Ser pequeno dá um trabalho danado. Conheça os desafios da chocolateria Uma Doce Revolução para se manter micro

Maisa Infante - 11 jan 2022
Jean François Daniel, fundador da microchocolateria Uma Doce Revolução.
Maisa Infante - 11 jan 2022
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Com apenas 6 mil moradores fixos, a pequena e turística Santo Antônio do Pinhal, na Serra da Mantiqueira paulista, esconde desde 2015 a microchocolateria Uma Doce Revolução

Foi naquele ano que o proprietário, o francês Jean François Daniel, se mudou de vez para a cidade serrana, antecipando um movimento (o de fixar residência em um destino bucólico, longe da correria urbana) que viria a se intensificar anos depois, com a pandemia.

Essa atmosfera pacata combina com a proposta do negócio. Jean e seus quatro funcionários fabricam somente cerca de 1 500 barras de chocolate por mês. O cacau vem de uma cooperativa de Ilhéus, no Sul da Bahia, e é plantado por pequenos produtores por meio do manejo agroflorestal. 

Para Jean, 39, esse é um tamanho que atende as necessidades do negócio e do cliente:

“Produzimos o suficiente para atender um cliente muito específico, que procura essa qualidade, e às nossas necessidades como seres humanos em um mundo capitalista. Isso é importante porque vejo muitos projetos pequenos que não conseguem se bancar e acabam morrendo no caminho…”

Falando sobre “necessidades de um mundo capitalista”, o faturamento em 2020 foi de 230 mil reais, o mesmo de 2019, porém com uma margem de lucro maior, segundo Jean. A expectativa era fechar 2021 faturando 360 mil reais.

ELE ABRIU MÃO DO PRIMEIRO NEGÓCIO QUANDO OS INVESTIDORES INSISTIRAM EM ESCALAR A PRODUÇÃO

Quando tinha 25 anos e ainda vivia na França, Jean embarcou num longo mochilão, passando pelo Oriente, passando por Rússia, Mongólia, China, Japão, Coreia, Indonésia e Índia. 

Voltou ao seu país com a vontade de ter um negócio equilibrando sustentabilidade econômica e social. Desse desejo surgiu, em 2008, a Fair Spirits, empresa focada no comércio solidário de bebidas que trabalha com comunidades de agricultores em regiões mais necessitadas.

Alguns dos chocolates da Uma Doce Revolução: apenas 1 500 barras por mês.

Jean diz que deixou o negócio cinco anos depois, em 2013, por divergências com investidores que insistiam em um volume alto e rápido de produção e vendas – objetivos desalinhados com a proposta de origem. 

Ele veio, então, passar um período sabático no Brasil. Conheceu a Amazônia, onde ficou alguns meses em comunidades ribeirinhas. Conheceu, também, sua (hoje ex-)companheira. Juntos, decidiram morar em Santo Antônio do Pinhal, onde montaram a microchocolateria com um investimento de 40 mil reais.  

“[Santo Antônio do Pinhal] foi um lugar curativo de abrir novos negócios e fazer de um jeito que eu acredito ser mais sustentável”, diz Jean. “Ainda me considero em processo, mas tenho claro que quero estar em lugares de desenvolvimento humano – e a chocolateria é um lugar de desenvolvimento humano.”

PARA GARANTIR A QUALIDADE, MESMO OS PROCESSOS MAIS DEMORADOS SÃO REALIZADOS DE FORMA MANUAL

Para produzir as mil barras de chocolate mensalmente, a Uma Doce Revolução compra cerca de 120 quilos de cacau por mês. Quando a polpa e a manteiga chegam em Santo Antônio do Pinhal, todo o processo de produção é feito artesanalmente. 

Embora tenha máquinas, como uma descascadora e fornos, não se trata de uma linha industrial, já que a lida com esse maquinário é manual. E até processos mais demorados, como a temperagem (quando se fica horas mexendo o chocolate), são feitos de forma artesanal. 

“A integralidade dos processos é manual. E para garantir uma qualidade de experiência máxima ao consumidor é preciso manter esse processo de produção que, felizmente, é limitado”

Dessa forma são produzidas as barras de 80g (Latte 50%, Avelã 64%, Sertão 75%, Sel 75%, Dark Vader 85%, Caramel Fudge e Floresta 70%), que custam 28 reais, cada.

Há ainda a Especial Sertão Sintrópico. Feita com chocolate 75% e nibs de café, em parceria com a Takko (café), Tocaya (torrefação) e Sitio da Travessia (produtor agroecológico), a barra é vendida a 30 reais.

A PANDEMIA EXIGIU UMA MUDANÇA (TEMPORÁRIA) DE FOCO, COM VENDAS DIRECIONADAS AO CONSUMIDOR FINAL

Até março de 2020, a maior parte da produção ia para revendedores, como o Instituto Chão e o Instituto Feira Livre, em São Paulo.

Mas aí, a Covid-19 atingiu o Brasil, obrigando empresas (pequenas e grandes) a se adaptar. Com as lojas fechadas, Jean começou a se dedicar mais às vendas diretas ao consumidor, antes restritas à loja de Santo Antônio do Pinhal. 

Hoje, a Uma Doce Revolução tem uma loja online na plataforma Faz a Feira, lançada em 2020, que funciona como um braço tecnológico de produtores artesanais. Lá, além de vender produtos da marca, ele comercializa itens de parceiros, como azeites, geleias e cafés. 

“Meu business model mudou bastante. Diminuiu pela metade as vendas para revendedores, enquanto as vendas diretas para o consumidor triplicaram assim que comecei a integrar ferramentas como o Faz a Feira”

O ano de 2020, ele conta, “ficou normal’ na planilha. “Fizemos o melhor ano da chocolateria em margem, já que ao desenvolver o negócio direto ao consumidor as pessoas pagam preço de consumidor final.”

Com a reabertura das lojas, a Uma Doce Revolução retomou as vendas para revendedores como Instituto Chão e Instituto Feira Livre. Ganhou também novos parceiros, como a Quitanda, mercado no bairro de Pinheiros, em São Paulo, e até lugares menores, como a marca de comida vegana Jaca-Bô-Ah

CONTRA O “ROMANTISMO DO INSTAGRAM”, ELE ALERTA: MANTER-SE MICRO DÁ UM TRABALHO DANADO

Vender para o cliente final dá trabalho. Para Jean, retomar a trilha do B2B foi e é importante para evitar um descompasso entre a gestão do negócio e o modo de vida que ele escolheu. 

“A gestão do consumidor final demanda bastante tempo e energia, muita conversa, Instagram e WhatsApp. E esse não é o modo de vida que eu procuro pra mim. Por isso voltei com os parceiros e, felizmente, eles cresceram bastante. Tudo que é cooperativa, produtos naturais, pequeno produtor e redes autônomas se fortaleceu” 

Escolher ser micro (e se manter como tal) é uma opção que traz desafios. A demanda crescente por produtos artesanais acaba levando muita gente a querer trabalhar dessa forma. Mas Jean alerta para o risco de uma glamourização desse modo de vida: 

“É uma forma de trabalho que gera expectativa e certo romantismo, favorecido pelo Instagram, mas conheço pessoas que estão mal, sem dinheiro no fim do mês. As pessoas falam que tenho uma ‘vida de paraíso’, mas é difícil. Para chegar nesse tamanho de micro é um trampo, precisa de sistematização.” 

QUANDO UM INCÊNDIO DESTRUIU PARTE DA CHOCOLATERIA, O APOIO DA COMUNIDADE DEU FORÇAS AO EMPREENDEDOR

Jean sempre buscou equilibrar as finanças com o modo de vida e a gestão do negócio de acordo com o momento, justamente para ter sustentabilidade. 

Ele acredita que foi por isso que conseguiu se reerguer rapidamente quando um curto-circuito provocou um incêndio na chocolateira, no começo de 2021. Era domingo, ninguém se machucou, mas houve perdas de matéria-prima e maquinário.

“Eu só continuei porque na segunda-feira, quando cheguei às 8 horas, vi dez pessoas fazendo uma faxina fantástica… Elas estavam lá desde às 6h30 porque sabiam que eu precisava sentir que tinha apoio. Em dois dias, fizemos uma transformação da chocolateria, que ficou de pé”

Jean conta que, já no dia seguinte, comprou uma máquina para recomeçar a produção. 

“No domingo estava com bombeiro e duas semanas depois a gente estava entregando no Instituto Feira Livre e Quitanda… Consegui fazer isso porque estou há seis anos manobrando o negócio de um jeito equilibrado.”

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  • Projeto: Uma Doce Revolução
  • O que faz: Chocolates artesanais
  • Sócio(s): Jean François Daniel
  • Funcionários: 4
  • Sede: Santo Antônio do Pinhal (SP)
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: R$ 40 mil
  • Faturamento: 360 mil (estimativa para 2021)
  • Contato: [email protected]
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