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Inspirado pelo neto, ele escreveu uma série de livros para contar às crianças as histórias de quem batalha para preservar a floresta

Dani Rosolen - 15 jul 2026
O autor Ricardo Voltolini com a editora Cláudia Kubrusly e a ilustradora Moara Tupinambá, no dia do lançamento da coleção "Heróis e Heroínas da Floresta".
Dani Rosolen - 15 jul 2026
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Personagens com habilidades fantásticas e uniformes mirabolantes costumam povoar o imaginário infantil. Na coleção “Heróis e Heroínas da Floresta”, no entanto, o maior poder dos protagonistas dos três primeiros livros — Dorothy Stang, Olímpio Guajajara e Marina Silva — não parte da fantasia:

“O poder desses personagens vem do amor profundo que eles têm pela floresta”

Quem diz isso é Ricardo Voltolini, pioneiro em sustentabilidade empresarial no Brasil e autor das obras da coleção ilustradas por Moara Tupinambá e lançadas recentemente pela Vooinho, selo infantil da editora Voo

Escritor com diversas obras com foco em responsabilidade socioambiental, entre elas Vamos falar de ESG e Conversas com líderes sustentáveis, Ricardo recebeu a encomenda de um livro infantil de uma pessoa muito especial.

ELE AINDA ESTAVA NA FACULDADE QUANDO LANÇOU UMA OBRA INFANTIL

Há mais de 40 anos, quando ainda estava na graduação de jornalismo e estudava produção cultural para crianças, Ricardo lançou, de forma ousada, o livro Quem meteu o dedo no bolo do Cuca.

“Escrevi a história em um final de semana, peguei original, coloquei num envelope, liguei para a principal editora infantil na época, a FTD, e falei que queria conversar com o editor, mas ninguém me deu a mínima, óbvio”, lembra.

“Então, fui até a sede, fiquei esperando aparecer um editor e entreguei o material quando ele ainda estava no carro. Um mês depois, me ligaram dizendo que iam publicar o livro”

A trama, de estilo detetive, investiga quem colocou o dedo no bolo do aniversariante. Olhando pra trás, hoje Ricardo faz ressalvas à obra. “É um livro bobíssimo e, da última vez que olhei para ele, vi que tem várias questões que revelam pequenos preconceitos que eram aceitos pela sociedade.”

UM LIVRO PARA O NETO LER ENQUANTO AINDA É CRIANÇA

Diferente da época em que o ímpeto universitário o fez publicar um livro, a coleção da editora Voo foi uma encomenda de ninguém menos que seu neto. 

“Um dia, a minha filha apresentou esse meu primeiro infantil ao Lorenzo, que tem 10 anos, e ele questionou: ‘Por que você não escreve um livro para criança enquanto eu ainda sou criança?”

A provocação coincidiu com uma mudança de ciclo profissional. Ricardo havia acabado de descontinuar a consultoria que tocou por 32 anos para se dedicar a  palestras e mentorias de sustentabilidade e, consequentemente, tinha mais tempo para escrever.

Mas ele não queria falar sobre qualquer tema, afinal passou a vida toda contando histórias de líderes sustentáveis. O foco se manteve o mesmo, mas com o olhar para o público infantil.

“Na perspectiva das crianças, lideranças são os herói e heroínas, a figura aspiracional de alguém que elas querem ser por ter superpoderes ou uma atuação muito relevante”

Então, veio a ideia da coleção sobre super-heróis e heroínas da floresta. “Sempre gostei de histórias de gente real, não queria inventar um personagem nem revisitar o folclore, com o Curupira, Cuca ou a Mãe D’Água, por exemplo.” 

TRÊS SUPER-HERÓIS QUE CATIVAM PELO DIÁLOGO E PELA CORAGEM

A partir daí começou seu processo de seleção de personagens com foco em histórias de vida dedicadas a proteger a floresta. Ele chegou a cerca de dez nomes e começou com três, buscando um texto direto e simples (mas sem ser simplista) que aproximasse as narrativas do cotidiano das crianças e com alguma liberdade ficcional, já que não se trata de biografias.

O livro Dot, a semeadora de florestas conta a trajetória de Dorothy Stang, missionária norte-americana assassinada a tiros em uma estrada de terra no município de Anapu (PA) a mando de fazendeiros locais, em 2005, por defender a floresta e as pessoas que vivem nela.

Apesar de ser uma história impactante, Ricardo amenizou a parte violenta e buscou trazer o universo mágico para a trama, compartilhando como a imagem da missionária se misturou ao imaginário popular brasileiro. 

“No lugar onde Dorothy foi assassinada, em noites de lua cheia, as pessoas ouvem como se uma onça estivesse chorando. E eu resolvi terminar o livro com essa parte”

Em Olímpio, o guardião do planeta, o protagonista é um dos principais líderes e coordenadores dos Guardiões da Floresta, grupo da etnia Guajajara que atua para proteger a Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, de invasores, madeireiros e garimpeiros.

“É uma história com muito testosterona, de um menino que é preparado ancestralmente para ser um Guardião da Floresta”, diz o autor.

“Eu começo o livro com o Olímpio chegando à aldeia depois de um dia de pesca com amigos. E aí ele se lembra que vai tomar uma bronca do pai porque ficou o dia inteiro fora e esqueceu do exercício de arco e flecha”

Já em Marina da Floresta, a vida de Marina Silva ganha as páginas.

“Ela é a mais importante ambientalista do planeta hoje e uma heroína da floresta desde criança”, diz Ricardo.

“O livro traz a história dessa pessoa que aprende com a avó a gostar de palavras. Esse tipo de elemento na narrativa, para mim, é mais importante do que focar nas ações que ela fazia com Chico Mendes no meio da floresta”

O êxito obtido ao transportar essas histórias para o universo infantil vem da linguagem precisa e de um certo tempero lúdico, mas também do trabalho da ilustradora.

“A Moara entendeu o projeto muito rapidamente porque, como ilustradora indígena, tem sensibilidade cultural para entender”, afirma. “Fiquei impactado logo de cara com o uso de aquarela, da técnica de colagem de imagens, dos tons pastéis – tudo isso me agradou profundamente.”

UMA MENSAGEM DE RECONEXÃO COM A NATUREZA

O livro foi lançado primeiramente em São Paulo, mas há a intenção de fazer outros eventos de divulgação com um intuito bem simbólico: “A gente está com planos de lançamentos e doações para bibliotecas e escolas locais nas regiões onde a Marina e a Dorothy viveram e também onde vive o Olímpio”, diz. 

“Entendemos que, mesmo nesses territórios, a tendência é de, com o tempo, as pessoas não falarem mais dessas lideranças… E pretendemos reavivar essa memória”

O autor também quer fazer o livro chegar às mãos de Olímpio e de amigos de Dorothy que vivem no Alto do Xingu (exemplares já foram enviados, mas as questões logísticas ainda são um desafio). Já Marina recebeu o livro sobre sua história e, segundo Ricardo, gostou bastante do resultado.

A conexão do livro com as florestas vai além de seus personagens. Ricardo abriu mão dos direitos autorais da coleção, destinando os recursos ao Amazônia Viva, projeto ligado ao movimrento Economia da Comunhão, com foco em formação de líderes e cuidadores na Amazônia.

Para um futuro não tão distante, o autor planeja outros lançamentos para a coleção e adianta que a maioria das narrativas será de heroínas. Por enquanto, Ricardo está colhendo os retornos das primeiras leituras. O neto, que fez a encomenda, aprovou: 

“No dia do lançamento, o Lorenzo disse que eu não tinha contado que escrevi os livros, aí tive que lembrá-lo que já tinha lido essas histórias para ele num passeio. Ele leu e achou muito legal e minha filha, que é educadora, também” 

Sua expectativa é que as obras funcionem como um convite para que as novas gerações se conectem com a natureza e com a urgência da preservação ambiental:  

A gente perdeu um pouco essa capacidade de se indignar, de entender as feridas da floresta, de quem está lá e de se solidarizar com isso… Mas, parafraseando Ailton Krenak, é a floresta em pé que pode ajudar a adiar o fim do mundo.”

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