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Em fase de mudanças, Maurício Arruda fala sobre como 2020 mexeu com a forma como vivemos e moramos

Ricardo Alexandre - 28 out 2020 “Casa é onde nos cercamos dos nossos sonhos, memórias e da nossa própria história. E quando a gente muda, a casa muda junto”, diz o ex-apresentador do Decora. (Foto: Ivan Shupikov)
“Casa é onde nos cercamos dos nossos sonhos, memórias e da nossa própria história. E quando a gente muda, a casa muda junto”, diz o ex-apresentador do Decora. (Foto: Ivan Shupikov)
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Não haveria melhor momento para falar com o arquiteto Maurício Arruda sobre transformação e mudança do que agora. Depois de cinco anos, 115 reformas de ambientes em dez temporadas, ele deixa o programa Decora, no GNT para focar em seu escritório de “arquitetura de histórias” e em seus canais no Instagram e Youtube. Foi nesse período que começou sua relação com a Zissou, em um episódio de 2018, quando ele transformou um quarto usando o prático colchão que pode ser transportado pelo cliente e chega enroladinho à vácuo. “Não me vejo mais longe da comunicação”, diz ele. “Mas vou fazer isso a partir de outras plataformas, para conseguir ficar em contato com os clientes do escritório. Vou continuar fazendo o que eu já fazia antes do Decora, e colocar mais energia nisso.”

Mas há mudanças mais profundas acontecendo, claro. A pandemia e o isolamento social obrigaram milhões de brasileiros a refletir sobre o modo como temos vivido, nos relacionado, e como tudo isso se reflete em nossas casas, em nossos equipamentos e nossa mobília. Maurício aproveitou, ele próprio, o isolamento para projetar seu quarto e conversou conosco sobre como ele enxerga o futuro próximo.

 

Muita gente, de diversas áreas, tem falado a respeito das reflexões geradas pela pandemia. Imagino que, dentro da nossa casa, houvesse muitos vícios disfarçados pela correria do dia-a-dia que o isolamento trouxe à tona, não é?
Acho que o nosso jeito de morar está passando por uma das maiores transformações que vivemos desde a época em que trouxemos o computador portátil pra dentro de casa. É claro que, acima de qualquer transformação, existe uma questão emergencial que é o planeta avisando que está sofrendo uma espécie de “burnout”, que tem algo de errado com ele. Todo mundo sabia que estava consumindo demais, gerando lixo demais, impactando demais o ambiente, passando pouco tempo com os filhos, abrindo mão da nossa alimentação, da nossa saúde, do nosso sono. A pandemia colocou um holofote nisso e nos obrigou a prestar mais atenção a diversas coisas que já sabíamos que estavam acontecendo. Nesse sentido, ela não trouxe novidades, mas exigiu atenção.

E quando a gente muda, a casa muda junto – porque as mudanças dentro de casa sempre refletem nossas mudanças em relação à forma como consumimos, como trabalhamos, como nos relacionamos, como nos alimentamos, à tecnologia que temos disponível. E não há volta, porque a história só avança. Tudo está em constante transformação, sempre.

E como será que essas transformações vão se materializar na nossa casa?
Nós temos hábitos novos de consumo que mudam a forma como compramos, como escolhemos, o que levamos pra nossa casa. Qual minha prioridade? Há dois anos, talvez minha prioridade fosse ter uma casa bonita para mostrar para meus amigos, mas hoje talvez seja ter um lugar melhor para eu passar mais tempo com minha família, pra eu cozinhar e também trabalhar. Por exemplo: uma boa cadeira de escritório para trabalhar em casa nunca foi prioridade, mas agora isso mudou. Eu recebi há alguns dias uma cliente que pediu um mini-home-office no quarto porque o marido já trabalhava na sala. São questões completamente novas. Nós temos novos hábitos de alimentação que vão impactar nas novas cozinhas. Em 2020 passamos a fazer as três refeições dentro de casa. Essa demanda vai fazer com que os eletrodomésticos inteligentes fiquem mais baratos, as coisas fiquem melhores pra gente poder cozinhar. Existe um resgate gigantesco do hábito de cozinhar, existe a valorização da reciclagem, da compostagem. Os hábitos de higiene também estão sendo mais valorizados – por exemplo, as sapateiras precisam ficar na lavanderia, e não no quarto, o hall de entrada e todas essas zonas de intersecção estão sendo revalorizados. E existe também a transformação da nossa relação com a natureza – de como é importante trazer a natureza para dentro de casa, de como é importante perceber a insolação dentro de casa para posicionar um sofá ou uma poltrona. Filtragem do ar, biofilia… São assuntos que nos reconectam com a natureza, com o tempo real das coisas, assim como ter um cachorro ou assar pão de fermentação natural. Tudo isso nos traz uma percepção mais real da vida, menos “instagram”.

A relação de Maurício com a Zissou começou em 2018, em um episódio do Decora, programa que apresentou no GNT por cinco anos, e chegou até ao quarto novo do arquiteto, em sua própria casa. (Foto: Reprodução)

E sobre tendências do mercado imobiliário? Será que, depois de passar cinco meses dentro de casa, alguém vai continuar achando razoável morar em um studio de 18 metros quadrados?
Bem, tem uma pegadinha nesse raciocínio que é a seguinte: Não, não é OK levar uma vida na qual a nossa casa seja apenas um local para dormir, mas também não é OK passar cinco meses dentro de uma casa. Nós estamos numa situação muito pontual, temporária, que requer muito esforço. Os apartamentos não vão aumentar de tamanho por conta da pandemia, o mercado imobiliário não vai retroceder neste ponto. O raciocínio em torno dos chamados extra-small-livings é que eles funcionam casados com espaços e serviços. E isso é muito mais sustentável, muito mais moderno e também mais justo para os grandes centros urbanos, onde há uma toda infraestrutura disponível, do que continuar levando as pessoas para cada vez mais longe. A gente impacta menos, polui menos, consome menos. No fundo, qualidade de habitação tem menos a ver com o tamanho do imóvel do que com o aproveitamento inteligente dele. Eu costumo dizer que a ótica correta não é a do metro quadrado, é a do metro cúbico. É preciso pensar tridimensionalmente. Talvez esse seja um empurrão necessário para que as pessoas voltem a ter em casa uma furadeira, uma parafusadeira, voltem a instalar coisas, criem coragem para montar móveis e usem seus metros cúbicos de forma mais inteligente. Para morar em pequenos espaços é preciso pensar tridimensionalmente.

E quanto ao quarto? É provavelmente o ambiente mais íntimo da casa. O quanto ele revela sobre nosso jeito insalubre com que temos vivido?
O quarto é um lugar de reconexão, de a gente se reenergizar, recarregar as baterias. O que fazemos antes de dormir tem uma influência direta na qualidade do nosso sono. Ou seja, levar uma vida numa velocidade muito grande impacta na nosso entendimento sobre o quarto e a qualidade do sono. Então me parece que o que está acontecendo hoje é que as pessoas estão tentando resgatar esse significado do quarto como o ambiente mais confortável, relaxante, da casa. E isso nos leva a duas coisas: primeiro, a materiais que estimulam nossos sentidos. Texturas, cores, cheiros, a escolha dos tecidos. A ideia é criar um quarto mais disruptivo em relação a esse ritmo de alta velocidade, tecnologia veloz, conexões, que a gente tem dentro de casa e prestar mais atenção à importância que essas coisas têm. Eu mudei minha casa inteira durante a quarentena – o quarto inclusive, com um colchão Zissou – porque eu senti que ele era um ambiente meio relegado da casa, sem muita informação mas sem um projeto para ele. Eu trabalhei nisso: troquei o colchão, troquei a roupa de cama, pintei as paredes, lavei as cortinas para transformar o quarto em um lugar mais interessante. Tudo isso tem a ver com os materiais. Mas tem uma segunda coisa, das mais importantes quando a gente fala de conforto, que são as memórias. Porque todo mundo quer uma casa confortável, mas conforto é algo muito subjetivo. Mas o jeito mais fácil de definir “conforto”, pra todo mundo, são as nossas melhores memórias, algo que independe do que está à nossa volta. As lembranças das nossas melhores experiências: o cheiro do café que sua avó passava, o bolo que você comia na infância, as mãos do seu avô fazendo carinho, enfim, são essas memórias que precisam estar presentes dentro desse ambiente que chamamos de casa.

Porque “casa” é onde nos cercamos desses sonhos, dessas memórias, da nossa própria história, do que a gente foi, do que a gente é e do que a gente quer ser – porque é assim que a gente pode ser a gente mesmo. “Essa casa é a minha cara”, sabe? Não é só o sofá ou o porcelanato. É você.

Então acho que o quarto, mais do que nunca, é esse lugar um pouco sagrado onde a gente precisa trabalhar esses dois elementos da decoração.

Você usou a palavra “sagrado”, e me lembrou de uma corrente que enxerga o quarto como um ambiente à parte da casa. Por exemplo: crianças não entram no quarto dos adultos, televisão não entra no quarto ou, a discussão atual, ninguém usa celular na cama. Você tem desses pudores?
Eu… tenho (risos). Mas acho que é uma coisa muito subjetiva, que tem mais a ver com o uso que você faz das coisas do que com o que levar ou não para o quarto. Deixar o celular fora do quarto ajuda, mas algumas pessoas usam aplicativos de ioga e meditação pra ajudar a se desconectar. Mas eu, pessoalmente, prefiro deixar o quarto mais isolado. É onde eu consigo ler, por exemplo. Então tento deixá-lo livre das interferências tecnológicas.

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