O Brasil está ficando mais velho. Os idosos, porém, não querem saber de estereótipo. Conheça os negócios de olho nesse mercado

Maisa Infante - 16 dez 2019
Aula na ISGame: fundada com foco em crianças, a escola de desenvolvimento de games tem hoje maioria de alunos maduros (o mais velho deles com 88 anos).
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O Brasil envelhece mais rápido do que se esperava. O IBGE apontava que o país alcançaria 30 milhões de idosos em 2025 — mas essa marca foi atingida em 2018. Segundo o Serviço Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, os cabeças brancas — ou prateadas — serão 68 milhões em 2050. Isso significa uma nova economia, oportunidades de negócios e muitos desafios.

“A definição de idoso está muito velha”, diz Layla Vallias, cofundadora da consultoria Hype60+, consultoria de marketing com foco em consumidores maduros. Segundo ela, “não somente as estatísticas têm sido desmentidas, como os estereótipos estão sendo quebrados”:

“Os idosos de hoje têm um estilo de vida e hábitos de consumo que eram, há três décadas, associados aos jovens. Namoram online e têm vida sexual ativa, trabalham, são ativistas de causas modernas, continuam curtindo rock e buscando aprimoramento intelectual e profissional”

Layla é também uma das coordenadoras da pesquisa Tsunami60+, que estudou, em 2018, o mercado conhecido como Economia Prateada. O termo surgiu no Japão da década de 1970 como uma estratégia de marketing para falar do envelhecimento da população e começou a ser difundido em 2015 na França, quando os europeus começaram a olhar para a longevidade como uma indústria.

Leia também: A missão da Hype60+: abrir os olhos do mundo para o público (e o mercado) sênior

Hoje, a empresa de pesquisas Oxford Economics considera que a Economia Prateada engloba tudo que as pessoas com mais de 50 anos consomem ou vão consumir no futuro. Os cinquentões entram nesse “pacote” por já estarem, em geral, preocupados com a própria longevidade. “Isso mostra como esse é um assunto muito novo”, diz Layla.

NÃO É PARA CRIAR UMA ‘ÁGUA 50+’. A PROPOSTA DE VALOR DEVE FAZER SENTIDO

A Economia Prateada inclui públicos com necessidades diferentes (50+, 60+, 70+, 80+, 90+). Para Layla, o principal erro das empresas que tentam se relacionar com eles é criar negócios e produtos em desacordo com a realidade financeira dessa população.

A pesquisa detectou que 86% dos brasileiros com mais de 55 anos afirmam ter renda própria; entre aqueles acima de 75, o índice é de 93%. Por outro lado, a renda deles é comprometida com gastos que não esperavam ter. Na faixa 70+, muitos fazem parte da chamada “geração sanduíche”, que precisa ajudar os pais ainda vivos, com mais de 90, e também os filhos que não saíram de casa (ou voltaram depois de uma separação).

“Vejo negócios que não estão ajudando estas pessoas que têm dinheiro comprometido e apresentam soluções ainda mais caras… Além disso, não é para criar uma ‘água 50+’. Às vezes, as empresas e startups têm o sonho de criar algo legal, mas não se perguntam se a proposta de valor faz sentido”

O público sênior quer produtos pensados para sua realidade — mas não viver em guetos. Querem, sim, frequentar o mesmo mercado que todo mundo, mas esperam poder ler os rótulos (hoje em letras miúdas) e acessar os produtos nas prateleiras.

“Acho que os grandes protagonistas dessa mudança serão os empreendedores, que conseguem agir de maneira rápida e eficaz”, diz Layla. “Acredito muito na junção das empresas, empreendedores e startups. Aí sim as coisas começam a acontecer.”

Conheça a seguir algumas das empresas que estão alavancando essa mudança e atuando nesse mercado:

 

Eu Vô 

Conectar passageiros com mobilidade reduzida e motoristas que também são acompanhantes é a missão da Eu Vô, startup fundada em São Carlos (SP), em julho de 2017. Os motoristas são treinados para lidar com o público e suas necessidades, como o uso de cadeira de rodas, e a acompanhá-los em atividades do dia a dia — como uma ida ao parque, ao médico ou ao supermercado.

Gabriel e Victória Barboza criaram a Eu Vô em São Carlos (SP) e, neste ano, a empresa chegou à capital paulista (foto: MarcoTorelli).

Victória Barboza, 27, e seu irmão Gabriel, 30, criaram a empresa a partir da experiência com a mãe, portadora de Esclerose Múltipla. Com a perda de autonomia, ela precisava da ajuda dos filhos para sair de casa — e eles perceberam o quanto esse apoio a levou a ter mais qualidade de vida e sair do isolamento em que vivia confinada.

A Eu Vô tem 88 motoristas treinados e 2 500 cadastrados em São Carlos e São Paulo. Novos cadastros são liberados conforme a demanda. Para estar ativo na plataforma, os motoristas passam por um treinamento, que custa 50 reais e inclui entrevista com uma psicóloga e curso presencial de 4 horas (abordando questões como empatia e as necessidades desse público).

Caso o motorista não tenha o perfil desejado, é descadastrado e recebe os 50 reais de volta. Segundo Victória:

“Não buscamos atender a todos os públicos. Nosso serviço é para quem busca autonomia, segurança e confiança. Queremos que essas pessoas saiam de casa e se sintam inclusas na sociedade”

Os irmãos começaram a empresa com 150 mil reais de recursos próprios; em 2019, um investimento-anjo de 500 mil reais permitiu o início das operações na capital paulista. Hoje, a plataforma tem 5 mil passageiros cadastrados e faz, em média, 200 viagens por mês, a um ticket médio de 37 reais. O preço varia de acordo com a quilometragem e o tempo de acompanhamento. A Eu Vô fica com 25% do valor da transação.

Com faturamento mensal de 6 mil reais, a Eu Vô cresce 40% ao mês, segundo Victória. Os sócios mudaram a sede para São Paulo. Baseados na Estação Hack até fevereiro de 2020, eles já alugaram um imóvel para acolher os próximos passos do negócio.

 

ISGame 

Aprender a jogar e a desenvolver games: é isso que a ISGame ensina para o público 50+. Fundada em 2014 com foco em crianças, a escola ampliou seu escopo em 2016. Hoje, são 200 alunos maduros — o mais velho tem 88 anos — contra 60 crianças e jovens. A teoria é ensinada junto à prática: na primeira eles já começam a criar games.

Os benefícios da atividade teriam sido comprovados por uma pesquisa realizada com 75 idosos, entre 2016 e 2017, dentro do programa Pipe (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Segundo Fábio Ota, sócio fundador da empresa, ficou provado que o game traz ganhos para memória, concentração e qualidade de vida do público sênior.

“O videogame é um recurso que usamos para trabalhar a parte de planejamento, trabalho em equipe, raciocínio e memória de uma forma diferente da tradicional. É um trabalho preventivo e, por isso, o nosso público é o 50+”

A mensalidade custa 220 reais; para cancelar o serviço, basta avisar com 30 dias de antecedência. As aulas duram duas horas — uma hora e meia em frente ao computador e mais meia hora de “sociabilização”. “As pessoas nos contam que estavam em casa sem fazer nada e agora encontram os amigos, conversam e se divertem”, diz Fábio.

O investimento inicial foi de 300 mil reais, dinheiro colocado pelo fundador e por investidores-anjo. Em 2018, mais dois investidores-anjo aportaram 400 mil reais.

Em 2019, Fábio começou a licenciar a ISGame. O licenciado paga uma primeira taxa de 5 mil reais, que inclui o acesso ao software e o treinamento, e mensalidade de 600 reais. Já são cinco unidades licenciadas: duas no Rio de Janeiro, duas em São Paulo e uma em Jundiaí (SP).

O próximo passo é desenvolver um videogame para celular — aposta do empreendedor para escalar o negócio. Em desenvolvimento na fase 2 do Pipe, o projeto recebeu aporte de 800 mil reais e deve estar pronto até setembro de 2020.

 

MaturiJobs

A MaturiJobs é uma plataforma de vagas de emprego para o público acima de 50 anos, que pode se cadastrar gratuitamente. Criada em 2016, a startup tem 100 mil cadastrados e já empregou 1 300 pessoas. Cerca de 900 empresas já fizeram usaram a plataforma, pagando uma mensalidade de 129 reais para ter suas vagas anunciadas.

O empreendedor Mórris Litvak criou a MaturiJobs com um investimento inicial de 600 mil reais. Ele se inspirou na sua avó, que aos 82 anos ainda atuava como tradutora — mas, depois de cair na rua, parou de trabalhar e teve um declínio na saúde.

Ao mesmo tempo em que vivia isso na família, Mórris começou a notar o grande número de pessoas acima de 50 desempregadas e ainda precisando trabalhar — ou simplesmente com vontade de continuar na ativa. E “ligou os pontos”.

“Vi uma oportunidade de negócio, porque ninguém estava olhando para esse cenário. E também uma oportunidade de impacto social, já que a população brasileira envelhece muito rápido”

Na MaturiJobs, os idosos participam de cursos e workshops para se atualizar e entender novas possibilidades de trabalho e até de empreendedorismo.

A MaturiJobs oferece ainda serviços de seleção (que custa entre um salário mínimo e um salário e meio), consultoria (5 mil a 15 mil reais) e cursos (de 100 a 1 500 reais), que ajudam o público sênior a se atualizar. Em outubro, a empresa começou a testar o MaturiServices, uma plataforma pela qual pessoas acima de 50 oferecem serviços como autônomo e freelancers (a MaturiJobs cobrar uma taxa sobre as transações).

Com sede em São Paulo, a startup tem hoje dez funcionários e vai fechar 2019 com faturamento de 700 mil reais. No ano que vem, os cursos voltados ao público sênior vão ganhar uma plataforma de assinatura, batizada de MaturiAcademy. Para Mórris, o mercado só tem a ganhar com a diversidade etária.

“Os 50+ são pessoas comprometidas, responsáveis, com uma inteligência emocional forjada na experiência profissional e na pessoal. Em geral, eles conseguem lidar melhor com problemas e crises e trazem equilíbrio. Não são ‘melhores’ do que os jovens, mas complementares.”

 

Mys Senior Design

Fundada em 2017, a Mys Senior Design desenvolve projetos de arquitetura focados no envelhecimento. A mineira Flávia Ranieri, 43, arquiteta com pós em gerontologia, está à frente do negócio. A ideia surgiu enquanto ela se questionava sobre que adaptações poderiam ser feitas na casa deles para prolongar a independência e a qualidade de vida dos seus pais.

Flávia diz que se deu conta de que o mercado de arquitetura e design focado no envelhecimento prestava mais atenção apenas a saúde, segurança e acessibilidade (pense em barras no banheiro e portas mais largas). Faltavam a opções que aliassem também conforto, beleza, funcionalidade, design. Seus projetos arquitetônicos pretendem combinar esses fatores.

“Os idosos sempre me dizem que tudo que encontram para colocar em casa e melhorar a vida é feio. Eles olham e logo associam com hospital e doença. Aí preferem não colocar para não se sentirem frágeis”

A arquitetura da longevidade leva em conta não apenas os quesitos de segurança, mas também a praticidade, o conforto e a beleza dos ambientes (foto: Rafael Renzo).

A arquitetura da longevidade leva em conta não apenas os quesitos de segurança, mas também a praticidade, o conforto e a beleza dos ambientes (foto: Rafael Renzo).

A Mys faturou 103 mil reais em 2019. Seus principais clientes são residenciais para idosos e ILPIs (Instituições de Longa Permanência para os Idosos). Nesse tipo de empreendimento, o maior desafio, segundo a arquiteta, são as áreas de convivência e suas demandas específicas. A ergonomia dos móveis, por exemplo, deve atender a diversos biótipos; a acústica tem de absorver com eficiência os ruídos (para que os idosos possam se ouvir); a iluminação precisa ser suficiente para facilitar a leitura.

A empreendedora também presta consultoria a projetos de arquitetura com foco no envelhecimento. Além disso, desenvolveu recentemente uma linha de mobiliário focada no público sênior. Apresentados na Feira da Longevidade, os móveis vão estar à venda na loja L’oeil, em São Paulo, em 2020. O sofá, por exemplo, tem regulagem de altura, menor profundidade e espuma mais rígida.

“O que eu faço é entender as limitações deste público e dar o suporte para que eles continuem ativos”, diz Flávia.

 

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