Saiba o que o GPX e a educação experiencial podem fazer por adolescentes que estão decidindo o que fazer da vida

Adriano Silva - 29 out 2014O GPX acredita que nem sempre sair direto da escola para a universidade é o melhor caminho para o sucesso e a felicidade profissional
O GPX acredita que nem sempre sair direto da escola para a universidade é o melhor caminho para o sucesso e a felicidade profissional
Adriano Silva - 29 out 2014
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Bruno, 19, é um millenial – nasceu em 1994, e quando abriu os olhos para vida já era século 21. Foi alfabetizado num notebook, assistindo TV a cabo. Bruno é fissurado por games e terminou a escola querendo fazer um monte de coisas, menos uma: faculdade.

Na maioria das famílias de classe média brasileira, isso seria motivo para chamar o Capitão Nascimento e colocar o menino no saco. Ou então insistir para que ele fizesse um curso de engenharia ou de administração – para depois ver de fato o que fazer da vida dele. (Muitos garotos, se pudessem escolher, prefeririam o saco plástico a essa alternativa.)

Ocorre que Bruno é filho de Carla Mayumi, 43, sócia da Box 1824. Carla já pesquisou muito sobre educação – entre um monte de outros temas. Ela mandou Bruno para o Uncollege, em São Francisco, nos Estados Unidos. Para o chamado “gap year” – um ano de experiência e reflexão entre o fim do ensino médio e início do ensino superior.

No Uncollege, fundado por Dale J. Stephens, em 2011, Bruno teve contato com conceitos como hacking education, desescolarização e unschooling. Entre outras coisas, Bruno teve que bolar um projeto em 10 semanas. No entanto, Bruno não cumpriu o programa de um ano – ficou só três meses. O resto do tempo ele usou para viajar pelos Estados Unidos e pelo mundo.

Daphne Baroukh, 25, é só um pouco mais velha que Bruno – pertence à geração Y, que tomou consciência do mundo nos anos 90, num Brasil já sem ditadura nem hiperinflação – e cheio de telefones celulares.

Daphne já morou em seis países – incluindo seis anos na Argentina e outros seis anos na França. Fez um ano de Relações Institucionais, na ESPM, em 2007, em São Paulo, e foi para Coimbra, em Portugal, onde se formou em RI em 2010. De lá foi para o Peru, onde trabalhou por um ano na Anistia Internacional. Depois foi para Turim, na Itália, onde fez o mestrado da Unesco em Gestão Cultural para o Desenvolvimento, que durou um ano.

Daphne é sócia de Carla no GPX – Global Project Experience –, empresa baseada na educação experiencial, em que o aluno aprende com a vivência, com o trabalho em grupo e com o intercâmbio cultural.

Daphne Baroukh, CEO da GPX: aos 25 anos, já morou em seis países

Daphne Baroukh, CEO da GPX: aos 25 anos, já morou em seis países

Carla tinha percebido, com a experiência de Bruno na Uncollege, que algumas coisas haviam ficavam soltas, do ponto de vista pedagógico, por estarem muito na dependência do próprio aluno. Por outro lado, não havia no Brasil essa alternativa à entrada imediata na universidade. A ideia do Uncollege, que se vê como um movimento social, é “mudar a noção de que ir para a faculdade é o único caminho para o sucesso” e “oferecer aos estudantes recursos para educarem a si mesmos fora do reino da educação superior e das universidades”. O Uncollege acabou de abrir uma filial no Brasil – em Ilhabela, litoral em São Paulo. E está com inscrições abertas para a sua primeira turma no país.

Carla conversou a respeito da oportunidade com Daniel Contrucci e Ricardo Gravina, sócios na Aoka Tours, primeira empresa de turismo ecossustentável do Brasil, e na Aoka Labs, consultoria de inovação e desenvolvimento de lideranças. Daphne trabalhava na Escola São Paulo já havia dois anos, onde conheceu Carla, e estava decidida a empreender. Carla chamou Daphne para tocar a nova empresa.

O GPX nasceu em 29 de agosto de 2014 (mesmo dia da estreia do Draft), se apresentando como “um programa de aprendizado experiencial de seis meses imersivos, direcionado a jovens de 18 a 24 anos que estejam em fase de transição e em busca do seu caminho pessoal e profissional”, e tendo como sócios Daphne, Carla, Daniel, Ricardo, além de Filipe Jerônimo e Ude Lottfi, também da Aoka – onde o GPX está incubado. Daphne é a única sócia com funções executivas. “Estrearemos nosso primeiro programa em 23 fevereiro de 2015, com uma turma de 15 participantes”, diz Daphne.

O programa do GPX tem sete fases: viagem de abertura, intensivo coletivo, imersão social, checkpoint, viagem de expansão (única fase realizada fora do Brasil, que dura 6 semanas), meus projetos e graduation weekend. E segue a Teoria U, desenvolvida no MIT (Massachussets Institute of Technology) por Otto Scharmer, conforme infográfico abaixo. “Nossa ideia é tanto trabalhar os hard skills dos jovens pré-universitários, como pitch de vendas e planejamento de portfolio profissional, quanto os soft skills – aprender a se virar, a resolver problemas interpessoais, amadurecimento”, diz Daphne.

As sete fases do programa da GPX, baseadas na Teoria U, desenvolvida no MIT por Otto Scharmer

As sete fases do programa da GPX, baseadas na Teoria U, desenvolvida no MIT por Otto Scharmer

O programa, que visa “fazer com que o jovem encontre seu caminho de vida e profissional, ajudá-lo a ser uma pessoa feliz e realizada, despertar o líder existente dentro de cada um, inspirá-lo a aplicar suas habilidades e talentos, criando novas possibilidades para os problemas atuais e futuros da nossa sociedade”, dura seis meses e custa 24 150 reais, que podem ser pagos em 7 parcelas de 3 450 reais.

O pacote inclui quatro viagens pelo Brasil, hospedagem e alimentação, além de atividades com facilitadores e especialistas, workshops, cursos e coaching. A fase nacional dura três meses e meio, sendo um mês em São Paulo. A fase internacional, que dura seis semanas, está fora desse preço. O GPX tem parceiros como Kaos Pilot, na Dinamarca, Team Academy, na Espanha, SI Explorer, na África do Sul, e em outros países como Inglaterra, Suécia e Estados Unidos. Durante as seis semanas da fase internacional, o GPX continua o coaching virtualmente, dando suporte ao aluno aqui no Brasil.

O GPX fará seu primeiro evento presencial na quinta da semana que vem, dia 6 de novembro, às 19h30, no espaço Drinkfinity Lab, na Rua Fidalga, 593, em São Paulo. “Faremos uma dinâmica para os presentes terem uma experiência real da nossa metodologia e uma mesa de conversa com alguns especialistas em jovens, aprendizado e o futuro emergente, além de uma sessão de perguntas e respostas sobre o GPX”, diz Daphne. Você pode se inscrever aqui.

O plano do GPX é montar duas turmas em 2015 – a segunda no segundo semestre, de julho a dezembro. As inscrições para a primeira turma, cujo programa vai de fevereiro a agosto, poderão ser feitas até 10 de dezembro.

O investimento inicial no negócio foi de 55 mil reais. “Havia alguns parceiros grandes que queriam nos comprar”, diz Daphne. “A gente preferiu seguir solo nesse momento.”

Os sócios de Carla Mayumi e Daphne Baroukh no GPX - Filipe Jerônimo, Daniel Contrucci, Ude Lottfi e Ricardo Gravina, todos da Aoka

Os sócios de Carla Mayumi e Daphne Baroukh no GPX – Filipe Jerônimo, Daniel Contrucci, Ude Lottfi e Ricardo Gravina, todos da Aoka

O GPX sabe que enfrentará, além da concorrência da Uncollege, algumas barreiras culturais no Brasil. Mas acredita que elas fazem parte da oportunidade. “A nossa classe média está gerando jovens com dificuldade para decidir o que querem e para correr atrás disso. A comida está sempre pronta, a cama arrumada, a roupa lavada e passada. Isso forma (ou deforma) um determinado estilo de vida”, diz Daphne, com a autoridade de quem, aos 25, já rodou mais e deu mais saltos do que muitos brasileiros farão na vida. “Os pais são paradoxais. Querem expor os filhos ao mundo. Mas não abrem mão de superprotegê-los. A geração X, que tem hoje mais ou menos entre 40 e 55 anos, cobra dos filhos – mas não tem a menor confiança neles”.

Ela segue analisando o arcabouço cultural com que terá de lidar: “lá fora, aos 18, você já tem um orçamento pessoal para administrar. Vira adulto e é exposto ao mundo mais cedo. Tem mais autonomia e também mais responsabilidades. Da mesma forma, a aposentadoria é uma época riquíssima para projetos pessoais e planos B – aqui é o fim da linha. Então nós começamos a vida mais tarde e desistimos dela mais cedo”.

Por outro lado, diz Daphne, “aqui no Brasil o sujeito começa a trabalhar antes dos 25 e costuma chegar aos 40 com quase duas décadas de carreira. São, muitas vezes, pessoas que alcançaram cargos de direção mas que ainda são imaturas emocionalmente. Lá fora, o sujeito só engata mesmo numa profissão por volta dos 30, com mais experiência de vida, o que acaba gerando uma decisão mais acertada”.

O GPX enxerga aí outro nicho para seus serviços – profissionais que chegam à metade de suas carreiras dispostos a repensarem suas vidas. Um público para o qual um “gap year”, com educação experiencial, novas vivências e intercâmbio cultural pode vir bem a calhar. Mas tudo a seu tempo.

Ah, sim. Bruno, drop out da Uncollege, acaba de abrir uma empresa com um colega italiano, que conheceu nos Estados Unidos – a Learn LOL, um sistema de aprendizagem para o jogo League of Legends. Às vezes é preciso estar “perdido” para achar o caminho certo…

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