Como o Mapas Afetivos, que conta a história da cidade pelos seus lugares, evoluiu e se tornou colaborativo

Daniela Paiva - 22 jan 2015 Felipe Lavignatti e Andre Deak, criadores do Mapas Afetivos
Felipe Lavignatti e Andre Deak, criadores do Mapas Afetivos.
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Dois caras saem de uma reunião. O calor está como o desses primeiros dias de janeiro na capital paulista. De rachar a cuca. O encontro não foi lá muito animador, e os dois se sentam num bar, pedem uma cerveja, conversam à tôa até que… Plim! Surge uma ideia. Foi mais ou assim que nasceu o projeto Mapas Afetivos, desenvolvido por André Deak e Felipe Lavignatti, do Liquid Media Laab, um hub de trabalhos em comunicação digital. O lançamento oficial do projeto será no próximo dia 25 de janeiro, não por acaso, a data que marca mais um aniversário de São Paulo – o de 461 anos.

No ar em fase beta desde outubro de 2014, o Mapas Afetivos consiste em criar um mapa baseado na relação entre os lugares e as pessoas, contando as histórias e os entrelaçamentos afetivos de celebridades e não-celebridades, gente como a gente, pela cidade de São Paulo. Com o lançamento oficial, a plataforma passa a ser colaborativa — e qualquer um poderá acrescentar um ponto ao mapa, com histórias, fotos, vídeos e conteúdos diversos. Sabe aquele papo de narrativa transmídia, de desdobrar uma história em diferentes plataformas e formatos? É isso aí. Se quiser mergulhar mais no tema, releia nosso papo com o Sergio Lopes, da Conteúdo Diversos.

Na primeira fase do projeto, 10 histórias registradas em vídeo rechearam o site, que propõe a navegação por meio de um mapa estilizado da cidade. Os lugares que aparecem nas entrevistas ficam marcados – pinados, digamos assim. Vão de bairros a lugares específicos: Limão, Praça Buenos Aires, Teatro Oficina, Trianon, Alameda Campinas, e, obviamente, a Avenida Paulista até os inusitados Vila Clara e Sarau da Cooperifa. Cada lugar está ligado a um causo, que também é dividido em categorias que permitem outro tipo de percurso: infância, amor, família, adolescência, deslocamento, poesia e saudade.

São relatos charmosos e que se conectam com tribos que frequentam as áreas urbanas (ou nem tão urbanas assim), como os de Baixo Ribeiro, da Choque Cultural, e das cantoras Karina Buhr e Tulipa Ruiz. Tulipa relembra um início de namoro no finado Ecléticos, um bar “bem peculiar, frequentado por todos os seres da (rua) Augusta… Porque a Augusta tem seres, de várias espécies”, diz ela.

Home do Mapas Afetivos antes da nova aba

Home do Mapas Afetivos, em fase beta, antes da nova aba colaborativa.

Tudo a ver, sim, com aquela provocação da música do Criolo, “Não Existe Amor em SP”, e que virou movimento, festa, inspirou artistas, e evoca sentidos como a preservação da memória e a identidade. “Vem nesse contexto de olhar a cidade com outros olhos”, diz André Deak, 36, que explica a proposta do seu projeto.

“Normalmente as pessoas odeiam São Paulo. A ideia é tentar enxergá-la com um olhar um pouco mais afetivo”

O lançamento oficial apresenta a segunda fase, na qual estreia a seção colaborativa do Mapa. Agora, qualquer pessoa pode inserir uma foto de um lugar que lhe desperte emoções. Basta publicar a imagem no Instagram com a hashtag #mapasafetivos.

Para inaugurar a nova etapa, o Mapas Afetivos promove uma oficina de serigrafia em parceria com o coletivo SHN no Armazém da Cidade, na Vila Madalena (Rua Medeiros de Albuquerque, 270), das 14h às 17h, neste domingo. Com entrada gratuita e 30 vagas, o objetivo da iniciativa é ensinar os participantes a produzirem adesivos com as categorias mapeadas pelo projeto (família, infância, amor, etc), e depois incentivá-los a colarem suas produções pela cidade, postando as fotos com a hashtag #mapasafetivos.

Um detalhe importante dessa nova seção, que dá a largada com a missão adesivadora, é que o mapa em si, na plataforma digital, agora ultrapassa as fronteiras de São Paulo. Passa a ser global. E o objetivo é dominar o mundo – ou melhor, contar as histórias desse mundão afora.

COMO COLOCAR UMA IDEIA EM PÉ

Assim que tiveram a ideia de criar uma plataforma digital para mapear lugares e histórias da cidade — aquela cena do calorão, lá em cima, e que aconteceu em 2012, no Guarujá — André e Felipe inscreveram o projeto no Programa de Ação Cultural – ProAC, da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo, em busca de patrocínio estimulado pelas leis de incentivo. Aliaram-se ao Project Hub e conseguiram o patrocínio da TriFil, marca de moda íntima.

Com 90 mil reais, o que representa 30% do custo total do projeto, André e Felipe deram os primeiros passos no Mapas Afetivos. Convidaram os 10 primeiros perfilados para fazer os registros em vídeo – todos amigos ou pessoas presentes em suas redes de contato. Entre maio e agosto de 2014, gravaram as entrevistas e desenvolveram o site, que estrearia em outubro.

Dentre as várias parcerias para essa etapa, duas foram fundamentais: a dobradinha com a Garapa, que cuidou de toda a parte audiovisual, e com a Elemidia, de mídia ditigal out of home. A associação à empresa mais conhecida como transmissora de conteúdo de elevador resultou em pílulas de 10 segundos das histórias veiculadas em uma rede com alcance de 20 milhões de pessoas.

Baixo Ribeiro, da Choque Cultural, conta sobre o seu grande encontro de amor e seus espaços pela cidade - entre eles, a Serra da Cantareira

Baixo Ribeiro, da Choque Cultural, conta sobre o seu grande encontro de amor e seus espaços pela cidade – entre eles, a Serra da Cantareira.

Nesta nova fase, o objetivo é expandir as ações do Mapas Afetivos, captando mais 250 mil reais para o desdobramento do Mapas Afetivos em outros produtos, como um aplicativo e um documentário. Como falamos, um dos objetivos é levar o projeto para outras cidades, firmando parcerias locais. Recentemente, André esteve em Brasília para proferir uma oficina no CCBB, à convite de um projeto chamado Retrato Brasília, que faz um mapa cultural da cena da capital.

“O projeto tem muito potencial turístico. É uma forma de vender a cidade não pelo óbvio, não pelo Masp… É por onde as histórias de amor, de poesia, de saudade, acontecem. As cidades geralmente não trabalham isso. Pensam mais no local, e não nas pessoas”, afima Felipe.

Em termos de receita, por enquanto ela se limitou ao patrocínio da TriFil, que viabilizou a ideia, e o tiro inicial. Felipe acredita que a forma de tornar o Mapas Afetivos autossustentável seja via patrocínio mesmo. “Nosso plano é ampliar o projeto. Quanto mais banco de dados, mais possibilidade de criar subprodutos e fazer novas conexões”, diz ele.

UM ZOOM PELA ORIGEM DE TUDO ISSO

Felipe e André são jornalistas. Atuaram bastante na área antes de enveredarem para novas plataformas e o negócio de narrativa transmídia. Nascido em Jundiaí, Felipe trabalhou em TV, rádio, jornal e revista. Boa parte de sua trajetória no jornalismo ocorreu na Agência Estado e no Estadão. Ele foi um dos responsáveis pela elaboração do conteúdo multimídia do portal da organização, trabalhando com infografia, edição de vídeo, áudio.

Já André passou pela Fulano, site de entretenimento que deu origem à agência F.Biz, criou um coletivo de jornalismo, morou em Londres e começou a mergulhar no mundo digital em Brasília, na antiga Radiobrás (hoje EBC, Empresa Brasil de Comunicação, que gerencia canais como a Agência Brasil). Ele trabalhou por lá de 2004 e 2008 como editor multimídia, e foi responsável pela integração das áreas.

Os dois se encontraram na Casa da Cultura Digital, um hub de projetos digitais que tinha como um dos clientes a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), mais especificamente no CPFL Cultura, uma espécie de instituto com atuação similar ao do Itaú Cultural. Uma das ações, por exemplo, era a produção do Café Filosófico, transmitido pela TV Cultura.

Daí André e Felipe começaram a trabalhar juntos por conta de um contato amigo e a desenvolver outros projetos. O primeiro deles, o Arte Fora do Museu, inaugura esse modelo de ideias de georreferenciamento ao mapear obras de arte (grafite, escultura, arquitetura e mural) em espaços públicos. Surgiu em 2011, segue até hoje – há planos e novidades para este ano – e, de certa maneira, serviu de molde para o Mapas Afetivos.

Hoje, tanto o Arte Fora do Museu quanto o Mapas Afetivos fazem parte do Liquid Media Laab, o voo solo da dupla em projetos transmídia, que utiliza as mais diversas ferramentas para contar histórias. “Temos chamados isso de experiências narrativas”, diz André. “Nos parece muito mais interessante contar as histórias dessa maneira. As pessoas se envolvem muito mais.” E você? Está pronto para acrescentar um ponto especial no Mapa Afetivo da sua cidade?

draft card MAPAS

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