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Morar na roça deixou de ser apenas um ideal romântico para se tornar o plano concreto de muitos brasileiros. Enquanto nas grandes cidades o cotidiano é marcado pelo custo de vida elevado, pelo trânsito exaustivo e pela falta de espaço, o campo surge como alternativa de qualidade de vida, contato com a natureza e rotinas menos aceleradas.
Conhecido como neorruralismo, o movimento de mudança dos centros urbanos para áreas rurais inverte a lógica histórica do êxodo rural e tem ganhado força entre pessoas que conseguem trabalhar de forma remota ou decidem apostar em atividades ligadas à terra e à economia local.
O jornalista especializado em turismo Adrian Alexandri, 60, fez esse caminho no fim de 2019, quando deixou a capital paulista para viver em Gonçalves, no sul de Minas Gerais.
“Essa mudança, para mim, fala sobre envelhecimento e, portanto, pela busca de mais qualidade de vida”
Na cidade de menos de 5 mil habitantes, movimentada pelo turismo, ele criou o Mantiqueirias, um clube de histórias e produtos artesanais da Serra da Mantiqueira, que também promove vivências na região.
Natural de São Leopoldo (RS), Adrian viveu em Porto Alegre, onde se formou em comunicação pela UFRGS e, no fim dos anos 1980, veio para São Paulo: “No Sul, ou você trabalha no Grupo RBS ou você trabalha no Grupo RBS, então resolvi me mudar.”
Na capital paulista, atuou por uma década como roteirista e produtor do programa do Jô Soares, no SBT. Depois migrou para a comunicação corporativa, especializando-se em turismo, passando por órgãos como a Anhembi Turismo (hoje, SpTuris), Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo), Braztoa (Associação Brasileiras das Operadoras de Turismo) e Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas).
Em 2015, na mesma época em que ingressou no mestrado profissional em produção jornalística na ESPM, passou a viajar com mais frequência para Gonçalves.
“Conheci a cidade em 2014 e já fiquei com vontade de ter uma casa aqui. Eu morava em apartamento e foi a primeira vez que meu cachorro, o Zago, pisou na grama”
O jornalista comprou uma casa no município em 2019 e, no embalo, transformou o projeto final do curso em um site de notícias para a cidade, que até então tinha apenas uma rádio local. O envolvimento com a comunidade e o potencial turístico consolidaram enfim a mudança.
A ideia inicial era passar quatro dias na Serra da Mantiqueira e três em São Paulo. Mas as coisas foram mudando com o surgimento do coronavírus…
O Mantiqueirias nasceu na pandemia. Trabalhando em modelo híbrido, Adrian pensava em novos caminhos durante o isolamento social, quando uma amiga sugeriu que criasse um clube de assinaturas com produtos locais. Ele decidiu testar a ideia.
“Como jornalista, organizei muitas press trips, então meu foco sempre esteve em contar a história das pessoas e os processos por trás dos produtos”
Depois de estudar a viabilidade do negócio ainda em maio de 2020, lançou o site em agosto e enviou a primeira caixa em novembro.
Desde aquela época, todo mês, os assinantes recebem de cinco a seis itens — como azeites, cachaças, cafés, cervejas, doces, massas, queijos — acompanhados de uma cartinha sobre o processo de seleção.
Eles também podem acessar informações complementares no site e, nas redes sociais do clube, encontrar vídeos com os produtores falando sobre suas criações.
Sobre a curadoria, o jornalista detalha como faz a seleção:
“São produtos de pequenos produtores, sem nenhum tipo de conservantes, feitos em pequena escala e que não tenham nada industrializado”
A caixa de março, por exemplo, será composta apenas por itens de produtoras, para celebrar o Mês das Mulheres e contém: uma peça de queijo de casca florida e uma de queijo Minas, ambas de dona Armanda e do marido, proprietários do Capril das Araucárias, em Córrego do Bom Jesus (MG); um vidro de azeite ao cumaru e outro de pesto al limone de Fernanda, d’A Senhora das Especiarias, de Gonçalves; e uma lata de doce de leite com café e um pacote de talharim da Fazenda São Pedro, propriedade em Machado (MG) gerenciada por Daniele e sua família.
“Muitos desses produtores são pessoas jovens, que vêm para cá ou porque a família era daqui ou porque se encantaram pela cidade. Mas chegam com outra percepção sobre plantar e produzir, muito preocupados com a sustentabilidade e com a regeneração do solo dos rios”
Desde o início do negócio, cerca de 250 produtores já participaram do clube. Adrian visita as propriedades pessoalmente para selecionar os itens.
Por questões logísticas, as entregas ficam restritas a cidades de São Paulo e Minas Gerais, onde o Sedex chega em até dois dias. Hoje, a maioria dos assinantes está concentrada em cidades do interior desses dois estados.

A caixa de março do Mantiqueirias terá apenas itens produzidos por mulheres.
O Mantiqueirias também atende o mercado B2B, com encomendas de caixas por empresas que querem presentear funcionários ou clientes. Adrian cita como exemplo uma encomenda que recebeu em dezembro passado da AES Brasil (agora, Auren Energia), em que entregou 250 caixas, mas diz que esse tipo de pedido corporativo é bem mais pontual.
Atualmente, o clube de assinatura custa 280 reais por mês no plano anual ou 290 reais mensais no semestral – em ambos os casos o frete está incluso. Interessados também podem fazer um pedido avulso a 290 reais.
Além das caixas mensais, o Mantiqueirias abriu novos caminhos. Ao percorrer a Serra da Mantiqueira em busca de produtores, Adrian percebeu que o interesse do público ia além da compra: havia um desejo de conhecer a origem dos alimentos, as histórias e o modo de fazer.
Em 2021, a convite do Festival de Gastronomia e Cultura da Roça, em Gonçalves, ele assumiu a curadoria de um mercado de pequenos produtores. A iniciativa cresceu e virou o Mercado Modo de Fazer, feira anual que reúne cerca de 80 produtores de mais de 20 cidades da Mantiqueira, com foco em alimentos artesanais. A edição de 2026 acontecerá em julho.
O jornalista conta que esse tipo de evento atrai consumidores cada vez mais interessados no artesanal. A memória da própria infância ajuda a explicar essa lógica:
“Quando eu era criança, minha mãe trabalhava fora e na nossa casa uma coisa muito comum era abacaxi em lata, figo em lata. Depois fui entender que isso é um reflexo da Segunda Guerra, porque com a industrialização começam a criar uma série de produtos enlatados”
Se antes a praticidade vinha da lata e do industrializado, hoje o movimento é inverso: as pessoas valorizam as origens e é isso que os produtos do festival entregam.
Dessa lógica nasceu outro braço do negócio: experiências presenciais na Serra da Mantiqueira para grupos de até 12 pessoas.
O roteiro de quatro dias propõe de visitas a hortas e cafezais a caminhadas e degustações. Depois de testar o formato com influenciadores no ano passado, Adrian preparou uma imersão prevista para acontecer entre 19 a 22 de março.
A experiência contará, entre outras atividades, com oficina de torra de cafés especiais com o mestre Agnaldo Pedra, da Bendita Torra, degustação e harmonização de queijos e vinhos da Vinícola Artesã e do Sauá Queijos e visita à Casa dos Cogumelos, para entender o cultivo, com direito a um passeio pela mata para identificar espécies e almoço usando os fungos.
O custo da vivência varia de acordo com a pousada escolhida, mas fica na faixa de 2 580 a 3 600 reais.
“Hoje eu sou um operador, no sentido de conseguir identificar os serviços, os fornecedores e formatar uma experiência, mas não sou bom vendedor, então estou em contato com agências e operadoras de turismo para tentar desenhar um modelo e escalar essa proposta”
Adrian ainda trabalha como jornalista e, no paralelo, toca o clube de assinaturas, mas se o projeto das vivências ganhar escala e periodicidade mensal, sua ideia é dedicar-se apenas ao negócio. E, claro, continuar contando boas histórias: a dos produtores e das delícias de sua amada Mantiqueira.
Ao recomeçar a vida no sítio de sua infância, Rodrigo Veraldi Ismael decidiu plantar frutas vermelhas. Hoje cultiva ainda outros ingredientes e absorve a produção no Entre Vilas, restaurante com menu sazonal e vinícola.
Fugindo da correria urbana, o francês Jean François Daniel se fixou na serra paulista e abriu a microchocolateria Uma Doce Revolução. Só não imaginava o dilema de conciliar a gestão do negócio e o modo de vida que escolheu.
A mineira Rafaela Gontijo vivia no Rio e sofria para encontrar um pão de queijo realmente bom. Decidiu largar a vida corporativa e empreendeu a NUU, que produz o quitute (e outros salgados) respeitando o meio ambiente.
