O Instagrafite enfrentou a separação dos sócios e mudou seu foco para a produção e curadoria de arte urbana

Leonardo Maran Neiva - 10 out 2019
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Para onde vai o negócio quando o sócio é o seu marido ou a sua esposa — e o casamento acaba? Esse foi o dilema enfrentado no ano passado por Marina Bortoluzzi, 36, e Marcelo Pimentel, 37, criadores do Instagrafite.

O Instagrafite saiu pela primeira vez no Draft em dezembro de 2014 (clique para ler).

O projeto nasceu em 2011 como um perfil de Instagram criado por Marcelo para compartilhar sua paixão pela arte urbana. Logo, Marina, então sua namorada, embarcou na administração do canal (que hoje tem 1 milhão de seguidores). Com o tempo, o Instagrafite virou  totalmente colaborativo, com o casal fazendo apenas a curadoria do conteúdo.

Quando contamos a história da empresa, no finzinho de 2014, a venda de mídia no perfil do Instagram para a cobertura de eventos de arte urbana respondia pela maior parte da grana que entrava no negócio. Marina diz:

“O que mudou nos últimos cinco anos é que hoje o nosso papel principal é com produção e curadoria de projetos e eventos de arte urbana. Continuamos postando nas nossas mídias, mas elas não têm a mesma força dessa área”

A produção e a curadoria, que eram fontes secundárias de receita, se tornaram o ganha-pão. A mudança se deu pela demanda do mercado, com agências e marcas procurando o Instagrafite para tocar projetos. Com isso, o faturamento chegou a R$ 780 mil nos primeiros nove meses de 2019 (contra um total de R$ 120 mil em 2014).

A LISTA DE PROJETOS INCLUI A BIENAL DE MOSCOU E UM MURAL NO MINHOCÃO

Um dos primeiros grandes projetos da dupla com produção e curadoria rolou em 2015, quando o Instagrafite co-criou, com parceiros, o O.bra, festival pioneiro em arte urbana no Brasil. O evento espalhou por ruas e muros de São Paulo obras de artistas nacionais, como Speto, e internacionais, entre eles o porto-riquenho Alexis Diaz e a dupla alemã Herakut.

No ano seguinte, a dupla Marina e Marcelo encarou voos internacionais, cuidando da curadoria da Artmossphere, bienal de arte urbana de Moscou, e da mostra inaugural do Urban Nation, em Berlim, museu do qual o Instagrafite integra a equipe curatorial.

Empreitadas mais recentes foram o Nu Festival, em 2017, que engajou gente como a muralista colombiana Gleo, o ilustrador gaúcho Renan Santos e o Coletivo Muda, do Rio, para produzir obras pelo bairro paulistano de Pinheiros (onde fica a sede do Nubank, apoiador do evento); e o mural de temática LGBTQIA+ patrocinado pela Absolut que coloriu por dois anos a empena cega de um edifício junto ao Minhocão.

SUAVE, A TRANSIÇÃO APÓS O FIM DO CASAMENTO NÃO ATRAPALHOU OS NEGÓCIOS

Em 2018, com a separação do casal idealizador (após cerca de oito anos de relacionamento), surgiram incertezas sobre os rumos da empresa. “Quando a gente estava ‘dentro do furacão’, houve muita dúvida, porque a companhia estava toda costurada com meu marido”, diz Marina. “Havia uma angústia no sentido de que o Instagrafite poderia ser encerrado.”

Apesar da turbulência causada pelo fim do casamento, os dois optaram por manter a empresa. O resultado, de acordo com Marina, tem sido bastante positivo. Segundo ela, o foco de ambos no projeto aumentou, assim como os horizontes criativos da dupla.

“Tanto nosso perfil quanto nossa empresa eram muito pautados pelo ‘casal Instagrafite’, mas conseguimos fazer a transição de maneira suave, sem afetar nossos clientes e artistas. Alguns, inclusive, só ficaram sabendo da separação muito tempo depois”

A separação teria dado liberdade para que cada um encontrasse as funções mais adequadas dentro da empresa. Marina, que em sua carreira na publicidade trabalhou com planejamento e tendências, optou por atuar na pré-produção, na relação com os artistas e cocriação de ideias. E Marcelo, ex-diretor de arte em agências, ficou responsável pela produção propriamente dita e pela captação de imagens dos projetos realizados pelo Instagrafite.

CURADORIAS RECENTES: ARTE EM JANGADAS DE FORTALEZA E NO METRÔ DE SP

O Instagrafite trabalha hoje com arte contemporânea, afirma Marina, o que engloba não apenas o grafite, mas também instalações, esculturas e performances, entre outros gêneros. Parte da missão é promover o intercâmbio entre artistas que nasceram no cenário urbano e os contemporâneos que ainda não atuaram nas ruas.

O ex-casal em Fortaleza, para o festival Além da Rua: uma das instalações era composta de pinturas nas velas de 15 jangadas.

Quando conversamos por telefone com Marina, o ex-casal estava em Fortaleza cuidando da curadoria do festival Além da Rua, no qual uma das instalações foi lançada ao mar, com pinturas feitas nas velas de 15 jangadas, enfeitando o horizonte da capital cearense. Uma das artistas que participaram do evento foi a paulistana Estela Miazzi, conhecida por suas obras com baleias, e que nunca havia pintado na rua antes.

Outra ação recente com curadoria do Instagrafite é a galeria de arte The Good Gallery, ainda em exibição na estação de metrô Consolação, na capital paulista. O espaço (uma ação promocional da série The Good Doctor, do canal Sony) expõe trabalhos originais de artistas contemporâneos. A ilustradora Priscila Barbosa teve a obra mais compartilhada da galeria e ganhou a chance de expor no metrô uma nova imagem, retratando o protagonista do seriado.

UMA AÇÃO PARA A NIKE LEVOU O GRAND PRIX EM CANNES NA CATEGORIA DE MÍDIA

Há cinco anos, a equipe era formada apenas pelos dois sócios. O quadro de funcionários fixos continua bastante enxuto: hoje, há apenas três contratados, mais a mãe de Marina, que segue auxiliando na parte financeira. O objetivo é que a empresa funcione de forma híbrida, trazendo profissionais de acordo com a demanda do mercado e os projetos a serem realizados.

O modelo parece estar dando resultado. Neste ano, uma ação da empresa para a Nike, no escopo de uma campanha da agência AKQA em parceria também com a produtora Zohar Cinema, levou o Grand Prix, prêmio máximo do Cannes Lions, na categoria de mídia.

Na ação, artistas grafitaram imagens dos novos modelos do tênis Air Max pelos muros de São Paulo. Os consumidores precisavam se posicionar diante das pinturas para, usando a câmera dos celulares, desbloquear a compra do produto no e-commerce da marca.

“Ganhamos o principal prêmio do mercado publicitário colocando a arte de rua como uma mídia. Graças a isso, tivemos um grande reconhecimento dentro do meio publicitário brasileiro. Muitas pessoas vieram nos procurar por causa do prêmio”

Lá atrás, em 2014, a dupla tinha planos de se mudar para fora do Brasil. Mesmo com a separação, a vontade permanece, como conta Marina:

“Hoje temos grandes oportunidades em São Paulo, é um mercado muito rico. Mas ainda há um preconceito por estarmos aqui, não somos considerados uma empresa internacional. Existe esse viés de que é uma empresa brasileira, sendo que já atuamos em outros países.”

COM NOVOS PROJETOS EM ANDAMENTO, A META AGORA É BUSCAR INVESTIDORES

Marina afirma que o mercado da arte urbana hoje está muito mais aquecido, mas espera uma queda no futuro. “Como sempre trabalhei com tendências, procuro olhar lá na frente. Observo o que deve acontecer para nos moldarmos e continuarmos acompanhando esse mercado.”

A busca de investimentos está entre os próximos passos do Instagrafite. O desafio é superar a dificuldade de mensurar o retorno financeiro de atividades ligadas à mídia e curadoria. Hoje, Marina e Marcelo trabalham numa iniciativa, ainda secreta, de um novo empreendimento que gere um retorno financeiro concreto, dando maior confiança a investidores.

Outro projeto, idealizado por Marina, que em breve entrará sob o guarda-chuva do Instagrafite é a criação de uma “subsidiária” de cursos e experiências integrando arte e espiritualidade, com a proposta de contribuir para o autoconhecimento dos participantes.

“Como seres humanos, nós mudamos, e isso faz com que a empresa mude conosco. Sinto que o Instagrafite é muito mais modular do que um ponto final para aquilo que queremos realizar.”

 

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