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“O sistema financeiro não foi desenhado para incluir — ele foi desenhado para excluir. É um problema de design”

Bruno Leuzinger - 15 jun 2026 O time da Yunus Negócios Sociais (Bárbara é a segunda a partir da esquerda).
O time da Yunus Negócios Sociais (Bárbara é a segunda a partir da esquerda).
Bruno Leuzinger - 15 jun 2026
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“A gente vem de um sistema econômico de construção do privilégio do capital sobre os outros recursos há séculos… E [agora] estamos trazendo um discurso que é contrário a exatamente esse raciocínio.”

A afirmação de Bárbara Ladeia, gerente de inovação socioambiental da Yunus Negócios Sociais, resume a encrenca em que a humanidade se encontra: como romper com a lógica curto-prazista do sistema financeiro e abraçar o paradigma regenerativo — antes que seja tarde demais?

Para encarar esse desafio e impulsionar o compartilhamento de inteligências, a Yunus anunciou a criação do Centro de Inovação em Finanças Socioambientais. O anúncio se deu na segunda quinzena de maio, quando Bárbara e o co-CEO Francisco Vicente subiram ao palco do Impacta Mais 2026 para adiantar a novidade ao público do evento.

Jornalista de origem, Bárbara trabalhou durante anos em redações como Exame, Brasil Econômico e Você S/A, antes de partir para um mestrado em Madri e migrar a carreira para o setor de impacto.

“O ideal é que a economia de impacto em algum momento deixasse de ser necessária porque o impacto está sendo feito em todas as partes”, diz Bárbara, que está há cinco anos na Yunus.

Em entrevista ao Draft, Bárbara fala sobre os “comos” e “porquês” do novo Centro de Inovação em Finanças Socioambientais. Confira:

 

Quando surge esse projeto do Centro de Inovação em Finanças Socioambientais? E que problema vocês identificaram que demandava essa iniciativa?

A gente vem fermentando essa necessidade há algum tempo. O professor Muhammad Yunus vem de um raciocínio de finança, quando cria o microcrédito e o Grameen Bank… Sempre tivemos esse raciocínio de finanças como uma trilha por onde o nosso trem corria.

Temos um fundo de investimentos que a gente opera praticamente desde que a Yunus existe no Brasil. E temos outra parte de consultoria, em que conduzimos projetos de inovação orientada para o impacto social e ambiental em parceria com grandes organizações.

Então, fomos acumulando ao longo de 13 anos uma série de estudos sobre o quanto o sistema financeiro não foi desenhado para incluir —ele foi desenhado para excluir. É um problema de design

A estruturação do sistema financeiro avalia as pessoas pelo que elas não têm, não pelo que elas têm. Avalia negócios pelo que eles não têm, e não pelo que eles têm.

Isso se reflete em uma série de coisas. Por exemplo, naquela afirmação clássica de quem precisa de crédito não consegue. Justamente porque os sistemas de scoring, que estabelecem quem é ou não é um bom pagador, são calcados em patrimônio, histórico de transações, de pagamentos…

O mesmo se repete com os seguros, os planos de saúde, e uma série de produtos e serviços financeiros… E também para os MEIs, os pequenos empreendedores, trabalhando dentro de uma formatação diferente do que é esperado por esses bancos. Cria-se aí um gap, uma lacuna de operação.

A gente veio criando soluções para encaixar nesses gaps ao longo de 13 anos. Fizemos um projeto com o Sicredi para estabelecer um sistema de microcrédito, que hoje está operando bem. Desenhamos um produto de crédito para consultoras do Grupo Boticário. Com a Stone, fomos cocriadores da iniciativa Impulso Stone, de microcrédito orientado ao nanoempreendedor.

Então, a gente consegue enxergar — pela força da experiência, por pesquisas e estudos —, esse abismo entre o sistema financeiro e as populações vulnerabilizadas. E entendemos a necessidade de começar a olhar o desenvolvimento desses produtos não de forma pontual, mas de forma sistêmica

E é daí que nasce essa emergência de fundar o Centro de Inovação em Finanças Socioambientais o quanto antes. Esse estalo veio no comecinho do ano passado.

A Yunus tem um pouco desse papel — as pessoas brincam que a gente é como “a ONU do setor de impacto”, porque estamos sempre trabalhando com muita gente, com vários outros atores ao mesmo tempo.

E entendemos que não era um produto nosso que a gente queria desenvolver. O que a gente queria era criar um centro de compartilhamento de inteligências

Porque não somos só nós, tem muita gente mexendo com isso: outras modelagens de crédito, de scoring, de seguro…

No fim das contas é isso. Enquanto forem ações individuais, temos respostas pontuais. Se a gente trabalha em ecossistema, a gente tem respostas sistêmicas.

O centro existirá enquanto espaço físico? Ou é mais um grupo de trabalho?

A princípio, estamos pensando enquanto grupo de trabalho, porque ainda não temos essa estrutura montada. Estamos chamando os atores, tem alguns mais próximos com quem a gente está conversando e entendendo como a gente se junta, como a gente colabora.

Bárbara Ladeia, gerente de inovação socioambiental da Yunus Negócios Sociais.

Bárbara Ladeia, gerente de inovação socioambiental da Yunus Negócios Sociais.

A Yunus tem um escritório em Pinheiros [zona oeste de São Paulo]; a nossa sede, a princípio, vai ser aqui. Mas é claro que o desejo é ter cada vez mais atores [participando do centro de inovação] para que a gente provoque essa necessidade de um espaço compartilhado.

No momento, estamos mais a fim de começar a criar soluções em conjunto e a botar em esteira de teste. Um laboratório para a gente ganhar tração em cima da execução, antes de dar passos maiores em termos de infraestrutura.

Entendo que vocês pretendem buscar parceiros, inclusive para viabilizar o centro financeiramente. O que você pode contar sobre esse movimento? E em que estágio a operação se encontra hoje?

Estamos numa fase entre o pré e o operacional. Porque já temos muito estudo feito e sendo produzido… Mesmo sem a associação com outras organizações, a gente já está em produção de soluções.

Por exemplo, estamos desenhando um mecanismo de escoragem novo, que considera fatores socioeconômicos, fatores psicométricos, comportamentais, open finance… Enfim, para além do que é o sistema de escoragem convencional dos bancos

Também estamos numa fase de pesquisa de entendimento de seguros, olhando modelagens novas que têm surgido de seguros paramétricos, enfim, outras formatações, para que a gente possa construir versões viáveis deles também.

Vamos precisar de funding para tirar do chão e escalar esses outros atores e botar mais energia em cima disso. Porque até agora todas essas iniciativas são energias que estão no entorno da nossa operação enquanto Yunus.

Mas uma vez que a gente consiga fazer esse primeiro salto, vamos trazer uma equipe específica, full time, dedicada no centro. O desejo é esse

Nosso objetivo é fechar o primeiro grupo de organizações envolvidas o mais tardar em setembro. Estamos fazendo uma ronda, precisamos de parceiros que enxerguem de forma parecida esse paradoxo do sistema financeiro.

Não posso falar quem são ainda, mas estamos conversando com um grande banco público, com organizações privadas, e tentando entender como isso vai se compor.

Ainda não tem nenhum martelo batido, mas são conversas que estão evoluindo bem. E também com universidades — essas conversas estão evoluindo um bocado.

No Impacta Mais, no lançamento [do Centro de Inovação], várias pessoas vieram falar conosco. Desde profissionais autônomos a fim de trabalhar em pesquisa de soluções nesse sentido, até instituições acadêmicas que se viram provocadas pela ideia de gerar inovação com esse tipo de inteligência.

Para não ficar no abstrato: do que estamos falando quando falamos em finanças socioambientais – e em inovação nas finanças socioambientais?

O exercício de tangibilizar isso é parte do nosso desafio. Quando a gente olha para finanças, estamos falando de como o capital se move, trabalha e funciona. A serviço de quem quer que seja – seja do sistema financeiro, das pessoas, da economia.

E a maior parte dos fluxos de capital não funciona a serviço da vida – ou seja, a serviço da manutenção dos sistemas ambientais, dos ecossistemas, da manutenção da prosperidade social coletiva…

É como uma rede de canais, de veias para distribuição ida e volta desse fluxo de capital, mas eles usam a lógica de estar a serviço do próprio capital e da própria economia.

A gente vem estudando [o tema] com o nome de finanças regenerativas, que vem sendo feita e praticada e testada pelo John Fullerton. Bebemos muito dessa fonte.

Quando a gente fala de finanças socioambientais, estamos tentando inverter essa lógica… Como é que eu uso a inteligência que esses fluxos [financeiros] já estabeleceram ao longo dos últimos séculos para inverter a destinação em termos de objetivo?

A gente vê esse movimento há um tempo. Por exemplo, com as classes de ativos novos, orientadas à sustentabilidade, nascendo no mundo dos investimentos. Nossa ideia [na Yunus] não é ficar criando classes de ativos, mas estamos vendo o sistema financeiro começando a observar essa necessidade de olhar para outra direção.

Estamos falando de gerar produtos financeiros, serviços financeiros, mecanismos e infraestruturas financeiras que, em vez de trabalhar em torno da economia tradicional, trabalham em torno da economia de impacto, da economia regenerativa.

Vou dar o exemplo que a gente está desenvolvendo:

Se eu puder pegar os mecanismos de escoragem [scoring] de crédito e construir a tese de que [o beneficiário] não precisa ter patrimônio para ser um bom pagador e que posso usar outros elementos para medir a capacidade de pagamento, eu consigo direcionar um fluxo de crédito disponível para uma população que não tinha acesso

Quando a gente fala [por exemplo] dos trabalhadores da gig economy – o motorista de Uber, o entregador –, eles não têm uma receita recorrente igual, padronizada, e não conseguem acessar crédito em banco com a mesma facilidade que uma pessoa com a carteira assinada…

Então, o que estamos fazendo é pegar o elemento que já existe e retrabalhar para botar a serviço das pessoas e do meio ambiente. Isso é o que a gente está olhando para seguros, isso é o que a gente está olhando na estrutura de banco regenerativo que a gente está desenhando…

E aí não é um mero repaginar — é por isso que a gente chama de inovação.

Não é fazer o capital trabalhar em torno do capital; é fazer o próprio capital trabalhar em torno da regeneração, é um outro objetivo. Estamos virando de cabeça para baixo o sistema e criando outro raciocínio

Dentro dos processos, a gente trabalha num fluxo de inovação tradicional, de pesquisa, afunilamento, desenvolvimento, teste. Enfim, o design thinking clássico.

Pela sua resposta, fiquei na dúvida se o que vocês estão chamando de “finanças socioambientais” seria o mesmo que finanças regenerativas. É isso? Ou não exatamente?

A gente tem as finanças regenerativas como base matriz. Apesar de que esse nome não é de fácil compreensão; quando a gente fala de [finanças] “socioambientais”, as pessoas entendem com mais clareza.

Mas também estamos abertos a entender outras formatações, até porque existem muitas formas de se fazer finanças, de se fazer economia de jeitos distintos.

A gente olha, por exemplo, para a economia solidária, para os conceitos de circuitos econômicos do Milton Santos… Temos outras referências, especialmente porque esses outros olhares são muito mais estruturados do ponto de vista de desenvolvimento territorial — que é algo que a gente olha muito também.

Se as finanças precisam estar a serviço da vida, eu preciso estar olhando as finanças como mecanismos de estruturação sócio-territorial, para que as pessoas daquele grupo prosperem, preservem e sejam capazes de lidar com aquele ecossistema de uma forma completa

E aí, quando olho para outras construções como dos circuitos econômicos, como da economia solidária, elas às vezes são muito mais complementares a essa necessidade do que o próprio conceito de finanças regenerativas em si.

Pensando no ecossistema de impacto, qual é o principal gargalo que vocês enxergam hoje? Falta de capital, falta de inteligência financeira?

Olha, capital não falta, não. A questão é que esse capital vem fragmentado e tem desafios de medição, tem desafios de canalização, de distribuição, tem desafios de tese… E aí, eu volto ao problema inicial.

Tem um desafio de tese na distribuição dos investimentos de impacto. Por quê? Porque as normativas que são cobradas pelos fundos refletem o sistema financeiro, que é excludente do ponto de partida

Então, como ele trabalha em cima de uma base que tem uma lógica de capital e não uma lógica de regeneração, a demanda dele para escoamento desses investimentos também responde a essa necessidade.

A gente vê uma fragmentação nesse sentido. Os volumes [de investimento] não são pequenos, mas ainda são concentrados: todo o olhar de inovação vai durante um tempo para “descarbonização”, daqui a pouco vai todo mundo para “água”, daqui a pouco vai todo mundo para…

Esse é um gargalo. Os investimentos vão direcionados com foco em pontos isolados, então eles têm maior dificuldade de provocar impactos estruturais, uma vez que não estão olhando estruturalmente

E claro, se a gente for falar dos negócios de impacto em si [e não dos investimentos], aí sim, com certeza faltam canais, falta distribuição, falta volume, falta até conhecimento de causa também.

Queremos ajudar a furar a bolha [do setor] e fazer ficar claro o entendimento de que o negócio de impacto é um negócio — ele vai operar como um negócio, só que a serviço da coletividade, o que requer estruturas diferentes das que a gente tem hoje.

Considerando o contexto de juros altos e pressão por curto prazo, como convencer o mercado a financiar essas soluções socioambientais?

Ah, se você souber, me conta (risos)… Temos algumas ideias e experimentações, mas de tudo que a gente ouviu recentemente, estamos num momento paradigmático da humanidade.

A gente já vê hoje relatórios e dados e informações que vêm de organismos supranacionais nos mostrando esses riscos.

Por exemplo: saiu uma pesquisa — acho que no Fórum de Davos no ano passado —, falando que cerca de 80% das quebras de cadeias de valor que acontecem com empresas em todo o mundo estão associadas a questões sociais, a dificuldades de pessoas de chegarem nos lugares para trabalhar, porque [teve] enchente, seca…

Ou seja, a gente já está vendo a má gestão desses recursos impactando nos negócios. Já vemos, por exemplo, um setor de seguros muito pressionado pela pauta climática.

A quantidade de sinistros que vão precisar ser pagos dentro de um horizonte próximo, se a gente não conseguir conter minimamente — porque impedir as mudanças climáticas é inviável — e não começar a olhar para isso com um olhar de regeneração, mais cedo ou mais tarde, todo mundo quebra…

E aí é claro que [com] juros altos hoje a gente sabe que está disputando o curto prazo versus o longo prazo. A questão é que esse “longo prazo” está muito perto, já estamos vendo quebras nas cadeias [de valor], empresas buscando resiliência porque estão tendo dificuldade de manejar…. Elementos do sistema financeiro pressionados por questões ambientais.

Não é mais uma questão de ponto de vista. É uma questão de realidade que está sendo imposta e pressionando a todos — sociedade civil, empresas, sistema financeiro…

A nossa tentativa [na Yunus] é colaborar para essa reforma do paradigma econômico. Para que a prioridade seja a manutenção da vida na Terra.

 

 

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