“Não somos ‘velhinhas’ nem supermulheres. Ainda sentimos prazer e consumimos de tudo, inclusive vibradores e lubrificantes vaginais”

Carla Leirner - 10 dez 2021
Sylvia Loeb e Carla Leirner, mãe e filha, criadoras do projeto Escritora no divã.
Carla Leirner - 10 dez 2021
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Existem momentos na vida em que perdemos o chão e, nessa hora, só nos restam duas opções: ficar no chão ou levantar. Parece clichê, mas não é. 

O “tranco” que levei foi violento e me levou a apostar no projeto Escritora no divã, espaço de discussão sobre questões relacionadas à maturidade, que hoje divido com a minha mãe. Mas o processo foi bem longo até isso acontecer. 

Entrei na Editora Abril logo que saí da faculdade; lá, aprendi “tudo” que sei. Digo, tudo sobre jornalismo impresso — o que ficou praticamente obsoleto nesses tempos de internet.

Foram mais de 30 anos de escola. Fui a responsável pela primeira revista terceirizada da casa, a Bons Fluidos, onde atuei como diretora de redação por mais de quatro anos. 

Terminado o contrato com a Editora Abril, criei o projeto gráfico e editorial de uma revista semanal para uma grande rede de supermercados. Tinha uma equipe com mais de dez pessoas — e foi justamente aí que levei o tranco que reorientou minha vida profissional

Soube, por terceiros, que o projeto seria produzido por outra editora. De um dia para o outro, literalmente, eu não tinha mais trabalho. Fui alçada à categoria de “dinossauro”. Aos 54 anos, me vi obrigada a mudar totalmente a maneira como iria me comunicar a partir daquele momento. 

FIZ A TRANSIÇÃO DO IMPRESSO PARA O DIGITAL E COMECEI A AJUDAR MINHA MÃE A DIVULGAR UM PROJETO NAS REDES

Como precisava entender como caminhar neste “mundo novo”, o digital — e, acima de tudo, ainda tinha muita lenha para queimar –, me inscrevi em um curso de especialização de mídias sociais, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Demorei muito para fazer a transição entre o impresso e o digital. Foram dezenas de cursos, eventos e muita “bateção” de cabeça até começar a dar os primeiros passos com mais segurança

Nesse meio tempo, já trabalhava com a minha mãe, a psicanalista Sylvia Loeb, 77, no Escritora no divã. O embrião do nosso projeto nasceu há quase dez anos, quando ela criou uma página no Facebook para responder perguntas dos seguidores.

Eram questões mais abertas, sobre relacionamento, ciúmes, casamento. O tema envelhecimento ainda não estava no nosso radar. 

Na época, minha mãe escrevia e também atuava como psicanalista, algo que faz até hoje. Então, achamos que o nome Escritora no divã traduzia bem a ideia da página.

Passados alguns anos, ela resolveu criar um canal no YouTube como uma extensão da página na rede social.

Eu não me via empreendendo no universo digital, ajudava ela sem muita convicção. Na realidade, era quase um bico. Queria mesmo trabalhar como produtora de conteúdo para as marcas e continuar a escrever livros como ghost writer.

O ENVELHECIMENTO DA MULHER TRATADO DE FORMA INTERGERACIONAL

A grande virada para o que o Escritora no divã se transformou hoje, um espaço para discutirmos a maturidade do ponto de vista de duas gerações diferentes, aconteceu há dois anos, quando participamos do Creators Boost, um programa de aceleração para criadores de conteúdo, coordenado pelo Youpix, empresa que faz a ponte entre marcas e creators.

Na inscrição, era preciso definir o objetivo do projeto. E foi quando percebemos que existia um nicho para explorarmos: o envelhecimento feminino do ponto de vista de duas gerações diferentes — mãe e filha. 

Já existiam outras páginas sobre o assunto, mas o foco do conteúdo era mais voltado para estilo de vida e, de certa forma, para um perfil idealizado do “novo velho”, que acaba reproduzindo os padrões de beleza da juventude. Ou seja: cinquentonas saradas, com longos cabelos brancos, magras e prontas para qualquer aventura radical que apareça pela frente. 

Dentro desse cenário, optamos pelo caminho do meio, o que tem se mostrado uma estratégia bem acertada.

Não somos as velhinhas de chinelo de antigamente, que se retiravam da vida após a aposentadoria, nem super-heroínas. Apenas mulheres comuns buscando construir um novo jeito de envelhecer com menos preconceitos e limitações impostas à idade

Para nossa surpresa, fomos aprovadas entre mais de 1 500 projetos. Foi uma semana de aprendizado muito intenso, no meio de pessoas que podiam ser nossos filhos e netos.

Eles navegavam pelas redes sociais (e suas estratégias) com a maior tranquilidade do mundo, enquanto nós penávamos para acompanhar tantas coisas novas.

MAIS DO QUE REDES SOCIAIS, TÍNHAMOS UM NEGÓCIO EM MÃOS

Nesse momento, percebemos que tínhamos um negócio promissor em mãos, uma vez que o Brasil e o mundo estão envelhecendo, e que estava mais do que na hora de acertarmos o passo.

Como diz minha mãe, “trocamos a roda com o carro andando”. Mesmo com essa guinada, eu continuava nos bastidores e nossos números não acompanhavam o esforço gasto para fazer o projeto decolar.

Sempre fui uma pessoa tímida. Me mostrar nas redes sociais, algo essencial para esse tipo de trabalho, estava fora de cogitação.

Foi quando decidimos fazer uma mentoria para alinhar o rumo do projeto de uma vez por todas. Eu continuava infeliz profissionalmente, procurando algo fora quando a solução estava tão perto.

Nessas conversas, entendemos que, apesar de todas as dificuldades, eu deveria dividir os espaços das redes sociais com a minha mãe e também reforçar nosso posicionamento. Ou seja: um espaço predominantemente feminino para discutirmos o envelhecimento do ponto de vista de duas gerações.

Se no começo falávamos para mulheres 55+, aos poucos percebemos que as que estavam mais perto dos 40 também se interessavam pelo tema, pois mostramos que envelhecer não é tão assustador quanto elas imaginam.

ME REENCONTREI PROFISSIONALMENTE E CONQUISTAMOS NOSSO PRIMEIRO CLIENTE

A mudança deu muito certo. Em menos de um ano, mais do que duplicamos o número de seguidoras no Instagram, nosso principal canal.

Fiquei muito feliz por conseguir trazer todo meu conhecimento do jornalismo impresso, o cuidado com a apuração, a expertise em curadoria e um olhar mais apurado da parte editorial para o nosso projeto. 

Naquele momento, quase quatro anos depois de ter perdido meu último cliente, me reencontrei profissionalmente e entendi que meu lugar era ali

Em consequência desse alinhamento, conseguimos o nosso primeiro contrato com uma marca, algo essencial para a sobrevivência de criadores de conteúdo.

E não foi uma marca qualquer. E, sim, a Feel Lube [que já foi tema de pauta no Draft, aqui], que tem como produto principal um lubrificante íntimo vaginal.

COMO ABORDAR A SEXUALIDADE NA VELHICE E DESCONSTRUIR NOSSOS PRÓPRIOS TABUS

Isso só veio a comprovar que estávamos no caminho certo quando dizemos que nosso papel é rasgar scripts em relação aos preconceitos que envolvem o envelhecimento — e, sem dúvida, a sexualidade é o maior deles.

Uma vez “rasgados esses scripts”, vêm a aceitação com as mudanças do corpo e a percepção de que a idade não é, necessariamente, um fator limitante nessa altura da vida.

Foi um árduo caminho até aqui. Era nítido o desconforto que esse assunto trazia. Bastava falar de vibradores e autocuidado para o nosso engajamento despencar

Mesmo assim, continuamos a abordar o tema, de outras maneiras, por outros ângulos, mas sem perder nosso propósito: construir novas formas de envelhecer, com mais liberdade e autoestima.

E não é que está dando certo?

É muito interessante perceber que o preconceito não se limita apenas às imposições sociais. Ele também está dentro de nós, mulheres maduras, que vivemos há décadas cercadas por regras de como devemos nos comportar à medida que envelhecemos. 

Pouco a pouco, nossa comunidade foi se abrindo para o tema sexualidade e descobrimos mulheres firmes, potentes e cheias de vida e desejo pela frente. 

Falar de certos assuntos, como sexualidade, também é difícil para nós. Pois também estamos vivendo um processo de desconstrução e reconstrução junto com a nossa comunidade.

Não é fácil se mostrar e contar dos efeitos da menopausa sobre a libido ou falar tranquilamente sobre os dez novos tipos de vibradores quando só conheço um “e olhe lá”

É um aprendizado de mão dupla. E, talvez, seja essa uma das grandes belezas do nosso projeto.

Quem sabe, todo esse processo vá ser muito mais tranquilo para as próximas gerações. Mas, para nós, não tem sido fácil, principalmente num país como o Brasil onde é tão difícil envelhecer. 

SE AS MARCAS QUEREM FALAR DE DIVERSIDADE, ELAS NÃO PODEM IGNORAR OS SÊNIORES

Na contramão desse movimento, as marcas parecem não saber o que fazer com a gente. O que é complicado, uma vez que, em parte, dependemos delas para tornar nosso negócio sustentável. 

Se hoje elas aprenderam a falar sobre diversidade, o mesmo não vale quando o assunto é envelhecimento. Simplesmente viram as costas para números que evidenciam nosso poder de compra. Ou, no caso do Escritora no divã, para a “mina de ouro” formada por uma comunidade com mais de 36 mil mulheres acima de 40 anos.

Se alguma marca tivesse se debruçado sobre o post onde falamos dos incômodos do sutiã, em pouco tempo teria lançado uma linha de tops confortáveis para usar em casa

Segundo uma pesquisa realizada em 2020 pela Kantar Ibope, os sêniores gastam mais na compra de todas as categorias em comparação com a média geral da população, com destaque para higiene e beleza (+6,3%) e bebidas (+7,3%). 

No Brasil, passamos de 7,1 milhões de pessoas acima dos 60 anos em 1990 para 30 milhões em 2021. Em 2030, seremos 40 milhões, o equivalente a 18% da futura população. Isso significa que o país terá a quinta maior quantidade de idosos no mundo daqui a dez anos. 

APESAR DAS MARCAS DO TEMPO, CONTINUAMOS A SER AS MESMAS PESSOAS — E AS EMPRESAS PRECISAM ENTENDER ISSO

Como eu disse: não somos velhinhas de chinelo nem supermulheres; estamos apenas pedindo um olhar mais real e atualizado sobre nós, os novos velhos. 

Nós trabalhamos, empreendemos, namoramos, consumimos, inovamos, ou seja, fazemos acontecer. E participamos da geração de riqueza do país. Apesar das marcas do tempo, continuamos a ser as mesmas pessoas de sempre. 

Mesmo assim, parece que querem decretar nossa morte em vida!

Estamos cansadas de tentar convencer marcas, formadores de opinião e a sociedade de que ainda temos prazer, de que somos um mercado consumidor em potencial para tudo — inclusive vibradores, preservativos e lubrificantes vaginais 

Enquanto essa mudança de olhar não se concretiza, buscamos a cada dia formas de dar sustentabilidade ao nosso negócio. Já fizemos algumas palestras para empresas e oferecemos curadoria de conteúdo para marcas.

Temos, no radar, o lançamento de um livro sobre o tema, uma linha de roupas e até o desenvolvimento de um curso online para produtores de conteúdo maduros.

Só não avançamos com mais velocidade porque só agora estamos conseguindo aumentar nossa equipe. Mas continuamos firmes no  propósito de criar uma comunidade cada vez mais engajada e que veja a passagem do tempo não como um fim, e sim como uma nova possibilidade na vida. 

A nossa missão é desconstruir preconceitos. E somos a prova viva de que temos ainda uma bela jornada pela frente.

 

Carla Leirner, 59, é jornalista e ativista da maturidade. Reformulou o canal Escritora no divã em parceria com sua mãe, a psicanalista Sylvia Loeb, 77, para que se tornasse um espaço mais amplo de discussão de questões relacionadas ao envelhecimento. Juntas, abordam o tema do ponto de vista de duas gerações. Também é consultora, curadora e produtora de conteúdo para marcas desse segmento.

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