Saiba como a PWTech quer levar água potável a 40 milhões de brasileiros com seu purificador portátil

Dani Rosolen - 23 nov 2020 Fernando e Maria Helena, cofundadores da PWTech, com o engenheiro Jadson Lima (no centro), do time da PWTech.
Fernando e Maria Helena, cofundadores da PWTech, com o engenheiro Jadson Lima (no centro), do time da PWTech.
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O Brasil detém quase 12% da água de todo o planeta. Mesmo assim, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, 40 milhões de brasileiros não têm acesso a água limpa.

Para transformar essa estatística absurda, empreendedores apostam na tecnologia.

A startup PWTech desenvolveu um equipamento, batizado de PW5660, capaz de descontaminar a água de rios, poços e lagoas, produzindo até 5 mil litros de água potável por dia — o suficiente para abastecer 100 pessoas, de acordo com a recomendação de consumo diário da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“O aparelho é uma caixa de 12 quilos, dentro tem um clorador de piscina e uma sequência de filtros particulados e membranas de ultrafiltração”, explica Fernando Silva, CEO e cofundador da PWTech (o “PW” vem de pure water).

A inovação, segundo ele, vem de três fatores: sua portabilidade, que permite o transporte a regiões remotas; o baixo custo de manutenção; e a variedade de tipos de energia (bateria, diesel, energia eólica, elétrica ou com uso de painéis fotovoltaicos) para seu funcionamento.

Os purificadores são produzidos sob demanda, na fábrica em São Carlos (SP). Desde o início da operação, em 2018, foram vendidas cerca de 150 unidades.

EM COLABORAÇÃO COM O AMBIENTE ACADÊMICO, ELES TIRARAM O PROTÓTIPO DO PAPEL

Engenheiro químico e administrador de formação, Fernando tem a seu lado, na startup, Maria Helena Cursino da Rocha Azevedo, também ela engenheira química, além de diretora comercial e cofundadora da PWTech.

Em uma empreitada anterior, Fernando desenvolvia uma estação de tratamento de esgoto para dois shoppings (o Parque das Bandeiras, em Campinas, e o Nova Iguaçu, no município fluminense), quando teve o estalo que deu origem à startup:

“Comecei a fazer contatos no exterior e a pensar em alternativas para esse mercado. Até que, um dia, um amigo que morava em Israel mostrou uma ideia que me inspirou a criar um equipamento portátil para produção de água, com várias fontes de energia”

De uma empresa de engenharia parceira, ele ouviu a indicação de conversar com Fernando Guimarães Aguiar, professor e doutor em Engenharia Mecânica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“Coloquei a ideia no PowerPoint, corri para falar com o professor, definimos algumas premissas e fizemos um acordo operacional com a UFSCar para estudar a viabilidade de criar esse equipamento.”

No ambiente acadêmico nasceram os primeiros protótipos. Fernando e Maria Helena investiram 400 mil reais no negócio; mais tarde, o fundo FRAM Capital injetou outros 600 mil.

O PRIMEIRO PILOTO RODOU EM UMA COMUNIDADE ÀS MARGENS DA REPRESA BILLINGS

Uma reportagem no Fantástico, da Rede Globo, em 2018, foi o gatilho que deu início ao primeiro projeto piloto da PWTech.

O protótipo do filtro estava em fase de finalização quando Fernando viu a matéria na TV relatando a situação precária na Ilha do Bororé, às margens da Represa Billings, no extremo sul de São Paulo, onde 5 mil moradores sofriam com os impactos da água contaminada.

Ele foi ao local e conversou com uma das pessoas entrevistadas pela reportagem. Assim, combinou a instalação de um filtro na comunidade, para observar o desempenho da tecnologia no atendimento a três famílias.

Leia também: Falta água potável na região amazônica. A solução da Amana Katu: um sistema de filtragem da água de chuva de baixo custo 

Segundo Fernando, a proposta deu tão certo (veja o vídeo aqui) que a startup criou a campanha de crowdfunding Projeto Nascente, junto com a Associação de Moradores da Ilha do Bororé (AMIB) e a Sapiência Ambiental, que se define como um “escritório cooperativo de projetos socioambientais”. 

A ideia é levantar fundos e instalar seis equipamentos na comunidade, garantindo o abastecimento de água potável para cerca de 400 pessoas.

No mesmo modelo, a PWTech instalou seu purificador no Parque Natural Varginha, na Zona Sul de São Paulo, para garantir água potável aos funcionários e usuários, e numa escola municipal da Ilha Montão de Trigo, pertencente a São Sebastião, no Litoral Norte paulista, permitindo a alunos, professores e moradores o acesso à água limpa.

O FILTRO SUPRE ÁGUA A BRIGADISTAS NO COMBATE A INCÊNDIOS NA AMAZÔNIA

Recentemente, a PWTech fechou um contrato com a ONU para fornecer o aparelho ao Ibama e ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 

Segundo Fernando, 109 equipamentos estão sendo utilizados para suprimento de água potável a brigadistas que atuam no combate e prevenção de incêndios na Amazônia.

O CEO conta que também está negociando com a ONU o fornecimento da solução a campos de refugiados apoiados pela organização. Há ainda conversas rolando com outros órgãos do governo brasileiro:

“Outros acordos em andamento são com o Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], que deseja usar os equipamentos em seus assentamentos, e com a Funasa [Fundação Nacional de Saúde], para levar um suprimento de emergência ao Amapá”

O modelo de negócio é a venda do equipamento, que custa 8 800 reais, e da manutenção e venda dos kits de filtros e membranas, que precisam ser trocados a cada 100 mil litros de água gerada e custam 500 reais. 

“Isso dá um custo de água de cerca de 0,0056 centavos por litro, ou seja, 5,60 reais por mil litros.”

COMO TORNAR AS EMPRESAS (E A CONSTRUÇÃO CIVIL) MAIS SUSTENTÁVEIS

Essa frente puramente social, atendendo governos e instituições, responde hoje por 90% do faturamento. 

Os outros 10% vêm de contratos com empresas, em duas vertentes de atuação. Uma delas é a sustentabilidade corporativa: com apoio de Ambev, Braskem e Gerdau, a PWTech desenvolveu um projeto de potabilização de água da chuva coletada em telhados de escritórios.

“Transformamos a água represada nos telhados em potável”, diz Maria Helena. “Isso gera pontos nos relatórios de sustentabilidade das empresas.”

Ela conta que nem sempre é fácil convencer potenciais clientes sobre os benefícios:

“Não existe essa cultura da sustentabilidade nas corporações… A dificuldade maior está em fazer as pessoas entenderem como isso irá afetá-las. Se falarmos que os netos e bisnetos delas não terão acesso a água, fica muito abstrato — e elas acabam não abraçando a causa”

Leia também: Ama, a água com propósito, ou como um negócio social corporativo brotou de dentro da Ambev

Outro setor com que a PWTech atua é a construção civil. Clientes como Camargo Corrêa Infra, OAS e Tempo Construtora usam o filtro da startup para potabilizar a água de seus funcionários nos canteiros de obras.

“Somos uma opção viável para as construtoras, que geralmente usam galão de 20 litros ou caminhão-pipa”, diz Fernando. “A água também está sendo usada em certas obras para amassamento de concreto.”

UM PILOTO COM A ESALQ TESTA A SOLUÇÃO NO DESMAME E NA ENGORDA DO GADO

Em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), vinculada à Universidade de São Paulo, a PWTech está estudando o impacto no tempo de engorda do gado e no desmame de bezerros a partir do uso da água purificada pela startup. Fernando comenta:

“Estamos validando essa prova de conceito em uma baia da fazenda de confinamento Coplacana, em Piracicaba (SP), dando água filtrada em nosso equipamento para mais de 100 bois — e medindo diariamente o impacto no ciclo de engorda”

Nos primeiros 90 dias de vida, diz Fernando, o bezerro se alimenta apenas de leite; para facilitar o desmame, os produtores recorrem a alternativas. 

“Existe um substituto em pó que pode ser dissolvido em água de açude e chuva. Mas quanto melhor a qualidade da água, mais rápido ele ganha peso.” Daí a necessidade da solução purificadora da PWTech.

Por conta da suspensão de atividades na Esalq decorrente da pandemia, afirma Fernando, por enquanto ainda não há um laudo técnico pronto para que a PWTech comece a oferecer seu produto nesse segmento.

RECÉM-LANÇADO, UM APLICATIVO DEVE ALAVANCAR UM NOVO MODELO DE NEGÓCIO 

A PWTech planeja outra forma de rentabilização: a venda da água por metro cúbico consumido.

O formato está sendo viabilizado com apoio do Sebraetec e do Senai, que desenvolveram um aplicativo de monitoramento de vazão para medir a produção de água potável (que poderia ser usada, por exemplo, para consumo dos colaboradores em fábricas e escritórios).

“O próximo passo será conseguir monitorar a qualidade de água online, a partir de parâmetros como pH, turbidez, cor, volume etc. A ideia é fornecer uma predição para que o cliente troque os filtros e execute ações operacionais — antes que a água perca a qualidade”

O CEO diz que há uma conversa em andamento sobre a adoção desse sistema com uma empresa de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Na falta de concorrentes, a PWTech vai aprendendo a desbravar as oportunidades.

“O mercado em que atuamos não existe — apesar da dor com a questão da água ser patente”, diz Fernando. “Em um país como o nosso, com tantos problemas de saneamento, é possível usar o equipamento para várias questões. Por enquanto, estamos focando nesses segmentos que elegemos, sem querer abraçar todas as ideias que surgem.”

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  • Projeto: PWTech
  • O que faz: Produz um equipamento capaz de transformar água contaminada em potável
  • Sócio(s): Fernando Silva, Maria Helena Cursino da Rocha Azevedo e FRAM Capital
  • Funcionários: 10 (sendo cinco com dedicação exclusiva)
  • Sede: Fábrica em São Carlos (SP) e escritório na capital paulista
  • Início das atividades: 2018
  • Investimento inicial: 400 mil reais
  • Faturamento: Não informado
  • Contato: [email protected]
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