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Durante anos, ter impacto positivo foi um diferencial competitivo. Empresas que integravam impacto socioambiental à estratégia eram vistas como pioneiras, inovadoras e, muitas vezes, disruptivas.
Em 2026, esse cenário vem mudando de patamar: os consumidores estão mais conscientes e o propósito deixa de ser atributo opcional, passa a ser exigência básica para competir em mercados cada vez mais exigentes e transparentes.
Não se trata apenas de reputação. Trata-se de modelo de negócio.
Entraram em vigor neste ano os novos padrões globais da Certificação de Empresa B™, iniciativa do B Lab que reconhece organizações comprometidas em gerar impacto positivo para a sociedade e o meio ambiente. A atualização amplia significativamente o rigor e a clareza do que significa usar os negócios como força para o bem.
Essa evolução não acontece no vácuo. Ela dialoga diretamente com o avanço de regulações internacionais, especialmente na Europa, que vêm elevando o nível de exigência sobre transparência, rastreabilidade e combate ao greenwashing
A própria Diretiva da União Europeia sobre o Empoderamento dos Consumidores para a Transição Verde, que entra em vigor em setembro de 2026, pressiona empresas a comprovarem suas alegações ambientais com evidências auditáveis.
O mundo está dizendo, de forma inequívoca: boas intenções já não bastam.
Desde o lançamento da Certificação como Empresa B, que neste ano completa 20 anos, os padrões já passaram por seis atualizações. Essa capacidade de revisão contínua faz parte do nosso DNA porque os desafios e exigências também se transformam.
No modelo anterior, as empresas precisavam atingir ao menos 80 pontos em uma avaliação distribuída em cinco áreas: Governança, Trabalhadores, Comunidade, Meio Ambiente e Clientes. Agora, a lógica mudou.
Os novos padrões substituem a dependência majoritária de pontuação por uma arquitetura estruturada de requisitos obrigatórios, distribuídos em sete Tópicos de Impacto: Propósito e Governança de Stakeholders; Trabalho Justo; Justiça, Equidade, Diversidade e Inclusão; Direitos Humanos; Ação Climática; Gestão Ambiental e Circularidade; e Assuntos Governamentais e Ação Coletiva.
Além disso, permanecem os Requisitos Fundamentais, como elegibilidade legal, compromisso formal com a governança de partes interessadas e avaliação de riscos ao longo da cadeia de valor. As empresas precisam comprovar materialmente o cumprimento dos critérios e passam por auditoria independente conduzida por prestadores de serviços de garantia aprovados pelo B Lab.
Isso garante imparcialidade, alinhamento às melhores práticas globais e convergência com regulações internacionais emergentes
Mais importante: a certificação deixa claro que não é um ponto de chegada. As empresas devem cumprir metas progressivas no Ano 0, Ano 3 e Ano 5, dentro de um ciclo de melhoria contínua. O número de sub-requisitos varia conforme porte, setor e localização, podendo ir de 20 a 124 critérios adicionais.
Em outras palavras, o compromisso precisa evoluir junto com os desafios do planeta.
Vivemos um momento paradoxal. O termo ESG se popularizou, mas também passou a conviver com ceticismo crescente. Consumidores, investidores e reguladores estão mais atentos ao risco de greenwashing.
Nesse contexto, padrões robustos, verificáveis e auditáveis passam a ser instrumento de proteção reputacional.
Dados do B Lab Global mostram que Empresas B em mercados desenvolvidos têm 8,1 vezes mais probabilidade de compensar integralmente suas emissões de gases de efeito estufa do que empresas tradicionais. Também apresentam 49% mais chances de oferecer transparência sobre a origem de seus fornecedores.
Esses números revelam algo essencial: negócios que internalizam impacto em sua estratégia tendem a ser mais preparados para o ambiente regulatório e mais resilientes às pressões do mercado. Competitividade, hoje, é também capacidade de gerar valor compartilhado
O Brasil conta com a atuação de mais de 500 Empresas B Certificadas, entre grandes empresas como Natura, Movida, Grupo Azzas 2154 (Hering, Reserva, Arezzo, Farm, entre outras marcas), Danone, Nespresso, Dengo Chocolates, Baterias Moura e outras centenas de micro e pequenas empresas presentes nos quatro cantos do país. Isso demonstra que o compromisso com impacto é uma decisão estratégica, independente do porte da organização.
Estamos trabalhando com mais de 10 mil Empresas B ao redor do mundo para capacitá-las na transição aos novos padrões, com uma agenda estruturada até 2028. A transformação é global e irreversível.
O ano de 2026 marca um ponto de inflexão. Reguladores exigem comprovação. Consumidores exigem transparência. Investidores exigem governança. Talentos exigem coerência. Nesse cenário, propósito deixa de ser diferencial competitivo e se torna requisito mínimo de legitimidade.
Em março, mês em que celebramos as Empresas B, a pergunta que se impõe aos líderes empresariais é: sua empresa está preparada para operar em um ambiente em que responsabilidade socioambiental é condição básica de mercado?
O futuro da economia será inclusivo, equitativo e regenerativo — ou simplesmente não será.
Cinthia Gherardi é administradora formada pela ESPM, com pós-graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sustentabilidade e Estratégia Climática pela FGV. Hoje, é co-CEO do Sistema B Brasil e é responsável pela estratégia de Crescimento, Inovação e Advocacy do Movimento B no país.
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