Nem sempre uma boa ideia dá certo. E tudo bem. Com a Piggme foi assim

Beatriz Souza - 9 out 2015
A Piggmee era uma rede social, clube de compras e fonte de financiamento para projetos sociais.
Beatriz Souza - 9 out 2015
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Foi da experiência de dois anos como missionário mórmon nos Estados Unidos que o paulistano Jimmy Peixoto, 36, tirou a ideia de criar um social commerce. Mais do que uma rede social ou de um site de vendas, o Piggme era um ambiente onde o dinheiro era direcionado para projetos sociais. Era. Pois, menos de dois anos depois do lançamento, a startup fechou. “Foi um mega sucesso, o maior da minha carreira. Fomos considerados uma das 12 empresas mais inovadoras do Brasil”, conta o fundador.

Depois de 10 anos nos Estados Unidos, onde se formou em economia e contabilidade pela BYU Utah, Jimmy voltou ao Brasil e começou a trabalhar na Goorila, prestando serviços para companhias do ramo de telecomunicações. Lá, montou o primeiro clube de compras empresarial do Brasil, no qual empresas colocavam seus produtos à venda para os próprios funcionários. Foi quando teve o primeiro contato com o que seria a base do Piggme, anos depois. Outra experiência que o preparou para criar sua própria empresa foi quando esteve no cargo de diretor geral da startup de pedidos de táxi Safertaxi, entre 2012 e 2013. Em 10 meses, levou a empresa a estar entre as três maiores do Brasil.

Jimmy à frente da startup: "Você nunca está 100% seguro de nada. Então, já que o risco existe para todos, preferi ter um risco maior e arriscar para fazer acontecer".

Jimmy à frente da startup: “Você nunca está 100% seguro de nada. Então, já que o risco existe para todos, preferi ter um risco maior e arriscar para fazer acontecer”.

Em agosto de 2013, ele decidiu que era hora de empreender e montar a empresa que já estava na sua cabeça desde os tempos de missionário mórmon: um social commerce. Ele conta que já vinha cozinhando a ideia desde a experiência como missionário, e que queria montar uma empresa que fosse sustentável financeiramente, mas não só isso:

“Eu não queria abrir uma ONG, queria gerar receita, ter lucro. Mas, ao mesmo tempo, queria que o meu negócio ajudasse outras pessoas”

Aos 32 anos, o paulistano calculou que aquele era o melhor momento para se arriscar em um negócio próprio: “Qualquer emprego está em risco o tempo todo. Empresas grandes demitem em massa, empresas pequenas fecham. Você nunca está 100% seguro de nada. Então, já que o risco existe para todos, preferi ter um risco maior e arriscar para fazer acontecer”.

UMA INOVAÇÃO QUE ATRAIU INVESTIDORES

O modelo de social commerce foi trazido ao Brasil pela Piggme, que se intitulava a primeira rede social do mundo baseada no conceito de crowdgiving: a associado tinha acesso a benefícios, ofertas de produtos e serviços enquanto era desafiado a doar recursos financeiros em prol de causas e pessoas que necessitem de ajuda. Tratava-se de uma combinação de rede social, e-commerce, programa de benefícios e doações. Na prática, funcionava assim: para se cadastrar no site, o usuário fazia uma assinatura (de 9,99 reais mensais) que lhe dava direito a fazer compras na loja virtual, participar das ofertas com grandes descontos e também a acumular pigmmes (a moeda própria da rede).

As compras eram feitas com a moeda do site — um pigmme equivalia a 1 real. Também era possível acumular piggmes através de interações na rede social: compartilhar, curtir e postar rendiam um piggme cada ao autor. Convidar amigos também era recompensado com dinheiro virtual. Cada usuário podia acumular no máximo mil pigmmes por mês, que poderiam ser gastos fora do site por meio de um cartão Visa ao qual os assinantes tinham direito. A Piggme chegou a ter 100 mil usuários ativos (a expectativa era alcançar 1 milhão em 2015) e teve parceiros como a Claro, Cinemark, Multilaser e Netshoes, entre outros.

A atriz Bianca R mostra um cheque de doação da Piggme. Em dois anos, Jimmy estima ter ajudado mais de 5 mil crianças com as doações da startup.

A atriz Bianca Rinaldi mostra um cheque de doação da Piggme. Em dois anos, Jimmy estima ter ajudado mais de 5 mil crianças com as doações da startup.

O pilar da caridade ficava por conta da parceria com empresas. Todos os dias, um produto (de eletrônicos a ingressos de cinema) era anunciado por meros 99 centavos. Todo o dinheiro levantado com a venda da oferta do dia era repassado diretamente para uma instituição de caridade escolhida pelo comprador. Havia mais de 35 organizações cadastradas, que recebiam o dinheiro sem qualquer desconto. Uma delas é o Instituto Eu Quero Viver, fundado pela atriz Bianca Rinaldi. Nos dois anos que ficou no ar, a Piggme ajudou mais de 5 mil crianças carentes. Este vídeo explica o funcionamento da startup.

TUDO IA BEM, ATÉ QUE…

“Nosso modelo de negócio se baseava em margem baixa para ganhar no volume. A gente ajudava as empresas a desovarem estoque ocioso de produto, em troca de fazer uma caridade”, conta Jimmy. A Piggme gerava receita de três formas: através das assinaturas mensais, com uma porcentagem das vendas no e-commerce e também com a publicidade das marcas no site.

De acordo com o empreendedor, foram duas as grandes dificuldades enfrentadas pela empresa — uma superada e outra, fatal. A primeira surgiu logo no início: “Faltava credibilidade. As nossas ofertas eram muito baratas, então as pessoas não acreditavam que era um negócio sério”, diz. Depois, a crise financeira do país acabou atrapalhando na busca por novos investidores. “A empresa estava indo muito bem até o final, mas no momento em que a crise bateu, ficou difícil levantar novos aportes e continuar crescendo. Os investidores nacionais ficaram com medo e levaram o dinheiro para fora do país. Já os estrangeiros não queriam investir em uma empresa no Brasil”, afirma. A decisão de fechar o próprio negócio, obviamente, não foi nada fácil:

“Você nunca abre um negócio com a intensão de fechar, então fiquei muito chateado. Especialmente por ter sido um modelo criado para ajudar as pessoas”

Mesmo com a decepção, o saldo continuou sendo positivo em sua opinião. “Acabei me tornando um cara de inovação. Consegui colocar uma startup no ar, o que me fez aprender muita coisa em pouco tempo. Me deu uma experiência ímpar, que talvez eu não tivesse em uma empresa tradicional no mesmo período”, diz o empresário. A startup, que chegou a ter 20 funcionários e um escritório em São Paulo, fechou as portas em dezembro do ano passado. Atualmente, Jimmy Peixoto trabalha com projetos de inovação e novas tecnologias. Por enquanto, voltou a ser funcionário de uma grande empresa, mas diz que pretende voltar a empreender “sem dúvida nenhuma”.

“Me identifico com essa geração que busca no trabalho um propósito baseado no senso de coletividade. Estamos em um momento de transição dos modelos tradicionais de negócios para estes novos. Se as empresas não se tornarem sociais, elas tendem a morrer”, diz ele. Volta logo para esse mercado, cara.

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Piggme
  • O que faz: Era uma combinação de rede social, e-commerce, programa de benefícios e caridade
  • Sócio(s): Jimmy Peixoto e André Leal
  • Funcionários: 20
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: outubro de 2013 até dezembro de 2014
  • Investimento inicial: R$ 1 milhão
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