gostei do que vi

Mostrei alguns vídeos para a Anne, que topou experimentar: “Acho que não vai rolar. Tem que ter um puta equilíbrio. Mas, ok, vamos tentar”. Mesmo sem saber andar, compramos um mono de entrada, o Ninebot C+. 

Aprender não foi difícil. Também não foi tão fácil. Primeiro, tentamos sozinhos. E tome tombo! Alguns hematomas depois, chegamos à Eletricz, loja que vende monociclos e dá treinamento para iniciantes.

Basicamente funciona assim: a aceleração e a redução de velocidade são controladas no pedal. Para acelerar, basta colocar uma leve pressão na parte da frente. Para reduzir, na parte detrás, apertando o calcanhar sobre o pedal. As curvas normalmente são feitas dobrando um dos joelhos e movimentando sutilmente os ombros. Precisei de três aulas para conseguir me equilibrar sobre a roda. Mas sou desengonçado. A maioria aprende mais rápido. 

Desde então, não tiramos mais o mono dos pés. O carro ficou encostado na garagem por um tempo até que o vendemos. Compramos outros dois monociclos, mais potentes e com mais autonomia. Nossas habilidades foram evoluindo gradativamente. Hoje, andar de monociclo se tornou algo tão natural quanto dirigir ou caminhar. Só que mais prazeroso. 

Uma das principais vantagens do mono é que ele é, ao mesmo tempo, potente e portátil. Entra no elevador, no metrô, no cinema, em restaurantes, cabe debaixo da mesa do escritório e, pasmem, sobe ladeira melhor que muito automóvel. 

Quando troquei o carro pelo monociclo, em uma tacada só, me livrei dos engarrafamentos, estacionamentos, postos de gasolina e das famigeradas multas, que recebia a granel todo mês

Além disso, passei a ter um estilo de vida mais leve e sustentável, aproveitando o mono não apenas como solução de mobilidade, mas também como uma opção de lazer. 

Nos feriados e fins de semana, Anne e eu nos divertimos em trilhas, viagens e passeios ao ar livre. Cada um na sua roda. Nos dias úteis, economizo tempo e dinheiro. Moro perto da Paulista e trabalho em Pinheiros. Vou e volto diariamente de monociclo. São sete quilômetros para ir, outros sete para voltar. Em média, faço cada perna em 20 minutos – bem mais rápido do que de carro. Ando por ciclovias, calçadas e avenidas. Sempre com muito cuidado e respeitando os pedestres, ciclistas e motoristas que encontro pelo caminho. 

Engana-se, entretanto, quem pensa que, por conta do monociclo, abandonei os outros modais. Pelo contrário: uso-os de modo mais integrado. Vou de mono até o metrô e sigo de lá para qualquer lugar mais distante da cidade. Também não abdiquei totalmente do carro, nem virei um ativista antiautomóvel

Pego Uber pelo menos uma vez por semana — quando chove, tomo cerveja ou, simplesmente, não estou a fim de andar de monociclo — e continuo devidamente habilitado e gostando de dirigir. Só não vejo mais sentido ter um carro próprio. Alugo sempre que preciso: escolho o modelo que desejo, pago pelo tempo que uso. 

Quando comecei a andar de monociclo, vários amigos me censuraram. Outros tantos fizeram troça: “não dou dois meses para você largar este pogobol eletrônico e comprar outro carro”, me disse um em tom de deboche

Hoje, vendo a diferença que o veículo fez na minha vida, muitos já deram o braço a torcer. Um deles, inclusive, comprou seu próprio pogobol (chupa, malandro!). 

Nos encontros da galera, sou bombardeado de perguntas de toda sorte. Querem saber se foi difícil aprender — tanto quanto andar de bicicleta; se eu já me machuquei sério — não; o tempo que levei para conseguir me equilibrar pela primeira vez — cerca de duas horas e meia; a autonomia do veículo — varia de 20 a 140 km, dependendo do equipamento; a velocidade máxima — também depende do modelo e da marca — e o preço. Há para todos os bolsos, gostos e necessidades. 

O monociclo também é usado por Kadu e Anne em trilhas para lazer.

O Ninebot C+, por exemplo, nosso primeiro equipamento, saiu por R$ 2.400, no Mercado Livre, sem assistência técnica ou garantia. Atinge 20 km/h e possui autonomia de 20 km, especificações que logo se mostraram insuficientes para nossas necessidades.

O Inmotion V8, nosso segundo monociclo, que hoje está com a Anne, custa na faixa de R$ 6.000, chega a 30 km/h e tem autonomia para 35/40km. São especificações bem mais parrudas e que dão conta com louvor das principais necessidades de quem busca maior mobilidade urbana.

Já o Kingsong 18L, meu monociclo atual, é referência em performance e estabilidade. Chega a incríveis 50 km/h, possui 95km de autonomia e custa a bagatela de R$ 12.000. Ambos compramos na Eletricz, com garantia e assistência técnica de qualidade. 

Nas ruas e nas redes sociais, também chamo atenção. Volta e meia, sou alvo de piadinhas e brincadeiras. Só dou risada. Já fui chamado de “equilibrista de araque”, “careca do disco voador” e “hipster em crise da meia idade”, o que, vá lá, não está muito longe da realidade. “Casado é fácil, quero ver levar a cremosa para passear nessa rodinha aí”, escreveu um leitor nos comentários de um post do Facebook. Em um vídeo, publicado semanas atrás, sobrou até para a Anne: “Parecem o Debby e o Loyd quando trocaram o furgão pela motinho”.

A maioria das pessoas, entretanto, se aproxima por curiosidade, para saber mais sobre o desempenho e as funcionalidades do equipamento.

Procuro orientar todo mundo. Primeiro, porque gosto de bater papo. Depois, porque o monociclo de fato fez diferença no meu dia a dia

Então, se de alguma forma eu puder contribuir para melhorar a qualidade de vida de outras pessoas — como você, caro leitor, que chegou até o fim deste textão  —, será um prazer.
Conte comigo! 

 

Kadu Palhano, 46 anos, é jornalista e sócio-fundador da Pyxys, agência de inovação digital com foco em performance, conteúdo, tecnologia. Carioca, mora há 18 anos em São Paulo.

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