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Rodrigo V. Cunha, da Profile: “A jornada da sustentabilidade é imperfeita. Se as empresas não tiverem abertura para evoluir, fica difícil”

Dani Rosolen - 8 set 2026 Rodrigo V. Cunha, fundador da Profile.
Rodrigo V. Cunha, fundador da Profile.
Dani Rosolen - 8 set 2026
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Em meados de agosto, a Profile anunciou seu novo posicionamento: de agência de relações públicas para consultoria de reputação e impacto. 

A mudança, como compartilha o CEO Rodrigo V. Cunha, não representa uma ruptura, mas a consolidação de uma trajetória construída ao longo de 13 anos.

“Mais do que uma comunicação estratégica, queremos focar em uma atuação estratégica. Fomos construindo pilares – PR, agência e, agora, consultoria. Não quer dizer que a gente não vá mais fazer algumas atividades que são core de agência ou PR. A gente continua fazendo e esse é justamente o nosso diferencial”

Para ele, a mudança acompanha as transformações do mercado. Se, quando a Profile surgiu, eram poucas as empresas que tratavam sustentabilidade de forma estruturada, hoje o tema se espalhou — nem sempre com a mesma profundidade. 

“Quem nos procura já sabe que nosso trabalho é sério, então se for uma empresa que quer apenas gerar buzz, provavelmente nem venha atrás de nós porque vamos fazer perguntas e as respostas não vão parar em pé”, diz Rodrigo.

“Sempre digo que queremos trabalhar com a nossa turma, pessoas e empresas que entendem a gravidade da emergência climática e querem atuar pela regeneração.”

QUANDO ELE DECIDIU EMPREENDER, O CHEFE VIROU SEU PRIMEIRO CLIENTE

A relação de Rodrigo com a pauta da sustentabilidade vem de antes da Profile existir. Como jornalista, ele cobriu por anos o tema na revista Você S.A., da editora Abril. Até que, em 2003, foi convidado a comunicar as estratégias de sustentabilidade do Banco Real.

“Eles estavam construindo essa área há três anos e vi que havia muita seriedade e ótimo embasamento. Então, topei fazer parte do time”

Rodrigo permaneceu no banco por oito anos. Quando decidiu empreender, contou sobre a decisão a Fábio Barbosa, presidente do banco que há pouco havia deixado o cargo para assumir o conselho e era chefe direto dele na época:

“Falei que queria montar um negócio para entregar o que eu já fazia ali para ele, com foco em comunicação para sustentabilidade, e o Fábio topou ser meu primeiro cliente.”

Os contratos iniciais ajudaram a confirmar sua aposta. “Os quatro primeiros clientes da Profile foram todos focados em sustentabilidade. Isso me deu coragem para continuar com essa visão. Foi uma aposta que desde o início se provou viável e continuei com ela até hoje.”

COMO A PROFILE E O MERCADO FORAM EVOLUINDO AO LONGO DOS ANOS

A Profile nasceu como uma agência de PR digital dentro da LiveAD. “Em 2013, ninguém sabia o que era PR, então falei para o meu sócio na época: ‘Vamos chamar de assessoria, aí todo mundo vai entender o que a gente faz’. Aí as coisas começaram a andar mais rápido.”

Ao longo do caminho, a empresa trabalhou com grandes companhias, marcas e organizações do terceiro setor que buscavam promover a agenda da sustentabilidade.

Em 2020, a Profile conquistou a conta do Mercado Livre, cliente até hoje, e começou a ampliar seu escopo. “Eles queriam que a gente fizesse mais do que imprensa, criasse narrativas e estratégias de engajamento.”

Com o despertar do interesse pela pauta ESG, a Profile passou a atuar em outras frentes e conquistou clientes como Renner, Nestlé e Natura. “Fomos nos estruturando cada vez mais com uma agência no sentido tradicional, mas sem deixar de lado a imprensa.”

A DEMANDA DOS CLIENTES GUIOU A MUDANÇA PARA ATUAR COM CONSULTORIA

Em 2023, Rodrigo já queria seguir o caminho de consultoria, mas o crescimento da agência naquele ano, com clientes como Itaú, Ambev e B3, exigiu atenção à operação. “Os trabalhos com parte desses clientes, no entanto, já tinha uma visão de consultoria”, afirma.

“A agenda da sustentabilidade precisa de estratégia e a comunicação é, muitas vezes, insuficiente do ponto de vista do que a gente pode oferecer para fazer a agenda avançar. Então, entendi que era importante ter esse pé bem firme em estratégias de impacto e sustentabilidade”

A mudança de atuação começou a aparecer em cases como o Bora Ambulantes, programa da Ambev para a valorização de vendedores informais no Carnaval de Salvador de 2025. A Profile participou do desenho estratégico do impacto, da articulação de stakeholders e da mobilização de parceiros. “Ajudamos a pensar o Bora desde o início. Não foi aquela coisa de fazer o projeto e depois chamar a comunicação.” 

A agência também foi procurada para criar a TED Countdown House, o espaço do TED na COP30, onde foram realizados cerca de 65 eventos.

“Ajudamos a escolher o melhor local da cidade e a selecionar fornecedores, artistas e chefs de Belém. Não era para ser uma casa onde o TED está fazendo um papo aleatório do Norte Global na COP, mas uma iniciativa que fosse abraçada pela Amazônia”

Na época da Copa do Mundo de 2026, a Profile idealizou a campanha Biomas FC, do Mercado Livre em parceria com a Dendezeiro, lançando uma coleção de seis camisas para dar visibilidade à biodiversidade brasileira e revertendo o lucro das vendas à rede Origens Brasil

Já para o Projeto Centenários, do Instituto Motiva, a Profile apoiou o desenvolvimento de exposições culturais na Linha 4 – Amarela do metrô de São Paulo. 

“Eles não nos pediram para comunicar essa ação, mas criar com eles. Inauguramos agora, em agosto, a exposição da Lina Bo Bardi na estação Fradique Coutinho. A proposta foi pensar como dar visibilidade à arte e ao talento dessa artista considerando que o canvas é estação de metrô.”

QUATRO FRENTES DE ATUAÇÃO QUE SE INTEGRAM

Foi nesse contexto que a Profile formalizou quatro frentes de atuação: transformar impacto em reconhecimento; conectar impacto a valor para o negócio; construir cultura de sustentabilidade; e aproximar os clientes do ecossistema de impacto.

Sobre a primeira, Rodrigo resume o desafio entre greenwashing e greenhushing: “O que a gente quer é ajudar essas empresas que querem comunicar, mas têm medo de errar a mão.” Para ele, transparência é essencial, ainda mais em casos de tropeços: “Gosto de trabalhar com pessoas e empresas que têm um livro aberto para que a jornada seja tratada de forma honesta”, diz. E complementa:

“A gente sabe que essa jornada da sustentabilidade é imperfeita, tem vários problemas. As empresas precisam evoluir o tempo inteiro, mas se não tiverem abertura para aprender e mudar, fica difícil”

Sobre a quarta frente, ele explica: “Por conta de todos esses projetos que a gente faz, temos conexões muito bacanas não só no Brasil, mas no mundo. Então, a gente mobiliza esse ecossistema sempre que precisa de algo especificamente, seja para um evento ou para conhecer alguma pessoa”. 

DO DISCURSO À PRÁTICA: A PROFILE CRIOU UMA ÁREA INTERNA DE SUSTENTABILIDADE

A agência já contratava consultores de sustentabilidade para testar as estratégias de comunicação construídas para os clientes e apontar problemas ou pontos cegos. Para reforçar esse rigor, criou uma área interna liderada por Laura Couto Peiter. Rodrigo afirma:

“Entendemos que ter esses especialistas dentro de casa, como parte do nosso core, seria muito importante tanto para os clientes quanto para a Profile em si. Precisávamos ter esse rigor para nós mesmos”

Essa coerência faz parte de outros compromissos da Profile, que desde 2019 é certificada como uma Empresa B, além de ser signatária do Pacto Global e membro da Ethical Agency Alliance, rede de agências que concordam em não trabalhar com clientes do setor de combustíveis fósseis.

A mesma lógica aparece em outra medida tomada em 2025: a equipe decidiu medir a pegada de carbono da própria operação. A partir desse inventário de emissões de gases de efeito estufa, a Profile neutralizou suas emissões por meio de créditos do CIKEL Brazilian Amazon REDD+ APD, projeto de conservação florestal que atua na preservação do bioma amazônico, em Paragominas, no Pará.

“É walk the talk, então como é que vamos falar uma coisa para nossos clientes se não fazemos ou não temos esse reconhecimento formal?”

ELE TEVE A IDEIA DE LEVAR O TEDXAMAZÔNIA A OUTROS PAÍSES DO BIOMA

Em 2009, quando ainda trabalhava no Real, Rodrigo conseguiu patrocínio do banco para o primeiro TEDx no Brasil, realizado em São Paulo. Ele se tornou embaixador da marca no Brasil e, em 2023, conseguiu articular o TEDxAmazônia, liderando sua curadoria e organização.

“Queria ajudar a transformar a narrativa da floresta, centrada apenas na destruição, em uma que desse protagonismo à proteção”

A primeira edição foi realizada em Manaus. A organização conquistou patrocínio do governo do estado para bancar a alimentação e hospedagem de 500 pessoas, incluindo moradores da periferia da cidade que puderam vivenciar um evento do tipo pela primeira vez. 

Em 2024, o TEDxAmazônia ocorreu novamente em Manaus; em 2025, foi a vez do Teatro da Paz, em Belém, receber a atração. “A gente convidou um palestrante de cada país da Amazônia e as pessoas se sentiram muito gratas em fazer parte dessa comunidade.”

A partir dessa experiência, Rodrigo teve a ideia de levar o evento para outros países do bioma. Com o aval da organização, foi atrás de recursos filantrópicos para realizar o TEDxAmazônia no Equador, o que aconteceu entre 30 de agosto e 3 de setembro. As atividades passaram por Baños e Puyo, conectando os Andes à floresta. “Convidamos 32 palestrantes de todos os países da Amazônia e também do Congo e da Indonésia, para conectar as três maiores florestas do mundo.” 

O plano é seguir de forma itinerante pelos países amazônicos, com novas edições em Belém, no ano que vem, na Colômbia, em 2028, e no Peru, em 2029, além de levar eventos menores para comunidades indígenas remotas, dando espaço às histórias de quem vive e protege esses territórios.

ALGUNS PASSOS PARA FRENTE E OUTROS, INFELIZMENTE, PARA TRÁS

A recepção ao novo momento da Profile tem sido positiva. “Já temos várias reuniões marcadas com clientes, ex-clientes e empresas que ainda não trabalharam com a gente querendo entender melhor nossa proposta.”

A mudança acontece em um contexto maior. Para Rodrigo, o ecossistema de impacto amadureceu, ganhou mais empresas, pessoas, instrumentos, apesar de alguns retrocessos. 

“Temos vivido altos e baixos, como a história da CVM que voltou atrás em relação à obrigatoriedade de divulgação dos reportes de sustentabilidade, ou a moratória da soja, que tinha sido um driver importante de queda de desmatamento, mas está mudando um pouco em relação ao que era originalmente.”

Rodrigo diz que sua sensação é um “misto de avançamos com falhamos”. E acima de tudo de que já podíamos ter começado a mudar antes.

“Desde a década de 1970, os ambientalistas estão falando que é preciso ouvir a ciência por causa dos impactos da mudança climática. E há sinais bem mais antigos: o [Alexander von] Humboldt, considerado o primeiro ecologista moderno, viu lá no Peru o impacto da agricultura humana na quantidade de água dos rios, no final do século 18”, destaca.

“É impressionante ver que sabemos disso há tanto tempo, mas não fizemos nada e continuamos sem fazer muita coisa. Pelo contrário, agora temos que lutar com negacionistas e ver essa agenda se confundindo. Como se cuidar do meio ambiente fosse uma pauta [apenas] da esquerda. Não deveria ser, porque todo mundo é impactado”

Para seguir trabalhando com a pauta, porém, é preciso manter a esperança ativa. “A gente já tem mais massa crítica, uma série de eventos, como São Paulo Climate Week, New York Climate Week, London Climate Week, Nairobi Climate Week… Outro dia um amigo brincou que vai ser um Climate Year. Isso é bom porque significa que tem muitas conferências falando sobre o tema”, diz. E resume sua percepção:

“Avançamos, mas ainda falta muito a avançar. E é por isso que acordo todo dia empolgado para trabalhar.”

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