Jornalismo e música já eram. Então viva a música e o jornalismo! Eis a receita de Lúcio Ribeiro, da Popload

Thiago Guimarães - 2 abr 2015Lúcio Ribeiro, da Popload: jornalismo, música, eventos e produção de projetos para marcas.
Lúcio Ribeiro, da Popload: jornalismo, música, eventos e produção de projetos para marcas.
Thiago Guimarães - 2 abr 2015
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A música acabou. O jornalismo acabou. Ninguém mais paga por notícias nem CDs. Todo mundo se informa e baixa discos pela internet. Nessa praia só fatura quem já é famoso. Na contramão da lamentação inevitável que dominou essas áreas, Lúcio Ribeiro mostra que dá, sim, para viver de jornalismo e de música — e outras cositas más para inovar.

No caso do Lúcio, a âncora do trabalho é a Popload, uma página que desde 2001 descobre novas tendências na música gringa e virou referência na cena da cultura indie no país. Hoje o site é o alicerce, mas o cardápio inclui produção de shows, sociedade em casas noturnas de São Paulo, discotecagem pelo país e até a boa e velha edição de revistas de papel.

Para entender a travessia impresso-digital que marca esse caminho, vale voltar a 2006. De passagem por Los Angeles, o então colunista de música da Folha de S.Paulo recebeu uma ligação do jornal: o guitarrista do Red Hot Chili Peppers estava disponível para entrevista no Chateau Marmont, hotel top da Sunset Boulevard.

Lúcio foi lá e conversou com John Frusciante sobre o novo disco duplo dos Chili Peppers. A conversa emplacou a capa da Ilustrada, centenas de milhares de cópias de papel pelo país, mas só bombou mesmo um dia após a publicação, na coluna que ele mantinha no site da Folha. “Foi quando tive um termômetro da repercussão, de um público de internet com cara e nome e que só crescia. Leitores que complementavam os textos, corrigiam, davam dicas e sugestões.”

Ali Lúcio já tinha um nome no jornalismo musical. A coluna Popload rolava na Folha desde 2001 (começou como Download), nadando sozinha na crônica do novo rock – britpop, Coldplay, Radiohead, Strokes e cia. Lúcio vinha de um começo de faculdade indeciso entre física ou educação física, decidiu-se por comunicação na PUC mais Letras na USP, depois ampliou o radar musical em temporadas em Londres, voltou e se “entendeu” como jornalista no Notícias Populares, o NP, clássico dos temas polêmicos, gírias, textos curtos e fotos grandes.

Lucio Ribeiro, da Popload, como DJ

O jornalista musical também era DJ, e uma coisa começou a puxar a outra.

A interação com o público na internet também começou a render trabalhos. Um dia Lúcio mencionou no site que estava de passagem por Florianópolis. Um leitor viu e o convidou para tocar na cidade, o que passou a se repetir em outras praças. Hoje o DJ Lúcio Ribeiro toca numa noite mensal no Bar Secreto, em São Paulo, e já rodou o Brasil com discos e novidades. “Discoteco basicamente o que escrevo, e é outra experimentação para esse material”, diz.

E se em 2003 bateu aquele “clique” da decadência do papel e da necessidade de mexer mais em outras plataformas, três anos depois a coisa foi além: teve início a parceria de Lúcio com Paola Wescher, sua atual sócia. Paola vinha construindo reputação como produtora de shows, e tinha chamado a atenção de Lúcio ao conseguir trazer o Pixies para uma única data no Brasil em 2004, em Curitiba. Paola começou a atuar como agente de Lúcio e ajudou a levar a Popload para o iG, na primeira empreitada “all digital” do jornalista. “Foi a primeira vez que larguei a imprensa ‘velha’”, lembra.

CONTEÚDO E PRODUTO: EIS A FÓRMULA DA POPLOAD GIG

Passou-se um tempo e apareceu a ideia: e se começassem a trazer algumas bandas pequenas e interessantes que eram pauta na Popload? Era o início do selo de shows Popload Gig, que desde 2009 soma 35 edições e uma versão encorpada: o Popload Festival, este ano a caminho de sua terceira edição. Hoje a empreitada tem fama no mercado por resolver bem a equação shows interessantes + pessoas legais + mídia + boa produção. Colocou em palcos paulistanos nomes bombados como Nouvelle Vague, Feist, Tame Impala, Metronomy, LCD Soundsystem, Friendly Fires, The XX, Rapture, Of Montreal, Devendra Banhart e por aí vai.

A tarefa não foi – e até hoje não é — fácil. Vinha um show com prejuízo pequeno, outro com algum lucro, depois um tombo grande, como no show dos veteranos do Primal Scream, em 2011, de custo alto e pouca gente. “Nesses tombos começamos a entender mais sobre produção: casas, bandas, dias e épocas para shows”, conta Lúcio.

The Thruston Moore Band toca na Popload Gig, em dezembro do ano passado.

The Thruston Moore Band toca na Popload Gig, no Cine Jóia, em dezembro do ano passado.

Nessa toada de crescimento orgânico, passo a passo, ajudou também a sociedade que Lúcio fechou em 2011 com Facundo Guerra, empresário de São Paulo, no Cine Jóia, um cinema abandonado que eles transformaram numa das casas noturnas mais bacanas da cidade. Com o know-how de anos falando de bandas e tendências, o jornalista entrou como uma espécie de embaixador/curador do espaço, palco de várias edições da Popload Gig. Hoje é sócio minoritário do grupo Vegas, de Facundo, que inclui o novo PanAm, Volt, Lions, Yacht, Rivieira e Z Carniceria.

NOVOS NEGÓCIOS COM A BELTRANO MUSICAL

A Popload Gig, conta Lúcio, ajudou a consolidar a fama de profissionalismo de Paola no meio musical. Se o artista pede um piano X e o whisky Y, é o que ele vai ter, sem improviso nem jeitinho brasileiro. A banda inglesa The XX, por exemplo, preferiu fechar com a Popload do que com outros produtores bem maiores que queriam trazer a banda ao Brasil. Lúcio fala deste reconhecimento e crescimento:

“Sempre fomos pequenos, com pouca estrutura e organização. De repente vimos que, mesmo no nosso jeito atropelado, estávamos empregando 20 pessoas, movimentando recursos”

Quando surgiu essa necessidade de enxergar o negócio como empresa, ali pelo final de 2012, veio uma proposta de Krysse Mello, amiga de Lúcio e Paola e sócia da Fulano Filmes, uma das maiores produtoras de filmes publicitários do país.

De olho nas novas mídias, a Fulano havia aberto um braço, a Beltrano Digital, para cuidar de formatos como mobile, vídeos e internet em geral. Com a expertise de conteúdo e produção da Popload, nascia ali a Beltrano Musical, que ampliou o leque de serviços de Lúcio e Paola. Agora poderiam procurar patrocinadores para a Popload Gig com um produto mais atrativo, com ações de ativação, filmes pré e pós evento, curadoria e conteúdo musical. A Heineken, por exemplo, já fechou apoio ao evento pelos próximos dois anos.

E os serviços não se limitam ao universo Popload. Em 2012, por exemplo, a Beltrano criou e produziu todo o conteúdo de uma festa em alto mar da Chilli Beans, com TV e rádio ao vivo por 36 horas num cruzeiro, 20 atrações musicais e concursos culturais. No ano passado, fizeram produção e curadoria para a Sol Sunday Sessions, uma “sunset party” que rolou de agosto a novembro na capital paulista em parceria com a chef Helena Rizzo. Também cuidaram do Heineken Glass Room, um projeto de “pop up bar” num espaço feito inteiramente de vidro no museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.

Como pilar de todo o trabalho, segue o site Popload, que se tornou independente após uma temporada no UOL de 2012 a 2014. Com cerca de 300 mil visitantes únicos por mês e peso nas redes sociais, a página continua a fazer jornalismo musical de qualidade e a alimentar a cena que move o negócio de Lúcio e Paola. Entrega textos embasados, com títulos nervosos e que farejam tendências no oceano de novidades desse mundo. E quando chega o festival a empresa nem precisa batalhar por espaço na mídia tradicional, pois a Popload já tem seu público consolidado na internet, um diferencial raro nesse meio.

Lúcio ainda mantém o pé na “velha imprensa” como editor de cultura na Harper’s Bazaar, revista de moda e estilo de vida, e confessa que ainda curte aquela semana do mês em que seu trampo é fechar páginas e edições. Já a Popload/Beltrano começa a alçar novos voos – até recusaram ofertas de vender parte da empresa –, agora sem medo dos tombos.

“Quando não começamos a tomar sustos grandes com prejuízos é sinal de que a coisa está pavimentada. Ainda estamos no meio de um caminho, até de auto-entendimento para enxergar o que podemos fazer, mas sabemos que temos um grande negócio na mão, de aptidão nossa, de amar e fazer direito”, resume Lúcio, reinventando o ofício de jornalista.

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Popload/Beltrano Musical
  • O que faz: Jornalismo e curadoria musical/projetos customizados/booking de bandas/imprensa e planejamento em redes sociais
  • Sócio(s): Lúcio Ribeiro e Paola Wescher (em associação com Fulano Filmes)
  • Funcionários: 6 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2001 (Popload) / 2009 (Popload Gig) / 2012 (Beltrano Musical)
  • Investimento inicial: NI
  • Faturamento: NI
  • Contato: (11) 3665-3333
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