Sua empresa contrata egressos do sistema prisional? O {Parças} capacita ex-detentos para atuar no mercado de programação

Alex Xavier - 5 jul 2021
Alan Almeida e Carla Cristina, empreendedores à frente do {Parças} Developers School.
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É duro, mas a sociedade com frequência acaba pré-determinando o caminho que alguém vai trilhar na vida, ainda mais se ela vier de uma realidade muito humilde.

Ao se levantar contra essa perspectiva, o advogado Alan Almeida, 29, e a esposa e sócia Carla Cristina, 37, têm mostrado a pessoas antes marginalizadas como elas podem escrever a própria história. 

Em 2017, o casal criou o {Parças} Developers School, um negócio social dedicado a capacitar egressos do sistema prisional e empregá-los no mercado de TI. Em junho, o projeto foi selecionado pelo Semente Preta, fundo de investimento do Nubank voltado a empreendedores negros da área tecnológica.

A ideia do {Parças} nasceu de constatações aparentemente distantes. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, o país vai precisar de cerca de 290 mil novos profissionais da área nos próximos quatro anos. A demanda é grande — mas há dificuldade em contratar mão de obra qualificada.

Por outro lado, o Brasil tem quase 800 mil presos, metade em regime fechado, e a maioria sofre muito para encontrar emprego após cumprir sua pena. E só quem vivencia de perto os dois universos conseguiria ver relação entre essas informações. 

ELE QUASE ENVEREDOU PARA O CRIME, MAS FOI SALVO PELA BRONCA DA MÃE 

Nascido na periferia de São Paulo, Alan poderia seguir o destino de muitos jovens da sua comunidade, que abandonaram os estudos para trabalhar na informalidade — ou, então, se viram envolvidos no mundo do crime. 

Em vez disso, ele foi o primeiro de sua família com diploma universitário e investiu em uma iniciativa que oferece oportunidades parecidas às que ele recebeu um dia. O ponto de virada na sua vida foi uma bronca que levou da mãe, aos 16 anos.

“Você é beliscado o tempo todo por propostas muito sedutoras do contexto em que está inserido”, lembra o empreendedor. No caso dele, o cenário era a Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte paulistana. Em uma casa construída em terreno irregular, com esgoto a céu aberto, próxima a bocas de fumo, a costureira Aureny, a Dona Lili, criou sozinha Alan, seu irmão gêmeo David e os dois mais novos, Matheus, 20, e Paulo, 18.

“Na minha família, não se falava em aprender outro idioma, a mexer no computador, fazer uma faculdade… Ninguém lia livros, porque isso era incompatível com as condições precárias em que vivíamos”

Desde os 13, o jovem trabalhava entregando panfleto, como ajudante de pedreiro, vendedor de sorvete; todo o salário era para ajudar em casa. Acabou repetindo a oitava série e, desgastado, deixou-se levar por uma promessa de ganhar dinheiro fácil. 

Alan aceitou buscar um revólver “frio” para um comerciante, que o compraria de um interceptador. Mas a mãe o flagrou no momento da negociação — e passou um sermão que o rapaz jamais esqueceria. 

“Na volta para casa, disse que não ia criar criminoso, nem me visitar na prisão”, conta. “Ela estava desesperada, com medo do efeito em cascata, de repercutir nos outros três filhos. A vergonha me comeu por dentro, a ponto de nem conseguir sair de casa.”

DE OFFICE BOY A ADVOGADO

Então, Dona Lili ligou para um primo distante, advogado-chefe de um escritório de advocacia na Lapa, especializado em Direito Penal Econômico. Ela expôs a situação e pediu ajuda para o menino, que foi empregado como office boy lá.

Logo no primeiro dia, Alan se impressionou com o novo ambiente, a postura de advogados, juízes e desembargadores. 

“Já foram me mandando despachar uma petição e eu levei 40 minutos só para entrar na sala. Fiquei em crise, e a juíza, vendo meu nervosismo, acabou despachando mais por empatia do que outra coisa [risos]… Percebi que a melhor arma, na verdade, não era o revólver — e sim o conhecimento”

Motivado, Alan terminou o ensino médio e foi promovido a assessor jurídico. E os chefes ainda ofereceram pagar metade da faculdade de Direito.

“Quando contei para a minha mãe, ela me abraçou e disse: filho, você vai aposentar a mamãe.” 

ELE VIROU UM EXEMPLO PARA OS IRMÃOS

Na Faculdade Zumbi dos Palmares, ele arrumou uma bolsa parcial por entrar no coral universitário. 

“Foi o lugar onde eu me identifiquei muito com o público, os alunos, os professores e ver pessoas que vinham do mesmo lugar que eu me deixou muito tranquilo”, revela.

Para complementar as despesas, Alan tocava saxofone em cerimônias religiosas. Foi num desses eventos que conheceu Carla. Começaram a namorar.

“Quando me formei, em 2015, toda a minha família se formou comigo”

A mudança de paradigmas afetou os irmãos. O gêmeo Diego fez curso técnico de enfermagem e atua na área da Saúde. Matheus trabalha numa oficina mecânica de alta renda e entrou para a Fatec.

O caçula Paulo ainda está descobrindo o que vai fazer (mas quer ajudar as pessoas de algum modo). “Estou tentando levá-lo para programação, mas está difícil”, diz Alan, apontando a direção que tomou após se tornar advogado.

OU ELE APRENDIA A PROGRAMAR, OU SERIA DEMITIDO

Na época, Alan já trabalhava no Citibank, como analista júnior no setor de derivativos, área bem operacional, que demandava a formalização de muitas minutas de commodities e letras financeiras, tudo de uma maneira automatizada.

Havia uma demanda para todos aprenderem a programar. Naquele momento, porém, ele pensava em crescer lá dentro como trader e tirou certificações na área.

Só que, em 2016, o banco vendeu a parte de Consumo para o Itaú; muita gente foi mandada embora.

“Meu gestor foi muito franco e disse que se eu quisesse ficar, não importava a minha formação, eu precisaria me tornar desenvolvedor”

Prestes a se casar com Carla, com quem logo teria um filho, e temendo perder emprego, ele fez uma especialização intensa em Ciência da Computação e acabou se deslumbrando com o poder da tecnologia e aquilo que ela representava.

“Sempre ouvia dos gestores que tinha quarenta, cinquenta vagas de trabalho, salário muito bom, jovens de 20 anos ganhando 10, 12 mil reais. Tanta gente esperando por uma oportunidade de trabalho e essa área, que não tem um órgão regulador, com tanta oportunidade de trabalho?”

A ESPOSA, E HOJE SÓCIA, TAMBÉM APRENDEU A PROGRAMAR 

Depois do Citibank, Alan passou pela Natura e pela MRV, como desenvolvedor. Animado com o salário, levou Carla a aprender a programar e confessou o sonho de inserir o mercado de tecnologia na periferia. 

Por dois anos, ela havia ministrado aulas de informática para idosos em Telecentros da Prefeitura, mas trabalhava em um consultório médico com instrumentação cirúrgica. 

“Fiquei atraída por fazer algo que pudesse mudar nossa realidade e, ao mesmo tempo, a de muitas outras pessoas”, diz ela. 

Na época, os dois viviam um dilema familiar. Um primo dele estava internado na Fundação Casa e um tio dela, no antigo Carandiru.

“Eu já tinha ido às unidades por trabalhar com Direito Penal, mas é muito diferente quando você tem alguém que ama ali dentro”, ele lamenta. 

COMO AJUDAR JOVENS DA FUNDAÇÃO CASA 

O drama fez com que se interessasse mais pelo sistema prisional. Até ser abordado na rua, por um homem que havia acabado de sair do presídio de Franco da Rocha.

Ele estava pedindo ajuda, algum dinheiro, de camiseta, cabeça raspada e chinelo de dedo, em um dia nublado e muito frio, só com alvará de soltura na mão. Tentava chegar à rodoviária para voltar a sua cidade.

“Descobri que, segundo o Conselho Nacional de Justiça, metade da população carcerária em São Paulo veio transferida de fora, e boa parte sai sem ter para onde ir… Eu podia estar detido como meu primo, ser uma pessoa perdida, com o alvará de soltura na mão”

Depois disso, Alan bateu na porta do diretor da Fundação Casa e propôs, ainda sem muita clareza, um projeto de capacitação de programadores para os jovens.

O PROJETO COMEÇOU COMO UMA ONG

Foram necessárias 35 reuniões ali dentro, durante um ano e oito meses, para estruturar o projeto pedagógico. Do zero, pois nem computador a instituição tinha disponível. 

“Tive a ideia de raspar o cabelo, como uma estratégia para me aproximar mais dos internos. Acho que funcionou, porque passaram a me chamar de parça, um jargão comum entre eles”

Ainda como uma ONG, o casal abriu um CNPJ, a Parças da Esperança, e começou a ensinar seus alunos a programar em 2017, todas as semanas.

Sem retorno financeiro algum e com Alan dedicado a desenvolver o curso, eles dependiam totalmente do salário de Carla no consultório. “Estávamos empolgados com a ideia, mas a verdade é que, por um ano, não tivemos estrutura, faltou se planejar melhor”, ela analisa.

PRIMEIRO, FOI PRECISO MUDAR A MENTALIDADE DOS CONTRATANTES

Eles demoraram para ir atrás de possíveis clientes porque queriam ter certeza de que estavam formando bons profissionais. “Não queria que as pessoas fossem contratadas por benevolência”, diz Alan.

“Era importante que as empresas visassem o impacto social, mas também a excelência. Porque só faria sentido se, no final da ponta, todos conseguissem se empregar de verdade”

Quando se abriram para o mercado, já tinham 280 alunos formados. O mais complicado foi mudar a mentalidade do empresariado sobre a contratação de egressos do sistema penitenciário, apesar dos argumentos a favor.

O índice de rotatividade anual no mercado de TI no Brasil é de 38% e 59,9% das empresas não conseguem contratar bons profissionais da área. Além disso, um processo seletivo desse porte dura quase dois meses e gasta, em média, 31,5 mil reais.

“A gente se apresentava, dizia que tinha um banco de talentos, profissionais que estão se formando e podiam ser contratados agora.”

O PRIMEIRO APORTE AJUDOU A MONTAR UMA EQUIPE

Só no fim de 2017 veio o primeiro investimento. Selecionados na quarta edição do Vai Tec, programa da Prefeitura de São Paulo que incentiva o desenvolvimento de pequenas empresas de tecnologia idealizadas por jovens de baixa renda, eles receberam 33,1 mil reais. 

Assim, adquiriram os primeiros computadores e aumentaram a equipe, contratando como professores cinco desenvolvedores que conheciam de outros empregos.

Também passaram dez meses no programa de aceleração compreendendo melhor o negócio, aprendendo sobre marketing financeiro e outros temas que nem passavam pela cabeça deles.

O casal lecionava na Fundação Casa, mas, quando os menores saiam, eram incentivados a continuar aprendendo em um coworking municipal na Vila Nova Cachoeirinha, onde contavam com o apoio de uma equipe.

O {PARÇAS} CRIOU UM SISTEMA DE CERTIFICAÇÃO DE TALENTOS

Faltava, no entanto, experiência de venda para a dupla de empreendedores. Os recrutadores para os quais explicavam o projeto dependiam sempre de alguém de cima tomar uma decisão e a conversa nunca era retomada, como conta Alan:

“Imagina alguém sugerir trabalhar com egresso, gente de periferia, ensinar programação, já dá um tilt na cabeça dessas pessoas”

“Precisava passar a mensagem de uma mão de obra bem formada e criamos um módulo de certificação, baseado na experiência que eu tinha com o mercado financeiro”, complementa.

A ideia era mostrar evidências do talento, apresentando o que ele tinha feito antes, como tomou as decisões.

UMA ENTREVISTA DE EMPREGOU VIROU UM PITCH

O vento passou a soprar a favor em 2019, quando a primeira empresa contratou os serviços do {Parças}. A Stark Test, startup de Santo André da área de automação de testes, estava atrás de programadores e chegaram até Alan pelo currículo dele, pensando em oferecer um emprego.

“Topei conversar com o diretor, mas na hora disse que não estava aceitando propostas de emprego e tinha uma contraproposta. Ofereci nossos talentos e disse que, se ele não ficasse satisfeito, a gente substituía sem custo”

Ele aceitou fazer um teste com um jovem e depois acabou empregando 70 pessoas. A partir daí, apareceram outros interessados. 

O ESQUEMA DAS AULAS É HÍBRIDO 

São três tipos de formações oferecidas pelo {Parças}: quatro meses para júnior, de seis a oito meses para pleno e 12 meses para sênior.

As aulas costumavam ser todas ao vivo, o que gerava muito engajamento, apesar de os alunos não conseguirem tirar dúvidas em escala.

“Mesmo sendo de tecnologia, eu era contra aulas à distância porque a gente precisava estar perto dos talentos”, afirma o empreendedor. Mas a rotina dos jovens na periferia, com outros trabalhos e cursos técnicos, pedia uma adaptação.

Passaram para dois encontros presenciais por semana e o restante dos módulos era gravado. “A gente amadurece e descobre novas possibilidades de acolher, outras maneiras de fazer, além de querer escalar”.

UMA SÉRIE DE ACELERAÇÕES AJUDOU A IMPULSIONAR A EMPRESA

Ainda em 2019, o {Parças} entrou em uma série de programas de aceleração. No do BrazilLAB, voltado a startups com soluções para o poder público, aprenderam a vender para o Governo, aprofundaram-se na temática de compliance e, pela primeira vez, trataram de mensurar impacto.

Em seguida, entraram no InovAtiva Brasil. Lá, tiveram contato com startups que recebiam investimento do exterior e fizeram o primeiro pitch. Ainda experimentaram o InovAtiva de Impacto, que trouxe investidores só de negócios com impacto social e que apresentou uma perspectiva de estratégica a médio e longo prazo.

Tudo isso deu a eles muita bagagem de negociação. E como fizeram muitos contatos e deixaram portas abertas, a iniciativa começou a fluir no boca-a-boca, com receita entrando, 50 mil reais, 80 mil reais, saltos exponenciais que os levaram a fechar o ano com um faturamento batendo nos 500 mil reais.

“A gente viu como as coisas mudam rápido, mas havia a insegurança de alguém entrar e a gente, por ser ‘peixe pequeno’, inexperiente, perder o controle e a empresa deixar de ser o que ela era”, conta. “Mas programas de aceleração são indispensáveis para o negócio ficar maduro, saudável, profundo, adquirir expertise e construir network.”

A PANDEMIA EXIGIU ADAPTAÇÕES, MAS TROUXE NOVAS PARCERIAS

Quando 2020 chegou, a promessa de crescimento e de fechar grandes contratos era grande. Então, veio a pandemia. Ninguém mais podia entrar na Fundação Casa, os possíveis clientes recuaram com receio de investir e muitos talentos foram demitidos e precisaram de recolocação.

“A gente só parou de pé porque tinha caixa e não assumiu grandes compromissos enquanto empresa, como aluguel, dívida, empréstimo. Mas não tivemos escolha a não ser começar a fazer as formações EAD com uma plataforma que criamos do zero”

A página deu início a uma dinâmica diferente porque muitas pessoas se inscreviam pelas redes sociais. Instituições sem fins lucrativos, que também lidavam com o público egresso do sistema prisional, viraram parceiros. Entre elas, o Ação Pela Paz e o Sou da Paz.

Em agosto de 2020 veio o aporte dos family offices Provence Capital e Península Participações, no valor de 200 mil reais. Com o montante, eles compraram computadores para deixar com os talentos e repensaram o modelo de negócio e a escalabilidade de produtos, recebendo muita mentoria e fazendo mais contatos.

A EMPRESA CONQUISTOU CLIENTES COMO BRADESCO E QUINTOANDAR

Hoje, o {Parças} oferece três produtos. No primeiro, de contratação pontual, eles recebem o equivalente ao salário do primeiro mês do desenvolvedor.

O segundo trabalha com a venda de tíquetes de contratação, quando a empresa paga um valor cheio, dependendo da quantidade e do nível dos profissionais.

O terceiro também segue esse modelo, mas envolvendo treinamentos específicos e perfis customizados.

A carteira de clientes traz duas dezenas de marcas fortes, como os bancos Itaú e Bradesco, a startup QuintoAndar, a gigante de softwares Montreal e a plataforma de educação SAS.

O {PARÇAS} MOVIMENTA UM GRANDE NÚMERO DE PESSOAS

No segundo semestre, Alan vai compartilhar um relatório com o total de alunos que passaram pela empresa, mas adiantou que o número gira em torno de mil pessoas.

O {Parças} conta com 30 colaboradores, entre professores, RH, jurídico, marketing, redes sociais, comunicação, financeiro, contabilidade, gestores de projetos, desenvolvedores, analistas, estagiários e menor aprendiz, além de mentores e conselheiros.

“Com um faturamento que a gente vai bater agora em novembro em 1,2 milhão de reais, seria ingenuidade pensar que chegamos aqui por causa de apenas duas pessoas”, afirma Alan. 

UM NOVO APORTE DEU AINDA MAIS FÔLEGO AO NEGÓCIO

A última novidade foi a proposta do Nubank, como uma das três startups que receberão um total de 1 milhão de reais. O investimento trouxe uma perspectiva mais ambiciosa a Alan.

“Nosso plano é, em 15 anos, transformar todas as unidades prisionais do país – hoje, em torno de 1 500 – em uma célula de qualificação profissional”

Quando soube dessa última conquista, o jovem empreendedor ligou para a mãe para contar. “Ela só me perguntou: filho, isso é honesto?”.

Pode ficar tranquila, Dona Lili.

 

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: {Parças} Developers School
  • O que faz: Capacita egressos do sistema prisional para o mercado de programação
  • Sócio(s): Alan Almeida (CEO), Carla Cristina (Head de Operações)
  • Funcionários: 30
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 33 mil
  • Faturamento: R$ 1,2 milhão (previsão para novembro de 2021)
  • Contato: [email protected]
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