O Ateliê TRANSmoras usa retalhos para criar roupas fora do padrão cisgênero, fortalecer pessoas trans e desafiar a indústria da moda

Juliana Afonso - 9 maio 2022
Vicenta Perrotta, empreendedora da TRANSMoras (foto: xisgenera).
Juliana Afonso - 9 maio 2022
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Peças fora do padrão cisgênero, sem numeração, feitas com retalhos de roupas vindas do lixo, produzidas e apresentadas ao público em desfiles com pessoas trans como protagonistas. 

São várias as transgressões – e provocações – presentes no processo criativo das integrantes do Ateliê TRANSmoras, espaço de produção de arte, moda e cultura voltado para a comunidade trans.

Na liderança desse movimento está Vicenta Perrotta, 46, artista, ativista e estilista. Nascida em Campinas e fã de Madonna, ela passou a se interessar por moda de rua, tendo como inspiração as obras de Jean Paul Gaultier, estilista francês conhecido por peças como o irreverente sutiã de cone, que a cantora usava em seus shows. 

“Eu tinha uma tia que fazia croqui e eu ficava fazendo também… Mas, por conta de transfobias, comecei a ser podada pela minha família.”

Vicenta também sofria preconceitos na escola, onde tinha o costume de fazer apresentações personificando Madonna. Sua história já começava a ser atravessada pela arte, de um lado, e pela violência, de outro.

“A minha vida é um processo de pesquisa para entender de fato quem sou eu e como a sociedade constrói as pessoas. Muitos artistas, principalmente as pessoas trans, têm esse contato com a arte enquanto cura. Não é aquela arte vazia, decorativa”

Com coragem, ela encarou os preconceitos, superou obstáculos, e se tornou um dos nomes mais mais representativos da atual cena da moda brasileira. 

ELA COMEÇOU SUA JORNADA PRODUZINDO ACESSÓRIOS COM SEMENTES,  PESQUISANDO A RELAÇÃO DE CONSUMO E A RELAÇÃO DAS ETNIAS ANCESTRAIS COM O MEIO AMBIENTE

A primeira experiência profissional de Vicenta foi como vendedora em um shopping, nos anos 2000. Aos poucos, começaria a ter contato com o mundo dos negócios e da construção da imagem.

A estilista e ativista Vicenta Perrotta (foto: Vincent Catala).

Em busca de expressar sua criatividade e de estabelecer seu próprio estilo artístico, ela começou a produzir acessórios feitos com sementes, sobretudo colares. E assim, ia cativando uma primeira clientela.

“Comecei a estudar de onde vêm e como as etnias [originárias brasileiras e africanas] lidavam com a extração dessas sementes. É daí que vem meu processo de trabalhar com consciência”, diz.

Compreender a origem dos processos – materiais e cognitivos – têm uma importância central na obra e na personalidade de Vicenta. 

Essas questões foram vividas em paralelo à sua transição de gênero: desde criança ela já tinha consciência de que não correspondia ao seu gênero estabelecido socialmente.

Vicenta precisou então questionar a posição de “preterida” na sociedade para encontrar sua potência de existir – um movimento que ecoa a luta de etnias indígenas e grupos subalternizados ao longo da história.

O TRABALHO COM RESÍDUOS E RECICLADOS SE TRANSFORMOU EM UMA APOSTA ÉTICA E IMAGÉTICA

Foi durante essa pesquisa sobre a origem das sementes e a relação da população que vive em torno dessas árvores que Vicenta começou a questionar o capitalismo e o discurso de sustentabilidade.

Para Vicenta, a fragilidade da moda transparece sempre que ela se volta (apenas) para o consumo. O sonho de ser estilista, ao contrário, ganhava força. Ela começou a frequentar o bairro do Brás, em São Paulo, conhecido pelo comércio varejista de roupas. 

“Primeiro, fui garimpar: gastei toda a minha grana e fiz os meus primeiros moletons. Então, descobri o lixo do Brás e comecei a utilizar o que estava no meu entorno… Esse movimento casa com meu processo de pesquisa, porque era isso que os povos originários fazem: usar de maneira consciente o que a natureza lhe oferece para construir ornamentos, alimentação, existência” 

Ela coletava roupas usadas e tecidos, como capas de sofá, para montar peças originais a partir desses retalhos, incluindo blusas, vestidos e moletons. 

Assim, o trabalho com resíduos e reciclados começava a se transformar em uma aposta ética e imagéticas.

QUANDO O PAI RESOLVEU VENDER A CASA, ELA SE VIU SEM UM TETO ONDE VIVER E TRABALHAR

Em 2013, a vida de Vicenta mudou de repente, quando seu pai resolveu vender a casa. De uma hora para outra ela não tinha mais onde viver e trabalhar.

Segundo Vicenta, a decisão foi, também, uma maneira de seu pai demonstrar a insatisfação dele com sua transição de gênero. 

“Quando ele vendeu a casa, eu tive que sair. Fui praticamente expulsa – mas foi ótimo me desvencilhar dessa família que só me levava pra trás”

Em busca de um espaço para trabalhar, Vicenta conheceu um aluno do Instituto de Artes da Unicamp. Com ele, descolou a chave de uma sala vazia e rapidamente transformou aquele espaço ocioso em local de vivência e trabalho. Começava a surgir assim o Ateliê TRANSmoras.

O ATELIÊ TRANSMORAS GANHOU SEU NOME EM UM DIA DE PROTESTO CONTRA A TRANSFOBIA

A primeira coisa que Vicenta levou para o espaço foram as máquinas de costura.

Em seguida, circulando pelo campus, descobriu um ponto de ônibus onde pessoas deixavam roupas e objetos. Passou a garimpar peças ali – reforçando o uso de resíduos como uma escolha não apenas financeira, mas fruto de um pensamento crítico sobre a indústria da moda.

Vicenta aliava o trabalho de costura com a tarefa de agitar o Ateliê: 

“Eu entendo que para me fincar aqui eu tenho que produzir: produzir memória, produzir roupa, encher isso aqui de vida. Abrir as janelas, colocar música alta, costurar, acolher… Movimento”

O Ateliê atraía frequentadores, principalmente travestis e trans, que viam e viviam o espaço não apenas como um local de produção, mas um ponto de encontro e convivência.

A direção do Ateliê TRANSmoras (foto: Luara Souza).

Aos poucos, outras mulheres foram acolhidas e começaram a trabalhar no Ateliê. Entre elas, Rafa Kennedy, 26, fotógrafa, e Antônia Moreira, 27, coordenadora de planejamento – são apoios fundamentais para organizar as atividades e dar um passo além na busca de editais e na gestão de projetos e do espaço que possam trazer recursos e visibilidade.

O nome TRANSmoras surgiu em 2016, durante a Primeira Parada Trans, evento de cultura e protesto organizado por Vicenta e outras pessoas do Ateliê e de dentro da Unicamp, em apoio a uma aluna travesti vítima de transfobia – a jovem havia sido expulsa da moradia estudantil e acolhida no Ateliê. 

“Nesse dia, alguém falou ‘TRANSmoras’, de moradia. E a sigla ainda é ATM [assim como Automatic Teller Machine, caixa eletrônico em inglês], que é o símbolo de ‘máquina que faz dinheiro’”, brinca.

VICENTA COMEÇOU A RECEBER CONVITES E FINCAR PRESENÇA EM IMPORTANTES EVENTOS DA MODA

O ateliê começou a ganhar notoriedade e a ser aprovado em editais para realizar desfiles e cursos.

O primeiro projeto escrito e aprovado foi um curso de criação e costura que Vicenta realizou no SESC Campinas, em 2017. No mesmo ano, o Ateliê fez o seu primeiro desfile, chamado Travesti VIVA!, na Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Em seguida, surgiu a oportunidade de fazer mais um desfile, dessa vez para o Mercado Mundo Mix, um dos eventos mais importantes do mercado brasileiro de moda e design. Foi o primeiro desfile de moda sem gênero do país.

O Ateliê TRANSmoras passava a figurar em importantes eventos do segmento e Vicenta recebia convites para dar cursos e realizar residências artísticas, em espaços como a Casa do Povo, a Casa de Criadores (voltada para a educação e capacitação de profissionais ligados a moda) e o Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, que abriga mostras de arte contemporânea.

“O meu desfile começa a se tornar um lugar onde eu não vou atrás de agência – as pessoas é que pedem pra desfilar pra mim”

Ela destaca dois desfiles em sua trajetória. Um deles foi o Transclandestina, em 2019, realizado na escadaria da Praça das Artes, durante a edição da Casa de Criadores – o espaço, no Centro de São Paulo, funciona como uma extensão do Theatro Municipal. 

Para Vicenta, este foi o seu desfile mais marcante, tanto pela performance na passarela (que incluiu leitura poesia sobre pessoas trans e travestis e a apresentação musical) quanto pelo alcance e pelo impacto do evento.

Naquele mesmo ano, outro desfile importante foi o Brasil, país campeão mundial de travestis, em um galpão na Barra Funda, que levou uma centena de pessoas trans e travestis à passarela.

EM 2021 ELA CONQUISTOU UM PRÊMIO DO INSTITUTO C&A, MAS A SUSTENTABILIDADE DO NEGÓCIO AINDA É UM DESAFIO

O Ateliê TRANSmoras se define como um negócio de impacto social, que atua tanto no B2B quanto no B2C. Assim, busca captar recursos por diferentes caminhos.

Uma maneira é por meio da inscrição em editais de incentivo à cultura e organizações do terceiro setor. Neste ano, por exemplo, já rolou um financiamento do International Trans Fund, fundo internacional que apoia ativistas contra o genocídio de pessoas trans. 

A oficina do Ateliê TRANSmoras em ação (foto: Antonia Moreira).

Outra fonte de renda é a venda das peças produzidas pelo coletivo em plataformas digitais e feiras de moda. A equipe tem trabalhado para desenvolver um marketplace que comercialize as peças do Ateliê e as roupas de artistas que integram a rede. A previsão é lançar a plataforma em julho.

A inscrição em prêmios também tem se tornado uma alternativa: no final de 2021, elas conseguiram 50 mil reais ao ganhar o prêmio Fashion Futures, do Instituto C&A, na categoria projeto social. 

“Com o dinheiro, vamos desenvolver um plano de trabalho para o próximo desfile, no qual vou acelerar quatro artistas da rede que vão construir uma minicoleção a ser apresentada na Casa de Criadores. Essas roupas vão ser fotografadas e vamos montar uma galeria virtual”

Mesmo com o reconhecimento, a autossustentabilidade ainda é um desafio. Trabalhos realizados por Vicenta, Rafa e Antônia ajudam a bancar os gastos. Segundo o relatório de impacto produzido pelo próprio coletivo, em 2021 o Ateliê movimentou 163 mil reais.

TRANSMUTAÇÃO TÊXTIL: O LEGADO DO ATELIÊ TRANSMORAS PARA A AUTONOMIA DE CORPOS SUBALTERNIZADOS

Em paralelo, a empreendedora projeta criar uma associação sem fins lucrativos. Um caminho que parece natural, considerando atividades já desenvolvidas pelo Ateliê. 

Entre essas iniciativas estão a Semana da Ressignificação, na Unicamp, exposições realizadas na biblioteca da universidade e rodas de debate sobre temas como HIV, transfobia e masculinidade trans, que já atraíram figuras políticas ligadas à causa, como a deputada estadual Erica Malunguinho e a vereadora Erika Hilton, ambas do PSOL.

Nos processos de criação e instrução, Vicenta defende a importância de se apropriar do lixo como potência, a partir de uma tecnologia social que ela chama de transmutação têxtil. Não confundir com o upcycling (que propõe a reutilização de um material que seria descartado):

“O ‘empreendedorismo’ é uma maneira de a indústria se manter sem se responsabilizar pelo trabalhador, os empreendedores são obrigados a comprar matéria prima para construir o seu produto… Mas quando eu reutilizo o lixo, já quebro a lógica de me endividar para poder produzir” 

Não reproduzir essa lógica industrial é um dos pontos-chave do Ateliê. Outra atitude inovadora é a pluralidade de acesso. “Várias artistas que saíram daqui já abriram outras ‘coletivas’. Elas foram impactadas e já estão reverberando esse impacto para outras pessoas.”

De olho no futuro, Vicenta sonha em montar uma escola para realizar residências artísticas, com um espaço amplo para funcionar como galeria de arte. “Já estou guardando grana para comprar o terreno!”

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  • Projeto: Ateliê TRANSmoras
  • O que faz: Plataforma criativa e laboratório de tecnologias travestis
  • Sócio(s): Vicenta Perrotta, Rafaela Kennedy e Antonia Moreira
  • Funcionários: 2
  • Sede: Campinas (SP)
  • Início das atividades: 2013
  • Faturamento: R$ 163 mil (2021)
  • Contato: [email protected]
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