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Se você utiliza aplicativos de navegação para se guiar, sabe a importância que um sistema como esse tem no dia a dia para as tarefas mais básicas, como chegar a um endereço em uma região desconhecida. “O ‘GPS’ é uma tecnologia invisível: você só percebe o quanto precisa dela quando perde o sinal”, diz Osorio Coelho, Diretor de Departamento de Programas de Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Ele está entre os articuladores de um Sistema Nacional de Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT), projeto que busca reduzir vulnerabilidades, fortalecer a soberania tecnológica e apoiar setores estratégicos da economia. Hoje, o Brasil depende de sistemas de geolocalização e sincronização do tempo estrangeiros, especialmente do GPS (Global Positioning System), controlado pelo governo dos Estados Unidos.
Popularmente apelidada de “GPS brasileiro”, a iniciativa ganhou força há cerca de um ano, quando um grupo de trabalho interministerial, com 14 órgãos civis, militares e industriais, passou a mapear capacidades e vulnerabilidades do país nesta área.
O relatório desta etapa foi entregue no fim de julho de 2026 ao Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro (CDPEB). Para o articulador do projeto, existe ainda muito desconhecimento sobre o tema e as vulnerabilidades a que todos ficam expostos sem um sistema próprio.
“É importante conseguirmos comunicar que vemos o PNT como uma infraestrutura crítica, assim como são estradas ou hospitais”
Um segundo grupo de trabalho foi criado e deve começar a atuar, a partir desta semana, em reuniões quinzenais pelos próximos 180 dias, com foco em tecnologias específicas, governança e financiamento.
A seguir, em entrevista ao Draft, Osorio explica como essa agenda do PNT surgiu, quais os riscos da dependência de sistemas estrangeiros e como o projeto nacional está caminhando:
Essa agenda surgiu a partir de uma reunião, no final de 2024, no gabinete da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação [Luciana Santos], com a apresentação de um trabalho feito pelo CGEE, que é nosso Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, sobre algumas tecnologias que poderiam eventualmente se desdobrar no PNT.
Em outras reuniões, a gente discutiu que, por questões geopolíticas, existia uma dependência de sistemas que não são do Brasil, como o GPS americano. Ele não é o único global, tem também o BeiDou, que é chinês; o GLONASS, russo; e o Galileo, europeu.
Havia, então, essa percepção de vulnerabilidade pela dependência, mas acima de tudo a ideia de que a gente precisava ter soberania tecnológica. Soberania nacional é algo sobre o qual o presidente Lula sempre fala e passa pela soberania tecnológica
A ministra se interessou e falou para irmos em frente. Eu represento a SETEC, que é a Secretaria de de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, e ela me indicou como ponto focal dessa iniciativa. Decidimos criar um grupo de trabalho para entender nossas capacidades, vulnerabilidades, dentre outras questões, para a eventual implementação do que se tornou uma das agendas mais importantes do ministério. Hoje, essa iniciativa é liderada pelo secretário da SETEC, Daniel Almeida Filho.
Eu diria que soberania tecnológica é fazer escolhas. Não tem como, em termos de desenvolvimento tecnológico, o Brasil tentar produzir tudo aqui. A questão é fazermos escolhas das potencialidades que temos e desenvolver essa cadeia.
Isso envolve não somente uma questão de pesquisa básica, mas ter um ecossistema de inovação funcionando de forma sinérgica, com o governo como agente de estabilidade, dando as condições para que esses atores de inovação, sejam eles do setor acadêmico ou privado, possam interagir de forma eficiente, e colocando os mecanismos adequados para isso, com segurança jurídica e financiamento.
A soberania tecnológica passou também a ser uma questão geopolítica, entendendo o que está acontecendo no mundo em termos de cadeias globais de valor – em grandes guarda-chuvas como minerais críticos, transição energética e IA, por exemplo – e endereçando essas responsabilidades para o nosso ecossistema de inovação. Em resumo, reduzindo vulnerabilidades e aumentando as opções estratégicas do Brasil.
O relatório mostrou que o Brasil fica exposto a uma grande vulnerabilidade se não tiver o próprio sistema.
Um bloqueio de sinal, mesmo por pouco tempo, causaria um impacto enorme em setores como financeiro, agrícola e de mineração de precisão
Também entendemos que com o nosso próprio sistema temos a possibilidade de apoiar a indústria nacional por muito tempo, já que esse é um projeto que deve atingir sua fase mais complexa daqui a 10, 12 anos
Um exemplo bem corriqueiro é o uso do Waze ou Google Maps, que depende do sinal de navegação. Imagina não ter isso hoje em dia… Quem conhece o caminho, consegue se virar facilmente, mas se você chega num lugar desconhecido, é um problema.
No setor financeiro, que opera com precisão de tempo por conta da Bolsa de Valores, essa tecnologia também é fundamental. Sem isso, os impactos podem ser gigantescos.
No grupo de trabalho, foram feitas pesquisas que demonstraram o impacto financeiro no PIB por uma negação de sinal de navegação. Em sete dias, isso chegaria a quase 30 bilhões de reais.
O Brasil tem um estoque de conhecimento, não só de pesquisa básica, mas de instituições, como por exemplo o INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], e um ecossistema de inovação muito robusto.
Então, nós temos, sim, capacidade, a questão é saber se na velocidade que essa tecnologia requer
Por exemplo, hoje o país ainda não domina a tecnologia do relógio atômico, que é um componente fundamental para esses receptores terrestres. No final das contas, vai ser uma questão de entender que talvez um caminho seja cooperar internacionalmente, sempre com transferência de tecnologia.
O desenvolvimento de tecnologias pode levar décadas, então não faz sentido ser algo que dure apenas uma ou duas gestões, porque naturalmente outros governos irão entrar. Somos uma democracia.
O que precisa ficar claro é que os resultados não ocorrem de forma imediata e que existe um processo de tentativa e erro. Então, é preciso revisitar a estratégia adotada ano a ano, justamente porque a tecnologia é algo muito dinâmico
Acredito que o Ministério de Ciência, Inovação e Tecnologia talvez seja um dos mais estratégicos da Esplanada, porque requer continuidade, políticas públicas perenes e previsibilidade orçamentária para que os projetos possam ultrapassar ciclos eleitorais e se mantenham como uma política de Estado e não uma política de governo.
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