Sucesso sem felicidade não é sucesso. Precisamos redefinir com urgência o significa ser “bem-sucedido”

Rodrigo V. Cunha - 31 mar 2021
Rodrigo V. Cunha, criador do projeto e autor do livro "Humanos de Negócios" (crédito: @daniel_pinheiro_photography).
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O que é sucesso? Por muitos anos, crescemos com a ideia de que a medida do sucesso de uma pessoa estaria no tamanho de sua casa, no valor do seu carro, no tempo que ela se doava ao trabalho. 

Fomos criados em uma sociedade em que as narrativas focavam sempre no lucro (muitas vezes, de poucos), em jornadas exaustivas de trabalho e na imagem do herói solitário que fazia tudo sozinho, sem se importar com os outros ou com o seu entorno. 

Essa ideia nunca me agradou. Por que basear sucesso e felicidade em posses? Onde se encaixam as experiências? 

E mais: como encaixar experiências num dia a dia consumido por trabalho? Vivemos falando sobre a construção de um legado de mundo melhor para os nossos filhos e seus descendentes — mas como fazer isso com os mesmos modelos que não fazem mais sentido?

Mais do que jornadas de trabalho extenuantes e desumanas em busca de um bônus um pouco maior, o capitalismo old school também prega um consumo desenfreado, sem parar para pensar se aquilo faz sentido e que tem gerado resíduos e danos ao meio ambiente, destruindo recursos do planeta e dificultando as condições de vida para todas as espécies. 

Vivemos naquele ciclo muito bem definido na frase anônima que circula pela internet: compramos coisas que não precisamos, com o dinheiro que não temos, para impressionar pessoas das quais não gostamos. 

Por que é assim?

A máquina do capitalismo chegou a um ponto em que algumas questões estranhas foram normalizadas. Lembro sempre da palestra de Dan Palotta no TED. Numa fala com mais de 5 milhões de visualizações na internet (que bom sinal!), ele defende que é preciso remunerar as ONGs de uma maneira diferente, porque elas estão resolvendo problemas de verdade no mundo. 

A ironia dele é precisa: “Se você quiser ganhar 50 milhões de dólares vendendo jogos de videogames violentos para crianças, vá em frente: nós te colocaremos na capa da revista Wired. Mas se você quiser ganhar meio milhão de dólares tentando curar crianças com malária, você é considerado um parasita”. 

O LUCRO SÓ FAZ SENTIDO SE VIER ACOMPANHADO PELO CUIDADO COM O OUTRO

A boa notícia é que esta história está mudando. É um movimento de despertar que está tomando forma e vem ganhando espaço. 

Há cada vez mais pessoas entendendo que, se quisermos transformar nossa sociedade, é necessário dar palco a outros modelos de sucesso, que contribuam para mostrar que o capital predador pode dar espaço a um capital mais humano. E entendendo também que isso pode ser lucrativo

(O lucro — e a prosperidade — é extremamente positivo e um motor de evolução. A questão é sobre o que fazemos com ele.)

Com essa ideia na cabeça — mostrar exemplos de redefinição de sucesso –, parti em busca de novas referências. 

Ao longo da minha vida profissional, passaram por mim diversos humanos e humanas de negócios que estavam contribuindo e muito para a criação de um ecossistema forte que tinha como objetivo tornar o meio empresarial e nossa sociedade um lugar mais confortável, inclusivo e preocupado com o futuro do planeta. 

Em suma, eram nomes que apostavam num novo modelo econômico que não está disposto ao lucro a qualquer preço. O lucro só faz sentido se vier acompanhado de um lado humano e um cuidado com o planeta, que olhe para o outro e que não cause destruição. 

O EMPREENDEDOR É UM DOS AGENTES DE MUDANÇA DESSE NOVO CAPITALISMO

Durante quatro anos, entrevistei 27 líderes que trouxeram muitos aprendizados e uma certeza: a mudança começa pela empatia, pela escuta e pelo olhar apurado. 

É preciso investir tempo, ouvidos e olhares para transformar o mundo, além de pitadas de coragem e ousadia. Não vamos mudar nada repetindo o que e como estamos fazendo há anos. Veja só onde isso nos trouxe: a um lugar de imensa concentração de renda e desigualdades sociais.

Sem dúvida nenhuma, o empreendedor é um dos principais agentes da mudança desse novo capitalismo. Ele reúne algumas dessas características e traz consigo um poder de transformação capaz de sacudir estruturas e fazer a roda girar diferente 

Jayme Garfinkel, ex-presidente do conselho da Porto Seguro, resolveu investir em uma questão grave — o sistema prisional — ao deixar o dia a dia da empresa que ajudou a transformar na maior do setor no país. 

O jornalista Chris Anderson criou espaço para discursos inspiradores, buscando espalhar novas narrativas de uma maneira única via TED. 

Ilona Szabó busca transformar em ações pesquisas e ideias por meio do seu Instituto Igarapé. É uma das principais vozes em favor da democracia num momento em que o espaço cívico é confrontado no Brasil. 

Adriana Barbosa criou a Feira Preta inspirada pela efervescência cultural do movimento negro e buscando dar espaço a vozes historicamente caladas, reparando e lutando por um futuro diferente. 

São apenas alguns dos inspiradores exemplos que estão contados no meu livro, Humanos de Negócios, lançado no fim de 2020 pela Editora Voo.

Acredito muito na frase de Fábio Barbosa. no prefácio: É preciso dar certo, fazendo a coisa certa, do jeito certo. Nunca quis buscar atalhos, deixar de lado minha família para fazer mais negócios ou fingir que não via coisas que considerava estarem erradas. 

OS ANTIGOS HINDUS JÁ CONHECIAM OS PRINCIPAIS OBJETIVOS DA VIDA

Em momentos de questionamento, sempre vale consultar conhecimentos ancestrais. No Skanda Purana, texto importante do hinduísmo do século 3 ou 4, há quatro conceitos que seriam os principais objetivos da vida. 

O primeiro deles é o Dharma, a manifestação da natureza essencial de uma pessoa em uma vida virtuosa, ética e moral. O segundo conceito é Kama, e tem a ver com o prazer, como levar uma vida leve, aproveitando e enxergando as coisas boas que existem. 

Moksha, o terceiro item, tem a ver com a busca pela liberação das causas de sofrimento do mundo que conhecemos — e aqui entra um forte componente de autoconhecimento (palavra um tanto desgastada e banalizada neste momento, ainda que extremamente importante para evolução). 

O quarto item, Artha, é central na discussão do propósito do capitalismo e da acumulação de riqueza

É uma palavra que traz diferentes significados de acordo com o contexto. Pode ser sentido, objetivo, propósito ou mesmo essência, dentro de uma visão ampla acolhendo “meios de vida”. Numa tentativa de simplificação, significa os recursos materiais necessários à sobrevivência. 

É HORA DE (RE)HUMANIZAR O DIA A DIA DOS NEGÓCIOS

Uma pesquisa do Instituto Gallup com 1,7 milhão de pessoas em 146 países descobriu que o indivíduo se considera satisfeito e pleno com um valor de 95 mil dólares anuais. 

No início de 2018, um dos autores do estudo disse à revista Fast Company que o aumento dos níveis de felicidade tende a diminuir à medida que você ganha mais dinheiro

Então, fica a pergunta: por que continuamos buscando lucros astronômicos e sem sentido algum às custas de saúdes físicas e mentais, aumento de desigualdade e diminuição do senso crítico? Qual a nossa intenção com isso?

Temos conhecimento, vontade, e ainda temos tempo para mudar um modelo que se mostra falido. Cada exemplo conta. Cada atitude é um sinal do que acreditamos e do que queremos construir. 

É hora de (re)humanizar o dia a dia dos negócios e colocar o foco nas novas referências. Até porque sucesso sem felicidade definitivamente não é sucesso.

 

Rodrigo V. Cunha é CEO da ProfilePR, autor do livro e fundador do projeto Humanos de Negócios, conselheiro do Civi-Co e cofundador do Movimento AGORA!. Palestrante e pai de três filhos, surfa desde os 12.

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