Um saco de cimento custa mais caro na periferia. O HousingPact pretende contornar a “penalidade da pobreza” com inovação

Maisa Infante - 27 jan 2020
O Jardim Ibirapuera, na periferia de São Paulo, receberá prontos-pilotos do HousingPact, que acelerou startups na cocriação de soluções em saneamento, segurança, crédito imobiliário, reforma, construção e gestão do lixo.
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São Paulo é uma cidade de muitos “jardins”. Dos mais nobres, como Jardim Paulista, Jardim América e Jardim Europa, aos mais pobres, onde a falta de verde e as casas sem reboco emprestam um peso irônico ao nome “ajardinado”.

O Jardim Ibirapuera (não confundir com o parque) faz parte desse segundo time.

Encravado na Zona Sul da capital paulista, a 20 quilômetros do centro, o bairro serve agora como campo de testes para o HousingPact. O projeto, idealizado pelo Instituto InterCement junto com o Programa Vivenda, une grandes players da cadeia de valor da construção civil para acelerar startups no desenvolvimento de soluções de impacto positivo em habitação e infraestrutura em regiões periféricas.

Na primeira fase do HousingPact, entre setembro e dezembro de 2019, empreendedores à frente de 18 negócios sociais (selecionados entre 38 inscritos) receberam mentorias de executivos das empresas patrocinadoras, participaram de workshops e tiveram um dia de imersão para conhecer de perto a realidade do Jardim Ibirapuera.

Estimulados a trabalhar em conjunto, esses empreendedores cocriaram soluções em saneamento, segurança, crédito imobiliário, reforma, construção e gestão do lixo — alguns dos temas mais sensíveis na região, segundo mapeamento da Fundação Espaço ECO, consultoria em sustentabilidade criada e mantida pela BASF.

Agora, cinco iniciativas foram escolhidas e serão implementadas em projetos-pilotos com envolvimento de uma ou mais startups. A lista saiu hoje, segunda, 27.

A Coletando, por exemplo, está envolvida em duas dessas iniciativas: vai tocar a instalação de ecopontos para coleta de resíduos e complemento de renda dos moradores (em parceria com o Vivenda e a Morada da Floresta); e, junto com a Firgun, pretende implementar um esquema de microfranquias desses ecopontos.

Com sede em Maceió, a Isobloco vai aplicar seu sistema próprio de vedação na fachada de cinco casas, além de capacitar moradores no manuseio do material. Outras startups selecionadas para a próxima fase do HousingPact são a Repagina.me e a ÁguaV. Cada uma delas receberá 10 mil reais.

O Vivenda atua como um parceiro local, assim como o Bloco do Beco. Atuante há 16 anos no Jardim Ibirapuera, o projeto cultural integrou a comissão que escolheu as 18 startups e vai ajudar na articulação com moradores e líderes comunitários.

Olga Simantob, coordenadora de aceleração do Impact Hub (que pilota o HousingPact junto com a consultoria NeoAlfa e o Instituto InterCement), destaca o lado prático, “mão na massa”, da iniciativa:

“Nos programas tradicionais, a solução fica guardada no papel ou no aplicativo. No HousingPact, as startups podem acompanhar o cliente e isso é um mecanismo muito importante para validar a solução”

A lista de patrocinadoras é robusta. Engloba a InterCement, produtora e distribuidora de cimentos; a siderúrgica ArcelorMittal; a química BASF; a CBMM, fornecedora de tecnologia e produtos de nióbio; a Duratex, que atua na área de revestimentos cerâmicos, madeira e louças sanitárias; a HM, construtora focada em empreendimentos de baixa renda; e a Tetra Pak, indústria de soluções para processamento e envase de alimentos.

Somadas, essas companhias estão investindo 800 mil reais no HousingPact. Em entrevista ao Draft, Carla Duprat, diretora do Instituto InterCement, contou os bastidores do projeto e quais são as perspectivas futuras.

 

Como surgiu o HousingPact?
Há cinco anos, o Instituto InterCement e a InterCement investiram no Programa Vivenda. A partir desse relacionamento, descobrimos o mundo do consumo da baixa renda dentro da temática de moradia digna. E ficou claro que o grande gargalo do mercado está no preço dos materiais e serviços, que chegam nas comunidades com o que chamamos de “penalidade da pobreza”, ou seja, mais caro do que em áreas nobres.

Ironicamente, um saco de cimento na Leroy Merlin é mais barato do que um saco de cimento que chega em uma loja dentro do Jardim Ibirapuera. Isso nos fez pensar que não estávamos adequando os nossos produtos e serviços para essa população, que muitas vezes nem é percebida pelas empresas como cliente

Fizemos alguns workshops internos para entender essa tendência de projetos de impacto, olhar para a empresa e perguntar como, proativamente, é possível ter um impacto positivo a partir do que fazemos. Percebemos que o nosso produto, o cimento, pode ser uma alavanca na redução da pobreza

Mas era preciso pensar de forma diferente. E [entendemos que] a solução só poderia ser ofertada em conjunto. Disso nasceu esse desejo de fazer uma ação colaborativa entre grandes empresas da cadeia de valor da construção civil. E a forma mais rápida de pensarmos essa inovação na ponta seria fazendo uma chamada para startups.

E como foi reunir e estruturar um projeto com tantas grandes empresas envolvidas?
Como queríamos trabalhar em conjunto, batemos na porta de empresas como Vedacit, Gerdau, Duratex e BASF e todas falaram que tinham a mesma percepção. Então, elaboramos um projeto para apresentar ao Sebrae.

Ficamos um ano em negociação até fechar. O Sebrae ia bancar 65% do HousingPact. Nesse período, fizemos ajustes e mudanças e o grupo de empresas ficou com BASF, Duratex e o Instituto InterCement.

Em janeiro de 2019, o Sebrae deixou o projeto por causa de mudanças internas e do cenário político. Decidimos, então, que iríamos tentar realizá-lo de qualquer maneira. Fomos em busca de mais parceiros e conseguimos trazer Tetra Pak, ArcelorMittal, CBMM e HM

Eu digo que essas empresas são as pioneiras por acreditar em uma ideia. E a nossa expectativa é que com os resultados dessa primeira iniciativa, a gente consiga atrair outras.

Qual é o maior desafio nesse projeto?
Um deles é estreitar mais a relação entre as empresas e startups. É muito enriquecedor para as empresas essa interação, mas as agendas são sempre lotadas. Então, priorizar isso, até como oportunidade de formação de pessoas, é um grande desafio.

Outro ponto é conseguir que as empresas patrocinadoras encontrem nessa pauta o que elas mesmas podem fazer. A beleza do projeto é ter a agilidade de uma startup com a capacidade de escala de uma grande empresa, que já tem uma carteira de clientes para os quais pode apresentar uma solução mais viável.

Existe algum plano de replicar o HousingPact?
A ideia é checar a disponibilidade dessas empresas em reservar um valor para, eventualmente, ir para uma segunda fase de testes dos protótipos. Uma das expectativas é que a gente possa cofinanciar estas soluções. Também pensamos em fazer uma segunda chamada, mais fechada e temática.

 

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