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Quem acompanha o ecossistema de negócios de impacto no Brasil sabe que a distância entre uma solução inovadora e a sua adoção pelo poder público é, na maioria das vezes, medida em reais — não em ideias, não em capacidade técnica, não em vontade política.
Há alguns meses, o Impact Hub Brasil e a Ibirá começaram a trabalhar juntos a partir de uma constatação incômoda: de um lado, governos enfrentando demandas sociais e ambientais urgentes; do outro, startups e negócios de impacto com soluções ágeis e eficazes para exatamente esses problemas. E no meio, um vácuo
Não um vácuo de conexões. O Impact Hub Brasil — rede global presente em mais de 130 cidades, em 65 países —, também executa há anos programas de de Inovação Aberta, que reduzem a assimetria de informações entre empreendedores e gestores públicos, mapeando desafios e conectando com soluções inovadoras disponíveis.
Na Ibirá, anos de convívio com empreendedores de negócios de impacto tentando vender soluções para o setor público apresentaram repetidamente o mesmo desafio. Não se trata de um vácuo regulatório, tampouco: o Marco Legal das Startups e as Compras Públicas de Soluções Inovadoras (CPSI) representaram avanços reais nessa direção.
O vácuo que encontramos — e que nenhum desses avanços ainda resolveu — é financeiro.
Os dados do sistema financeiro confirmam o que observamos no campo. Segundo o Relatório de Economia Bancária 2023 do Banco Central, mais de 77% dos ativos de crédito estão concentrados em empresas com mais de dez anos de existência. Empresas com até um ano de vida recebem menos de 1,5% do crédito disponível.
Quando se olha para o porte, o retrato é igualmente desigual: grandes e médias empresas concentram cerca de 80% do crédito para pessoas jurídicas, enquanto micro e pequenas empresas — responsáveis por cerca de 60% dos empregos formais no Brasil, de acordo com dados do CAGED 2024 — ficam com menos de 20% do total. Ou seja, as mais velhas e maiores têm mais chance de obter crédito.
O dado mais revelador, porém, está na inovação. Pesquisa da US Small Business Administration (2013) demonstra que empresas jovens geram em média 1,2 citação de patente por milhão de dólares investidos em P&D — mais que o dobro das empresas estabelecidas, que chegam a 0,53 citação para o mesmo valor.
Em outras palavras: o mercado de crédito bloqueia o acesso a capital exatamente de quem tem o maior potencial inovador
Para os negócios de impacto, esse cenário é ainda mais agudo. De acordo com o Mapa de Negócios de Impacto 2023, produzido pela Pipe Social, 41% dos empreendedores de impacto apontam o acesso a capital como sua principal demanda — à frente de qualificação de equipe, canais de distribuição e regulação.
Ao longo do nosso estudo, diversas entrevistas foram realizadas com empreendedores de negócios de impacto que já venderam ou vendem para o poder público. Vários gargalos foram narrados, dentre eles a complexidade dos processos de compra por parte do poder público e a necessidade de capital de giro para financiar o funil de vendas para o setor público.
“Como empresa de impacto social, atingir escolas públicas é muito importante para a Estante Mágica. No entanto, não é nada trivial para uma empresa de médio porte atravessar um processo de compras públicas. Começa na própria licitação, que muitas vezes abre caminho para aventureiros, iniciativas sem qualidade que copiam o modelo e sem compromisso com impacto social, especialmente porque não consideram estes elementos no processo decisório.”
Robson Melo, cofundador e diretor da Estante Mágica.
“De maneira geral, o gargalo financeiro que temos é a restrição de recursos para crescimento do time de vendas. Como o prazo de contratação é longo, o prazo de recebimento também é longo e, no nosso caso, os pagamentos são mensais, o investimento em time de vendas leva tempo para ser recuperado.”
Rodolfo Fiori, CEO da Gove.
Os dados e os testemunhos acima fazem parte dos achados de um estudo realizado por nós com o apoio do BID Lab sobre os gargalos que travam a inovação no setor público brasileiro. Para além do diagnóstico, o resultado é a proposta de estruturação de um veículo de crédito de até R$ 100 milhões, dedicado a financiar soluções inovadoras voltadas ao poder público.
A estrutura baseia-se em blended finance: uma combinação de capital catalítico — capaz de absorver as primeiras perdas e reduzir o risco percebido pelo mercado — com capital comercial, voltado à ampliação de escala.
Não se trata de subsídio: trata-se de uma engenharia financeira que viabiliza o encontro entre risco real e apetite de investidores, dentro de uma lógica sustentável
As entrevistas realizadas ao longo do estudo confirmam que já existe massa crítica de projetos e empreendedores para sustentar a criação do fundo. Ele pode se tornar o primeiro veículo financeiro dedicado exclusivamente ao financiamento da inovação voltada ao setor público no Brasil.
Um diferencial relevante do modelo é a integração com os programas de inovação aberta conduzidos pelo Impact Hub. Isso significa que o fundo não operará como um agente financeiro isolado: operará a partir de uma rede viva de empreendedores, programas de aceleração e demandas reais do setor público — o que qualifica a originação e contribui para a mitigação do risco de crédito.
Na prática, o fundo permitirá a uma empresa inovadora financiar o ciclo operacional necessário para executar um contrato com o poder público — do início da entrega ao recebimento efetivo do pagamento governamental ou para além dele, dependendo do perfil de crédito do mutuário.
É o tipo de solução que parece técnica, mas tem consequências concretas: mais empresas conseguem escalar, mais soluções chegam ao setor público, mais eficiência é incorporada aos serviços prestados à população
Inovar no setor público exige três condições simultâneas que raramente coexistem no Brasil: segurança para o gestor público, que precisa de critérios claros e processo confiável; fôlego para o empreendedor, que precisa executar antes de receber; e governança adequada para o investidor, que precisa de estrutura e mitigação de risco. Este fundo foi desenhado para atacar essas três dimensões ao mesmo tempo.
A fase de estudos está concluída. O que buscamos agora são parceiros institucionais e investidores dispostos a co-construir esse veículo com a gente — que acreditem, como nós, que estruturas financeiras bem desenhadas podem acelerar o desenvolvimento de soluções que tragam ganhos reais de eficiência ao setor público e benefícios concretos para a sociedade.
Não faltam problemas urgentes a resolver. Não faltam empreendedores capazes de resolvê-los. O que tem faltado é o elo financeiro que torne esse encontro possível — e sustentável. É para isso que estamos trabalhando.
Luciano Gurgel é sócio-fundador da Ibirá Negócios Sociais, consultoria financeira especializada em negócios e investimentos de impacto.
David Borges integra a diretoria do Impact Hub Brasil, parte de uma rede global que conecta mais de 100 mil empreendedores em mais de 65 países, com programas de aceleração, inovação aberta e conexão sistemática entre negócios de impacto e o setor público e privado.
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