Um trio com clientes que arrastam multidões: como a Curta ajuda youtubers com milhões de seguidores a decolar na carreira

Leonardo Neiva - 14 fev 2024
Os sócios da Curta (a partir da esq.): Vitor Rabello, Lucas Continentino e Pedro Gelli (foto: Leonardo Cardoso).
Leonardo Neiva - 14 fev 2024
COMPARTILHE

Desde quem investe por anos em criar conteúdo sobre um determinado tema — que pode ser, inclusive, a própria vida — até participantes de realities como o BBB, o sonho de muita gente hoje é angariar alguns milhares ou até milhões de seguidores nas redes sociais. 

A impressão é de que basta se estabelecer como influenciador para que as “publis” apareçam aos montes e o dinheiro comece a entrar. Mas não é sempre assim que a coisa funciona… 

Segundo uma pesquisa realizada pela plataforma de marketing Influency.me em 2022, cerca de 41% dos influenciadores no Brasil recebem até 500 reais ao mês com a atividade e somente 8% deles têm ganhos acima dos 10 mil reais mensais.

Esse mercado da influência é uma realidade que o youtuber e empreendedor fluminense Pedro Gelli, 27, conhece bem. Com mais de 6,3 milhões de inscritos em seu canal GelliClash, onde atua desde 2014, ele ganhou boa parte da sua popularidade como influenciador, produzindo vídeos em que joga e comenta o game para celular Clash of Clans.

A experiência na profissão fez com que Pedro passasse a conhecer a fundo algumas das principais dores dos influenciadores brasileiros. E, entre elas, uma das maiores é a falta de capacitação e profissionalização de pessoas cujo sucesso pode chegar de forma repentina. Pedro explica:

“A pessoa que não era relevante em termos de números passa a ser três meses depois. Só que ela não aprendeu tão rápido quanto cresceu. Então saber qual o retorno financeiro nas redes, quanto cobrar e a maneira certa de fazer as coisas são necessidades do criador, que precisa entender tudo isso melhor”

Para oferecer uma solução para o problema, ele procurou o publicitário e amigo Lucas Continentino, 28, com quem já tinha trabalhado em empresas como a holding de games e influenciadores Final Level e a plataforma de conteúdo gamer LOUD. Junto com o administrador Vitor Rabello, 26, eles se tornaram sócios-fundadores da Curta, que nasceu em janeiro de 2021.

O hub multiplataformas presta apoio a influenciadores no processo de profissionalização da atividade, com foco em youtubers do mercado gamer. Na prática, ajuda na realização de ações como o contato com marcas, o lançamento de produtos licenciados e a tradução de vídeos para outros idiomas, ações para amplificar a visibilidade num ambiente cada vez mais disputado em termos de conteúdo.

Hoje, a Curta atua junto a 44 influenciadores; a lista inclui nomes como Problems, youtuber que reúne cerca de 7 milhões de inscritos, e a Família Arqueira, com mais de 4 milhões. 

“Queremos impedir que o influenciador esteja num ambiente inseguro”, diz Pedro. “O objetivo é que ele se sinta abraçado, acolhido e tenha o futuro garantido, com a gente sempre pensando em novos modelos de negócio junto com ele.”

A EMPRESA NASCEU NA VARANDA DE CASA, COM UM INVESTIMENTO DE 5 MIL REAIS

Lucas lembra das conversas informais que teve com Pedro sobre o mercado de influência, que, além de fortalecer a relação de amizade da dupla, acabaram sendo o embrião do que se tornaria a Curta. 

Entre os gargalos que identificaram no dia a dia dos profissionais da área, um dos principais era definir o próprio valor e o do conteúdo que o influenciador produzia.

“Eles tinham um problema para se autovalorar. Em qual prateleira estavam no negócio, para qual lado ia o conteúdo? A marca manda no conteúdo ou o criador? E como colocar isso de forma orgânica no circuito?”

A partir desses debates e da experiência que Pedro tinha atuando nos dois lados dessa equação, alguns influenciadores começaram a buscar a dupla para tirar dúvidas sobre o tema — especialmente na relação com marcas grandes, em que não é incomum que o influenciador se sinta acuado e acabe cedendo o próprio conteúdo de forma desigual. 

“Encontramos de maneira orgânica esse gap no conteúdo voltado para YouTube, onde muita gente queria aprender a se posicionar melhor nesse mercado”, afirma Lucas.

De maneira quase tão casual quanto esses diálogos, os sócios convidaram Vítor para o negócio, que abriu oficialmente em janeiro de 2021. O investimento inicial foi pequeno, de 5 mil reais, e a empresa abriu já com uma lista de clientes interessados. “Chegamos ao breakeven no dia seguinte”, diz Lucas.  

Em plena pandemia, os três, que então compunham toda a equipe da empresa, costumavam se encontrar para trabalhar na varanda da casa de Lucas. Com o tempo, é claro, o quadro de colaboradores, clientes e o escopo de atuação da Curta foram crescendo.

ALÉM DO MARKETING DE INFLUÊNCIA, A STARTUP GANHA COM TURNÊS PARA O PÚBLICO INFANTOJUVENIL E VENDA DE PRODUTOS LICENCIADOS

Se a startup começou com foco apenas em publicidade, buscando dar visibilidade e melhorar o contato dos clientes com as marcas, logo passou a abranger uma gama de linhas de atuação e de receita. 

A busca, afirma Lucas, é por abranger num ângulo de 360º todo o ecossistema que envolve a imagem do criador de conteúdo, ampliando o alcance e a força da sua marca.

Segundo Lucas, as ações da Curta se baseiam em três pilares. O primeiro se refere ao marketing de influência, em que a empresa faz uma curadoria e media a relação dos clientes com o mercado. 

Um segundo pilar abarca a realização de shows, em turnês voltadas para o público infantil e infantojuvenil, com apresentações de influenciadores como a Família Arqueira e o youtuber Natan por Aí, que reúne 18,5 milhões de inscritos na rede. Além disso, inclui também a tradução de parte do conteúdo para o inglês e espanhol, com o uso de inteligência artificial, levando os influenciadores a atingir um público internacional.

Há ainda uma frente de licenciamento, produção e venda de bonecos e brinquedos inspirados na figura dos influenciadores — nos moldes do que faz Luccas Neto, um dos mais bem-sucedidos nessa estratégia. Além de um marketplace próprio, a Curta tem parceria com mais 500 pontos físicos para que as mercadorias cheguem aos consumidores pelo Brasil.

Segundo Lucas, a estratégia é toda focada na expansão da marca do influenciador, criando novas linhas de receita e evitando botar todos os ovos numa mesma cesta.

“Quando a gente consegue aumentar essa relevância da marca, a receita de publicidade também aumenta, porque o influenciador ganha identificação com o público. E identificação é muito importante como ponto de partida do nosso negócio.”

COM 70 MIL PRODUTOS VENDIDOS EM UM ANO, O YOUTUBER PROBLEMS VIROU UM CASE DA ESTRATÉGIA DE LICENCIAMENTO DA CURTA

A Curta trabalha num modelo de divisão dos lucros de suas empreitadas, ficando com uma porcentagem da receita de iniciativas como a dublagem de vídeos ou a produção de brinquedos.

Lucas explica também que a Curta tem oferecido a posição de sócio a influenciadores que se tornam mais próximos da empresa. É o caso do youtuber LipãoGamer, que tem cerca de 12,6 milhões de inscritos em seu canal. 

“Nosso objetivo é dar mais poder ao influenciador, para que ele veja que sua carreira não está sendo montada por alguém afastado dele, sem nenhum benefício além do negócio fechado”, diz Pedro.

O youtuber Problems lançou em 2023, numa parceria com a Curta, sua primeira linha de bonecos. 

Com mais de 70 mil produtos vendidos em um ano, ele se tornou um dos maiores cases de sucesso da estratégia de licenciamento da empresa, quebrando algumas das principais barreiras que existem no varejo brasileiro hoje, segundo Pedro. O empreendedor afirma:

“Dali a dois ou três anos, quando começam a perder fôlego, a marca dos influenciadores também cai. É justamente isso que a gente tenta evitar quando coloca o produto deles no mercado. Aquele brinquedo vai estar na casa da criança pelos próximos dez anos”

Outro case é o da dublagem dos vídeos de Athos, youtuber especializado em Minecraft que hoje tem 7,8 milhões de inscritos no site. As versões em espanhol de suas transmissões geraram um milhão de novos inscritos, abrindo todo um mercado internacional para publicidade e venda de seus produtos. 

Até o final de 2023, os influenciadores atendidos pela Curta somavam 265 milhões de inscritos no YouTube, com uma média de mais de 2 bilhões de visualizações mensais. Por atenderem alguns dos principais youtubers gamers do país, os empreendedores também atuam junto a gigantes do setor, a exemplo de Epic Games, Ubisoft e Activision, além de marcas como Google e PlayStation.

Pedro também explica que, na Curta, não há contrato de exclusividade nem multa, para que o influenciador não se sinta preso. A meta é construir resultados e um relacionamento saudável para que eles mesmos não queiram sair. “Até hoje, só um cliente deixou a Curta”, conta.

A EMPRESA QUADRUPLICOU O FATURAMENTO EM DOIS ANOS, E AGORA TRABALHA PARA ENCORPAR A INTERNACIONALIZAÇÃO DO CONTEÚDO

Hoje, a Curta conta com uma equipe de 62 colaboradores diretos e indiretos, que atuam ou no escritório em São Paulo ou de forma remota. De um faturamento de 4,5 milhões de reais em 2021, a empresa saltou para 18 milhões de reais em 2023, e espera faturar acima dos 30 milhões de reais este ano.

Embora a maior parte dessa cifra venha da área de publicidade, a aposta é que outras linhas de receita, como a internacionalização do conteúdo e a venda de produtos, cresçam a ponto de ultrapassar o faturamento do setor. Lucas exemplifica:

“Até três meses atrás, só tínhamos três canais dublados. Hoje, são 14 sob a nossa gestão. A gente acredita que, até o final do ano, isso vai trazer uma receita muito relevante”

De 2022 a 2023, o faturamento com ações de licenciamento também passou de zero a 400 mil reais. Os sócios acreditam que, enquanto há um limite para o crescimento da publicidade, já que ela depende do número de influenciadores com que a empresa trabalha, as outras frentes vêm crescendo exponencialmente mais.

A meta é chegar ao menos a 60 canais com conteúdo dublado para outras línguas ainda em 2024, passando a atender idiomas para além do inglês e espanhol. Também já existe uma aposta de participação da Curta no conteúdo que esses influenciadores postam em outras redes, como Instagram e TikTok, mais voltados para questões de comportamento e estilo de vida.

Para Pedro, o maior desafio hoje é saber onde investir as fichas num mar de propostas e oportunidades interessantes.

“Nesse mercado, a audiência é a coisa mais valiosa, e isso a gente tem. Precisamos saber como usar da maneira mais inteligente e ética para monetizar e ainda agregar para outras pessoas”

Recentemente, o trio de fundadores apareceu na lista Forbes Under 30, que destaca nomes promissores do empreendedorismo e da indústria criativa com menos de 30 anos. 

“Nosso grande objetivo é transformar o mercado”, afirma Lucas. “É um desafio ainda maior quando você tem 20 e poucos anos assumindo uma posição dessas nesse mercado, onde a gente enfrenta alguns bloqueios. Ainda temos muitas barreiras para ultrapassar.”

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Curta
  • O que faz: Presta serviços de profissionalização e aumento de visibilidade para influencers
  • Sócio(s): Lucas Continentino, Pedro Gelli e Vitor Rabello
  • Funcionários: 62
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2021
  • Investimento inicial: R$ 5 mil
  • Faturamento: R$ 18 milhões (2023)
  • Contato: contato@agenciacurta.com
COMPARTILHE

Confira Também: